Concerto: Clubbing Optimus Abril

06Apr11

2 de Abril, Casa da Música, Porto
Texto por Nuno Rodrigues/ Fotografia por Mariana Lambertini

O Clubbing Optimus, mais que um evento mensal, começa a tornar-se num ritual, que tem, para alguns melómanos, um cariz obrigatório, pela boa música que tem perfilado nas suas line-ups. O passado sábado não foi excepção, tendo-se virado para a música mais “black soul”, com vários representantes da área e à cabeça um dos seus mestres, nome do r’n’b e funk de qualidade e alvo de “sampling” de grandes produtores e bandas do hip-hop americano: Mr. Roy Ayers, que, apesar da pouca sonância do seu nome, carrega já quarenta anos de “groove” nos ombros.

No Clubbing, a noite começa sempre com o café ou o fino tomado nos corredores da Casa da Música, com as pessoas a conviver e a trocar impressões. Uma casa a meio gás era o panorama. Era fácil reconhecer a impressão do público sobre os vários artistas que iriam actuar, principalmente Roy Ayers, mas era mais difícil perceber o porquê da comparência de um público tão híbrido, nos estilos, na idade e ao que pareceu ao longo da noite, nos gostos.

O mote foi dado por Link, dj veterano nas lides do hip-hop português, que assenta agora bases na soul e que preteriu do velho eixo turntable/MC, para agora tocar com uma banda, “os funks”, que enche o palco de uma forma bastante eficaz.

A banda, com três vozes auxiliares e NBC, fiel companheiro de batalha, a servir de metre de cerimónias, puxaram pelo público e obtiveram entusiasmo da plateia. Batidas “jazzy” bastante mexidas, muitos rhodes, muito muito “groove” no baixista e no baterista e um nível elevado de performance chegaram para deixar Link (que se fixou nas teclas) com um rasgado sorriso e para ganhar o público que encheu a sala 2 . Link mostrou que o hip-hop deu um salto em Portugal , largando fórmulas para se multifacetar.
A chegada da hora da actuação de Roy Ayers, por volta da meia-noite, não mostrou sinais de histeria ou grande movimento nos corredores da casa da música. Entrando cinco minutos antes do início do concerto, assistia-se a uma sala ocupada pela metade. Ayers apareceu com pontualidade britânica, mas com estilo californiano. A banda, que trouxe todo o imaginário afro-americano jazzístico para cima do palco da sala Suggia, entrou com um instrumental, dando azo aos devaneios do vibrafone do músico. Uma sala atenta, mas arrefecida pelo amorfismo da plateia, foi dando uma resposta tímida a um Roy Ayers em forma, e a uma banda enérgica e experiente.

Mas os anos de Roy Ayers em palco já são muitos: com um número de comédia ao mais puro estilo “black soul” em que o próprio e o seu saxofonista sacaram assobios, risos e palmas da plateia , e ainda abriram espaço para um pequena criança com os seus 5/6 anos intervir e ter deliciado o público e os próprios artistas. A partir daí a adesão foi total, até porque o cantautor optou por prosseguir com o seu hit mais conhecido, Everybody loves the sunshine. A sala foi enchendo à medida que o concerto avançou e não se esvaziou mais.
Mais do que a experiência de Roy Ayers, o corpo da música praticada pela banda que o acompanhou ou o requinte dos pormenores, impressionou a facilidade com que o norte-americano ultrapassou o obstáculo de ter um instrumento que passa uma imagem tão vulnerável como o vibrafone, fazendo-o jogar a seu favor.
Passeando pelas terras do r’n’b mais clássico, deu um salto ao funk, aos blues e para o fim já tinha a plateia a seus pés, dançando ao ritmo de Don’t stop the feeling, com promessas de discos autogrados a serem dadas. Um sorriso no rosto da audiência igual ao do próprio Roy Ayers durante o concerto era o que mais se via no final da actuação. Enquanto isto, Rene Hell apresentava-se na sala Cybermúsica, rodeado de geringonças com botões, sintetizadores e instrumentos em que é até difícil perceber a execução.

Cerca de quatro dezenas de pessoas assistiam ao concerto, aproveitando o “factor sofá” para poisar na sala, tendo quatro ou cinco espectadores apreciadores do género. O noise teve ali um fiel representante que actuou com a mesma indiferença perante os instrumentos que os espectadores mostravam pelo artista. Ainda assim, pareceu captar a atenção dos apreciadores do género com os seus ritmos descompassados, sons agressivos e bastante experimentação.

Também nessa sala, logo a seguir a Roy Ayers, o trio de Tiago Sousa apresentou-se ao serviço, tendo o barreirense entrado sozinho para o palco. Sentou-se ao piano e deixou uma harmonia triste, melancólica e monótona a pairar na sala enquanto o porto lhe decorava o fundo do palco. De seguida, os seus dois colegas entraram num concerto que tinha a sala cheia, em parte, por uma plateia saída de Roy Ayers e acabou por assistir a um belo concerto em que o new-jazz e os sons experimentais na generalidade tiveram um fiel seguidor, intercalado com melodias de piano ao estilo das “nocturnas” de Chopin, embora menos complexas e mais melodiosas e repetitivas.

Mais uma noite cumprida, com música de qualidade, à espera que a edição seguinte também o cumpra, nas mãos de Ariel Pink e companhia.

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