Concerto: Vladislav Delay Quartet @ Teatro Maria Matos

06May11

5 de Maio, Teatro Maria Matos, Lisboa
Texto por António Matos Silva


De Stockhausen a Brian Eno, a música electrónica cresceu, diminuiu, estagnou, arcou com os estereótipos do techno, eurodance e electro-pop e levou muita gente a achar que a boa electrónica (aquela propalada pelos The Knife) estava esgotada e encerrada em si mesmo. O que acontece depois? Uma sensação de vazio, um silêncio que rodeia este espectro que se julga erradamente gasto e repetido. É aqui que entram novos valores como Tim Hecker, Ben Frost, Pure Reason Revolution e, claro está Sasu Ripattu enquanto Vladislav Delay Quartet.

O percussionista finlandês já tem anos de estudo na área da manipulação sonora e da fusão de estilos. Com trabalhos que roçam o orgânico – que não deixa de ser irónico, uma vez que os compõe por meios artificiais -, com ambientes roubados à paz natural do Norte europeu, Sasu acabou por dar nas vistas por conseguir abordar o silêncio que rodeia (rodeava?) o espectro electrónico. Mas só isso não chegou: era preciso abordar o binómio silêncio-ruído de forma mais ampla.

É precisamente isso que os Vladislav Delay Quartet fazem – e fizeram ontem à noite num Maria Matos com mais gente do que seria de esperar. Com delays a sair de todo o lado, o silêncio que se fazia sentir no Maria Matos foi progressivamente preenchido por uma fusão quase perfeita entre free-jazz, dub e electrónica. A percussão de Sasu, sempre etérea, marcava e pontuava o silêncio, que era complementado pelo contrabaixo fantasmagórico de Derek Shirley e os ruídos sintetizados que procuravam, aqui e ali, libertar-se do seu espaço e criar tensão, aquela tensão que prende um público que por vezes pareceu não saber bem o que estava a acontecer.

Esta espécie de banda jazz que podia ter saído de Blade Runner, soava demasiadamente fractal e começou a faltar algo que pegasse em todas as fracções de ruído, as agarrasse e desse cor – só para as voltar a distribuir por toda a parte outra vez. Foi aí que entrou Lucio Capece, o homem dos sopros que, de oboé a saxofone, tocou um pouco de tudo e encheu o silêncio que pairava vazio sobre nós.

Com os sopros em grande nível, o Maria Matos ganhava contornos de um telefilme americano dos anos 60, em que a estrela é um detective mulherengo e se desloca entre bares dúbios, cabarés e becos escuros. O resultado, muito apoiado no glitch de Mika Vainio, é um devaneio que, ao contrário do filme, não acaba numa cena de sexo, mas sim em tensos confrontos entre anti-herói e antagonista.

Com o contrabaixo praticamente inaudível, o sobressaía em grande o glitch abismal dos sintetizadores. E, claro, a bateria de Sasu, sempre banhada naquele delay deambulante tão próprio do dub, mas que ontem alimentou implacavelmente um ambiente maquinal, a roçar o industrial. E a combustão dava-se sempre que o sax endiabrado e manipulado até ao último detalhe entrava em cena. Longa vida ao free-jazz!

Tudo acabou como começou: etéreo, drónico, de mansinho. Se este concerto vindo do Norte futurista tivesse um gráfico, teria marcado uma curva que sobe e desce. Mas atinge um pico, que só não foi mais alto porque faltou agressividade (leia-se volume) e garra (leia-se equilibrio e equalização). Porque distinção e originalidade até houve a rodos.

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