Concerto: Tindersticks (com filmes de Claire Denis) @ Aula Magna

13May11

11 de Maio – Aula Magna, Lisboa
Escrito por António Matos Silva / Fotos por Graziela Costa


Há bandas e bandas e há fãs e fãs. E depois há os Tindersticks e Portugal. É no mínimo admirável a solidez que este relação leva, ano após ano, concerto após concerto, entrega após entrega. Desta vez, a proposta era diferente. No palco, os Tindersticks em formato octecto com o senhor Stuart “voz de veludo” Staples a liderar e, no fundo, numa tela, a projecção de excertos de filmes de Claire Denis, a realizadora francesa que, como nós portugueses, tem uma relação estreitíssima com a banda. Seis, seis filmes que a banda já musicou e que na passada quarta-feira se viram projectados na Aula Magna, com a banda prostrada perante nós, pronta para nos deixar prostrados a seus pés no final. Fazia lembrar os primórdios do cinema, em que os 35 milímetros rodavam incessantemente e a banda estava ali, física, a dar som às imagens que se quedavam mudas.

Ainda que a Aula Magna não estivesse cheia, era uma boa casa tendo em conta que era meio da semana e algures na semana anterior a troika tenha galopado sobre nós como cavaleiros do apocalipse. A atmosfera era estranhamente intensa, mas pensando bem, os Tindersticks também o são. Mesmo que na subida ao palco um tímido “thank you”, quase inaudível tenha iniciado uma sessão próxima da Muzak norte-americana, mas estranhamente carregada de nostalgia e romantismo. E claro que faz sentido, ainda mais no cinema francês de Denis. Nostalgia e romantismo são duas palavras, dois sentimentos que se perseguem e andam de mãos dadas mais vezes do que deviam. E alguém o sabe e canta melhor que os Tindersticks?

A claridade do som dava espaço para que o xilofone e o piano – e até um copo – tornassem este concerto uma mistura ébria de realidade e sonho, que só se quebrava quando abríamos os olhos para fixar a tela. Com uma técnica e um empenho impressionantes, a banda ia desfilando uma série de temas instrumentais onde aqui e ali se podia ouvir ecos da inesquecível chanson française a tingir a música aveludada,  que nos embalava e atirava para uma manhã enevoada, envoltos em alguém. Lá está, nostalgia e romance. E muita cumplicidade. Tinha que haver cumplicidade, ou som e imagem nunca teriam ido tão bem entre duas entidades – neste caso, três, se juntarmos o público. E esse, viajava no imaginário rico criado para esta noite.

De quando em vez sentia-se uma tensão, adensada pelas imagens e pela música. E quando Staples se levantava para cantar, encarnando um quase transe, sentia-se um arrepiar. Um arrepiar de sentimentos por aquele espaço cúmplice de banda e público. O resultado era inevitavelmente uma tensão grave e ainda assim confortável para nós, mesmo quando havia alguma rispidez e velocidade nos temas. No fundo, só queremos abrir uma garrafa de bom vinho e esperar que os Tindersticks musiquem o filme da nossa vida. As alegrias, tristezas, paixões, dores e confusões. Mas acima de tudo, a melancolia do nosso dia-a-dia. Para irmos para um sítio onde “there’s no feelings, there’s no pain”. Pelo menos durante uma hora e meia fizeram-no, muito bem acompanhados pelas imagens de Clare Denis. Foi um ápice, rico e capaz de apelar ao que “vai cá dentro” como ninguém. Obrigado Tindersticks. Obrigado.

Nota: o concerto foi inserido na programação do Festival IndieLisboa, a decorrer até dia 15 de Maio. Mais sobre o Festival aqui.

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