Abe Vigoda e Glockenwise na ZDB: Desilusões e Promessas

07May11

5 de Maio, Galeria Zé dos Bois, Lisboa
Texto por Gonçalo Trindade/ Cartaz por Célia Esteves


Demoraram a cá chegar, mas chegaram. Foi esta quinta que os Abe Vigoda se estrearam em Lisboa, após um concerto no dia anterior no Porto, após anos de espera e expectativa. Como não o poderia ser, com um disco como Skeleton, uma bomba de energia ríspida e ruidosa que os colocou justamente num pedestal para muito boa gente? Um pedestal que tremeu com Crush, o último disco da banda, com menos guitarra e mais electrónica, com menos ruído e mais limpidez, mais genérico e com menos alma. E, até ao final da noite, o abanar ter-se-ia intensificado, e os Abe Vigoda teriam desiludido. Mas, antes disso, é urgente retroceder no tempo.

Devo ter andado num buraco para nunca ter visto antes os The Glockenwise ao vivo até esta noite. São donos de um disco de estreia notável, Building Waves, de um rock jovem mas maturo, feito com bom gosto e um talento para a musicalidade que impressiona qualquer um. As músicas são brutalmente catchys, sim, mas não no sentido superficial da palavra; são-no apenas por serem tão directas e tão boas. Tinha expectativas altas nesta primeira em vez que os apanhava (finalmente) ao vivo, e ansiava em saber se conseguiam em concerto conjugar todo aquele talento que o álbum demonstrava.

Resume-se a isto: ao vivo, são assustadores. Assustadores na forma como agem, tocam, e trabalham as canções ao vivo. Como é que um bando de gente tão nova pode ser assim tão boa? Será magia negra? Voodoo? Possivelmente. Ver os Glockenwise actualmente ao vivo é presenciar uma futura grande banda ainda na sua fase inicial. Já são muito bons, sim, mas serão grandiosos. Daqui a uns anos, diremos todos aos nossos netos “O avô viu os The Glockenwise com o primeiro disco, quando ainda tocavam no Musicbox e na ZDB.”, e eles vão olhar-nos de olhos bem abertos e arregalados, impressionados com o acontecimento histórico que testemunhámos em jovens.
O que mais impressiona nos The Glockenwise ao vivo (em disco já se sabia que eram óptimos) é, efectivamente, o talento da própria banda em fazer música e conseguir arranjá-la para tocar ao vivo. Bardamu Girls? Ao vivo tem mais uns bons minutos, é alongada e explorada na perfeição, e serve como um opener espectacular. Stay Irresponsible? As guitarras ao vivo são mais vívidas, mais ríspidas, e os rapazes não páram quietos um segundo. Tornam a canção mais rápida e energética. As músicas ao vivo são ainda melhores, tocadas sempre na perfeição e com uma energia notável (e tinham eles acabado de jantar, tendo chegado atrasados à ZDB…). E, claro, Local Song For Local People é espectacular, nem que fosse tocada só com ferrinhos.

A certa altura, um dos guitarristas tem um problema com a guitarra e é obrigado a mudar (é algo muito frequente em concertos, pelo que me disseram). Passa-lhe mais uma guitarra pelas mãos, mas surge mais um problema. Entretanto, os outros três continuam a tocar, alongando a canção. Valeu o baterista dos Abe Vigoda que aponta para uma das guitarras da sua banda. O jovem corre para lá, e em dois minutos está tudo de volta ao normal. Pequeno precalço, durante o qual a banda continuou, sem pausas; um pequeno toque de profissionalismo que vale a pena apontar.

São talvez a banda jovem que actualmente mais potencial tem no nosso panorama. Concerto impressionante, assustadoramente bem executado e pensado, musicalmente exemplar. Já são espectaculares, agora é deixar crescer. Foi o concerto da noite.
Pouco depois, entram os Abe Vigoda. Surpreende relembrar o quão novos também são ao vê-los entrar em palco; são, afinal, uma banda já com um nome sonante, quatro discos na bagagem e, convém relembrar, um deles é Skeleton, obra-prima de testosterona juvenil gerido de forma a fazer música de bom gosto. Crush, saído no ano passado, é o seu pior trabalho, como já aqui foi dito, e quando começam o concerto com Sequins, primeira faixa desse disco, é um momento agradável, mas que não faz jus à banda que são. De seguida, vem outra música do novo álbum. Mais um momento agradável. Mais uma do novo. Mais um momento apenas agradável. E outro. Outro. Mais um. Subitamente, chega Bear Face, de Skeleton. Tudo sobe um pouco de ritmo, de energia, e torna-se melhor, ainda que sombra do que devia estar a ser. Mas minutos depois as canções novas chegam, e voltamos ao genericamente agradável. Eles são simpáticos, interagem, pedem ao público que dance (pedido recusado por um público que no geral não se mexeu muito), e brincam com as pessoas do lado de fora do vidro, a ver o que se passa. Não há nenhum momento mau, mas também não há nenhum que se aproxime sequer do memorável ou que vá muito além de mera competência. Crush, infelizmente, ao vivo é apenas um pouco melhor que em disco. Perdeu-se a energia, a testosterona, a rapidez e o rock… em vez disso, ganhou-se uma drum machine. Os Abe Vigoda eram, segundo diziam, post-punk. Agora são post-Skeleton. E post-AbeVigoda-que-muita-gente-adora.
Deu para abanar um pouco o corpo, tal como tantos outros concertos de tantas outras bandas teriam dado, e nunca foi além do genérico e agradável. Talvez seja só nesta digressão. Talvez na próxima regressem em força, fazendo uma selecção exemplar de todos os seus trabalhos. Mas, por agora, banalizaram-se por completo. Concertos assim há, infelizmente, todas as semanas.
A certa altura, pede-se que toquem uma canção antiga. “Oh, já não sei tocar essa”, responde um deles. “Ia estragar tudo”. Que aprendam rapidamente a fazê-lo de novo, porque com concertos assim não há muito a estragar. Desilusão dada por uma banda que é capaz de mais, como já se demonstrou antes em disco, e que proporcionou entretenimento genérico e nunca acima do “giro”. Prometiam, mas não cumpriram. A noite acabou por valer não por aquele quarteto americano com quatro discos na bagagem, que chegou cá finalmente após várias direcções, mas antes por aquele quarteto português, com um único disco, que nunca tocou lá fora. Uns desiludiram, os outros cumpriram o que prometeram em disco e lançaram uma promessa ainda maior: a de domar o mundo. Por este andar, estes jovens de cá vão no caminho certo. Os outros, por outro lado…

Advertisements


No Responses Yet to “Abe Vigoda e Glockenwise na ZDB: Desilusões e Promessas”

  1. Leave a Comment

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s


%d bloggers like this: