Concerto: Youth of Today @ Santiago Alquimista

07May11

6 de Maio, Santiago Alquimista, Lisboa
Texto por Carlos Miranda/ Fotografia por Fábio Gonçalves




O Santiago Alquimista preparava-se para receber uma noite especial e quem durante as duas últimas décadas conheceu o movimento Hardcore Straight Edge em Portugal sabia disso. À cabeça estavam, novamente reunidos e pela primeira vez em Portugal, os Youth of Today, banda lendária do Hardcore Straight Edge nova-iorquino dos anos 80, símbolo da sua vertente positiva e fundadores do movimento Youth Crew. Mas, para além disso, estava anunciada uma actuação de tributo a X-Acto (a banda mais significativa de sempre da cena hardcore portuguesa) que prometia encher a sala de nostalgia mas, mais do que isso, comportava o potencial de despertar um movimento que se encontra em hibernação.

Para anteceder estes aguardados momentos estavam convocadas duas bandas que tiveram pouca sorte, já que a esmagadora maioria dos presentes acabou por aderir pouco às suas actuações, possivelmente porque a sonoridade pareceu algo desenquadrada em relação ao que se viria a ouvir mais tarde e sobretudo porque faltava a estas bandas o significado que sobrava às duas seguintes. De qualquer forma, os suecos Guilty deram o seu melhor num registo hardcore com laivos de metal, tecnicamente irrepreensível, faltando-lhes talvez um pouco mais de criatividade. Seguiu-se Wrong Answer, banda americana que, apesar do seu esforço, em termos de envolvência nada acrescentou ao concerto anterior, apresentando temas mais rápidos e a apelar ao “mosh”, sem grande efeito. Foi uma tarefa ingrata para estas duas bandas que provavelmente desconheciam que as esperava um Santiago Alquimista repleto de pessoas que estavam ali com propósitos muito claros e era precisamente por esses momentos que ansiavam.

Subitamente encheu-se toda a área em frente ao palco onde os Uma Só Voz (projecto composto por ex-elementos de New Winds, Pointing Finger e Time-X) ultimavam os detalhes finais. Sem pré-aviso, atacaram com a música que deu nome ao projecto: Somos Uma Só Voz. A apoteose vivida desde os primeiros instantes só pode ser explicada pela intrínseca comunhão que todas estas pessoas ainda têm com X-Acto, que mais surpreende se tivermos em conta que boa parte delas provavelmente nunca viu a banda actuar ao vivo. Em menos de um minuto se definiu, em coro, o significado deste movimento para os presentes e, com certeza, para muitos ausentes. Percorrendo a diversidade de registos que os X-Acto deixaram durante o seu percurso, todos os temas revisitados foram tocados por 5 mas cantados por todos, como se a sua vida dependesse disso, fazendo da mistura explosiva entre raiva e inocência uma autentica bomba relógio. Para o Sol Brilhar, Anchor, Backwash, Bridge e 1995 foram alguns dos momentos vividos mais intensamente, apesar de toda a actuação ter sido marcada por uma extrema adesão e dedicação.

Um dado curioso é que entre o público se encontravam, à excepção do falecido Rodrigo Barradas (certamente presente em espírito), todos os membros que compunham X-Acto e, mais tarde, Sannyasin. Pela voz de Bruno “Break” foi feita a merecida homenagem ao legado deixado pela banda e ao papel decisivo que tiveram na vida de tantas pessoas, do mesmo modo que foi passada a mensagem essencial da noite: tanto o passado como o futuro se resumem ao presente e de nada vale viver noutro momento que não este, fazendo as melhores escolhas possíveis tanto para nós como para os outros. Hope, um verdadeiro hino do movimento, fechou as hostes gerando uma completa fusão entre banda e público, juntos como um só em perfeita harmonia. Um concerto de antologia que, sem tirar mérito à performance, se deve inteiramente ao efeito que estas músicas têm, e sempre terão, quanto tocadas perante pessoas que sentem aquilo que através delas se transmite e as vêem como potencial de mudança para as suas vidas.

Apesar de este cenário aparentar o contrário, não estava esquecido que esta noite era dos Youth of Today. Ray Cappo e John Porcelly (mais conhecido por Porcell), respectivamente vocalista e guitarrista fundadores da banda, eram esperados por todos e arrancaram vigorosos para um concerto pleno de energia. Terminado o primeiro tema, Cappo dedicou desde logo toda a actuação a uma banda que considera também ele especial, tanto pelo que representam em Portugal mas também por serem amigos: X-Acto. Mais um tema suado e esgotado em menos de dois minutos e nova menção do vocalista à realidade portuguesa, considerando esta cena hardcore diferente e especial, pelo menos nesta vertente positiva, que, segundo ele, mais do que se queixar dos males do mundo se esforça para o tornar melhor. Seguiu-se Take a Stand e, em nova intervenção, Ray Cappo voltou a mostrar-se bastante comunicativo, sincero, humilde e motivado, admitindo com sentido de humor que não é propriamente um grande cantor e que o facto de todos o ajudarem a entoar as canções ajuda a disfarçar isso mesmo, agradecendo tanto à inspiração onde foi beber durante a sua adolescência como aos que o consideram uma referência. A banda apresentou, entre outros clássicos, Positive Outlook, No More e o tema auto-intitulado Youth of Today, antes de Cappo dedicar um tema à sua filha, prestes a completar 6 anos.

Antes de anunciar A Time We’ll Remember, o vocalista aproveitou ainda para partilhar brevemente a sua história acerca do início da cena nova-iorquina, desde o primeiro grupo de pessoas às bandas que foram surgindo e à editora que formaram pelas próprias mãos como meio para mostrar a mais pessoas as músicas que ali se tocavam, tudo isto para reforçar a mensagem deste evento, a de que apesar de em todos os momentos terem existido pessoas a vangloriar os bons velhos tempos, o que é realmente importante é cada um de nós fazer o máximo e o melhor que puder do presente, o único momento que verdadeiramente importa. É anunciada a penúltima música, desta vez cantada por Porcell, já que se tratava do tema New York Crew, original dos Judge, de cuja banda o guitarrista é também fundador. Break Down The Walls parecia terminar a actuação mas o que veio a acontecer não foi mais do que um breve encore que, para gáudio de todos, foi seguido de duas versões: a primeira de Minor Threat, através da música com o mesmo nome e, por fim, Young Till I Die, dos 7 Seconds, foi o clímax desta noite muito particular que, se não mais, serviu para recordar que a idade é apenas um estado de espírito e que o presente é o momento mais valioso que existe para transportar para a vida real todas as ideias e intenções que intemporalmente estão contidas nestas canções.

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