Norberto Lobo em entrevista: “[…] Acho que o Paredes não tem paralelo, nem há-de ter”

11May11

Texto por Ana Beatriz Rodrigues *


Teatro da Trindade, em Lisboa, recebe hoje, quarta-feira, a apresentação do novo disco de Norberto Lobo. Chama-se Fala Mansa e é o terceiro registo a solo do músico lisboeta. A solo porque, pelo meio, houve tempo para outras aventuras, conforme nos explica o próprio: “entre o Pata Lenta e este [novo álbum], participei em outros discos, como o de Norman“. Além disso, Norberto garante que não é supersticioso, quando lhe pergunto, entre risos, o porquê do lançamento bianual de edições a solo. “Foi um mero acaso, não foi minha intenção, calhou dessa forma”, ressalva. Ainda assim, entre tanta colaboração, não parece ser difícil, para o guitarrista, a organização da sua agenda: “tenho momentos em que se torna mais complicado [gerir o tempo] do que outros, mas no geral, não. Até agora, tenho conseguido coadunar todos os projectos, que até são mais irregulares. Todos os outros músicos com quem trabalho também têm outras ocupações, não tão regulares, mas, principalmente, Tigrala vai tendo a sua regularidade e agora comecei uma colaboração com o Marco Franco, que espero que seja para continuar”.

Qualquer arte criativa é feita de imaginários; a música acima de todas as outras. Ouvir Norberto Lobo é fechar os olhos e lembrar-nos da rapariga de longos cabelos loiros, nas batalhas de outrora, que Yeats referia nos seus poemas. Talvez por isso, Norberto é um dos últimos magos vivos capazes de mover distâncias, por entre os seus dedilhares quase pueris que o tornam num Carlos Paredes dos novos tempos. Rótulo, que, aliás, desmente humildemente: “sinto-me honrado com essa comparação, mas acho que o Paredes não tem paralelo, nem há-de ter”.

De volta ao factor novidade, Norberto tenta definir-nos o novo disco, mas torna-se sempre hercúleo analisar os nossos próprios filhos. “Não sei se há uma diferença [em relação a Pata Lenta], acho que há muitas diferenças, mas também há muitas semelhanças”, elucida. Gravado em Mértola, no Alentejo, Fala Mansa é, ainda nas palavras do autor, ” um disco que continua a linha dos outros, apesar de trazer algumas novidades”. O primeiro ponto que salta à vista é, desde logo, a inclusão de voz em dois temas. Porquê? “Não houve uma decisão muito racional por trás disso, eram músicas que mexiam com a voz e eu decidi manter assim”, explica-nos, simpaticamente, o músico. Enquanto vamos desvendando os segredos por trás deste registo, ficamos a saber que a parceria formada entre Norberto, Eduardo Vinhas e Pedro Magalhães, no que diz respeito à gravação, se mantém. “É uma colaboração que já dura há muitos anos, antes mesmo do primeiro disco ter sido feito, porque gosto muito de trabalhar com eles. São parcialmente responsáveis pelos aspectos sónicos [de Fala Mansa] e, basicamente, gravaram todos os álbuns que eu fiz”.

O cariz bucólico da música de Norberto Lobo pinta, mormente, cenários de evasão, quase edílicos, em especial quando comparada com a conjuntura maquinal da música actual. Se adicionarmos esse aspecto ao facto de Fala Mansa ter sido gravado no Alentejo, a pergunta torna-se inevitável. Será que Norberto pretende sublinhar uma diferença, musicalmente falando? “Acho que pode ser, certamente, um contraponto. Não era a minha intenção primária, mas sim, pode ser. O Eduardo, que é o dono da casa onde gravámos, já andava a gabar há uns dois anos as qualidades acústicas da casa e como seria interessante gravar lá a guitarra. Portanto, foi isso que motivou, primeiramente, a ida até ao Alentejo, questões meramente sónicas e acústicas. Claro que o facto de estar lá também tem muitas outras vantagens”, responde-nos o músico.

Este auto-didacta não esquece, igualmente, o seu início de carreira, os tempos na Bor Land e até o papel de Sérgio Hydalgo, actual programador artístico da Galeria Zé dos Bois, na sua carreira. “Eu já tocava antes de ir ao Má Fama [programa na Rádio Zero, já extinto], mas o Sérgio foi uma das primeiras pessoas ligadas aos media que reparou [na minha carreira] e é uma pessoa que me  tem dado apoio, não só a mim, como também à música portuguesa em geral, em especial agora, na ZDB. É uma pessoa que prezo muito, por aquilo que faz”.

Em jeito de confissão, Norberto conta-nos que vive para a música. Será esta uma tarefa complicada? “Na verdade, não conheço outra realidade, por isso não posso dar bem a minha opinião, visto que nunca estive, num período mais alargado, a trabalhar noutro país. Ser músico em Portugal tem as suas complicações, mas também temos outras facilidades, temos bons públicos, muitos sítios para tocar, sub-aproveitados na maioria”.

Para o concerto de hoje – e para os vários que se seguem na sua digressão -, Norberto tem surpresas preparadas: “ando a preparar esses espectáculos há muito tempo, vão ser actuações para lançar o álbum, vou tocá-lo integralmente e outras faixas novas que já fiz. Acho que vai ser bonito”. E nós concordamos com ele.

* Fotografia por Vera Marmelo

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