Reportagem: SWR Barroselas Metalfest XIV – dia 2 (30 de Abril)

05May11

30 de Abril – SWR Barroselas Metalfest XIV, Barroselas
Texto por Emanuel Pereira / Fotos por Pedro Roque 

Ainda que este 30 de Abril contasse com os Venom, seria uma missão complicada igualar o primeiro dia do SWR. Esse objectivo tornou-se ainda mais árduo quando se soube que três das bandas que iriam tocar no sábado tinham cancelado a sua participação no festival: Birushanah, Sourvein e Purgatory. Os Pestilência tiveram de subir ao palco secundário e o dia, que estava inicialmente programado para acabar para lá das três da manhã nos dois palcos, foi encurtado para a uma. Contudo, os festivaleiros foram recompensados: a tenda do Milhões de Festa teve o seu ponto alto SWR, com os Plus Ultra a darem, madrugada adentro, um concerto que foi tão bom quanto inesperado. E a malta da Lovers & Lollypops não se ficou por aqui…

Exquisite Pus [Palco 1]
Coube a estes espanhóis a tarefa de iniciar o dia. Um dos guitarristas, Achokarlos, lenda do youtube, já tinha tocado na madrugada anterior na tenda do Milhões e acabou por ser o único ponto de interesse desta banda que pratica um brutal death metal genérico e sem história.

Dead Meat  [Palco 2]
Num concerto que serviu para apresentar algumas malhas do novo álbum, os portugueses Dead Meat conseguiram uma meia hora sólida de actuação, num instrumental tipicamente brutal death/goregrind, que, ainda assim, se mostrou bem mais forte comparativamente com os espanhóis de Exquisite Pus.

RDB [Palco 1]
Os Raw Decimating Brutality já tinham actuado no dia zero, animando aqueles que chegaram a Barroselas vinte e quatro horas antes do arranque oficial. Agora, no palco 1, e com direito a plateia maior, os portugueses conseguiram nova boa performance. Com um grind bem humorado inspirado nas lides da construção civil, os RDB actuaram durante quarenta e cinco minutos, servindo músicas icónicas do underground nacional como O Muro Está Mal Pintado, Sperm to Grind Your Ears ou Calhau No Quintal.

Equaleft [Palco 2]
Já os Equaleft não encantaram. Praticando um death metal/metalcore comum sem grande originalidade, esperava-se que compensassem esse vácuo criativo com uma energia forte, aproveitando o facto de actuarem no palco secundário, onde é mais fácil criar o espírito apropriado para um bom concerto. A verdade é que até nisso ficaram aquém do esperado, principalmente para uma banda que é actualmente bastante propalada. Não encantou.

Devil In Me [Palco 1]
“Não é preciso fazerem cara de maus”, disse Poli, o vocalista dos Devil In Me, enfrentando uma plateia pouco dada ao hardcore da banda. Com uma atitude positiva e tentando quebrar o gelo na audiência, os Devil In Me amealharam pontos suficientes para saírem com saldo a verde de um campo que não é o apropriado para eles. Bem calibrados pela tour europeia recente com Madball, o grupo português deu o concerto possível, atendendo às condições circundantes.

Pestilência [Palco 2]
E aqui apareceu o primeiro concerto acima da média do 2º dia do SWR. Colocados à última da hora no palco secundário para substituir um dos espaços deixado pelos vários cancelamentos, os Pestilência conseguiram, até, superar aquilo que os Alchemist conquistaram no dia anterior – recorde-se que as bandas partilham o mesmo line-up. Mostrando um black atmosférico intercalado por solos bluesy, os Pestilência foram senhores em palco, culminando a actuação com uma cover de Darkthrone.

Filii Nigrantium Infernalium [Palco 1]
Algo atabalhoada, a performance dos Filii, ainda assim, conseguiu situar-se num bom plano. Um atabalhoamento que começou logo na entrada em palco, que demorou mais do que o esperado, e que se estendeu à troca de músicas à última da hora no setlist. A verdade é que o instrumental black n’ roll dos lisboetas é suficiente para superar os tropeções e músicas como Calypso e Puta Infernal, intercaladas por dedicatórias “especiais” a João Paulo II, chegaram para agradar à maioria da plateia.
 

Web [Palco 2]
Aqui está um exemplo de uma banda que compensa a parca originalidade criativa com uma boa entrega ao vivo. É complicado inovar instrumentalmente num género quase estático como é o thrash, mas, ainda assim, a banda do Porto – que já conta com 25 anos de actividade – consegue ao vivo criar uma sinergia que permite remeter essas dificuldades para segundo plano. Com o novo álbum lançado este ano, Deviance, os Web estão com as baterias recarragadas e isso notou-se no concerto do SWR.
 

Taake [Palco 1]
Quando todos referiam Satanic Warmaster e Hell Militia como os dois grandes nomes de black metal do cartaz, eis que os Taake conseguiram, provavelmente, levar para a Noruega a melhor actuação do festival dentro do género. Aproveitando um som relativamente equilibrado, o que foi raro no palco principal neste segundo dia, Hoest e companhia deram um concerto carregado de atitude, com o vocalista a provar que é um frontman à grande. A finalizar, ergueu a bandeira da Noruega, formando uma cruz invertida, despendido-se de Portugal ao seu melhor estilo provocatório.
 

Jesus Cröst [Palco 2]
Os Jesus Cröst foram uma das bandas do SWR. Para isso, teria bastado a sua actuação no Estádio da Associação Desportiva de Barroselas. Mas como não se limitaram a isso, ainda foram ao palco secundário desferir vinte minutos frenéticos de powerviolence/grindcore. Qual duas personagens cómicas saídas de um livro de banda desenhada, o par holandês instalou uma confusão arrasadora à frente do palco, que apenas pecou pela curta duração. Bem humorados, foi possível vê-los por entre a plateia durante o resto da noite, com o baterista a usar um casaco do Futebol Clube do Porto enquanto vendia camisolas da banda.

Malevolent Creation [Palco 1]
Não há que enganar: os Malevolent Creation jogam no campo do death metal puro e simples, ao estilo americano, sem tretas adicionais. Para uns, poderá ser chato; já para os fãs do estilo, poucas bandas terão capacidade para os superar. Então nos momentos em que decidiram pegar no The Ten Commandments, aproveitando igualmente o bom som, os Malevolent Creation distribuíram uma performance forte, sólida e sem espaço para aselhices. Atendendo à agitação na frente de combate na plateia, os norte-americanos conseguiram sair de Barroselas com a vitória no bolso.

Sektor 304 [Palco Milhões de Festa]
Já a noite tinha caído sobre Barroselas, quando o Palco do Milhões de Festa começou a carburar. A inaugura-lo estiveram os Sektor 304, uma banda fora dos comuns padrões que tanto se vêem por aí. Numa abordagem tribal-industrial (por muito estranho que isto soe), o trio foi-se multiplicando entre samples e batidas cruas, nascidas a partir de materiais reinventados, criando um cenário à la Godflesh/Swans colocados no centro de uma qualquer floresta inóspita. Excelente concerto.

Morte a 3 [Palco Milhões de Festa]
Nocturnus Horrendus, V-Kaos e Vulturius.
Sim, é o lineup de Morte Incandescente. Mas, desta vez, o grupo decidiu colocar o seu reportório de lado, bem como o corpse paint, preferindo prestar homenagem a algumas das suas influências musicais, como por exemplo Bathory, Darkthrone e Black Sabbath. Com Veronica a encarregar-se das lides vocais (e que bem que o fez!), os Morte a 3 deram um dos melhores concertos deste 2º dia, criando um excelente e taciturno ambiente na pequena tenda colocada no exterior. A única queixa que se pode fazer é o facto de terem chocado com os Venom no horário…

Venom [Palco 1]
E estava na hora dos cabeças-de-cartaz. Formados no longínquo ano de 1979, os britânicos ainda não tinham visitado o nosso país. Da formação original, apenas resta o vocalista e baixista Cronos; mas quem pensa que isso serviu como factor desmotivante, desengane-se. Bastava olhar em volta para perceber que se estava na maior enchente até então no palco principal.
Sem temor, os Venom entraram a matar com Black Metal, o seu hino de excelência. Uma aposta de risco, é certo, mas que, pelo menos, garantiu entusiasmo geral. Ao mesmo tempo que a plateia fervilhava diante da banda-ícone, denotava-se algum desconforto pelo som exageradamente alto (nomeadamente a guitarra), o que prejudicou toda a performance.
Ainda assim, hinos como Antichrist, Countess Bathory ou Evil… In League With Satan (esta com direito a letra alterada para “Evil… In League With Chicken”, devido ao surgimento da mascote do GSM, que subiu ao palco e andou no crowdsurfing) foram motivos suficientes para considerar a estreia de Venom em Portugal um sucesso. Cronos continua detentor de uma forte presença de palco e parece ter ficado satisfeito com a plateia portuguesa – no Brasil garantiram-lhe que em Portugal a malta é doida. Se apenas tivessem tido melhor som…

Magrudergrind [Palco 2]
É complicado explicar este concerto por palavras. A insanidade tomou conta do palco secundário durante meia-hora, num powerviolence que de tão assertivo que foi, transformou esta actuação numa das melhores de todo o festival – senão mesmo a melhor. Descomplexados e não necessitando da presença de um baixo, os Magrudergrind não perderam tempo em virar o palco 2 do avesso, vestindo-o de campo de batalha e fazendo da poeira condimento probatório da tortuosidade que se foi sucedendo. Até respirar virou tarefa complicada de executar com a implacável distribuição de pancadaria feita pelos americanos, que se se estivesse estendido para lá daqueles trinta minutos teria, provavelmente, provocado vítimas mortais. Melhor assim.


Evile [Palco 1]
Infortúnio para os britânicos, que se viram obrigados a actuar depois de Venom e Magrudergrind. Com a plateia já visivelmente cansada, esta banda, uma das que mais se destacou da onda revivalista de thrash, não conseguiu suscitar grandes emoções no SWR – festival que já tinham visitado em 2009 e onde também não deixaram grandes recordações. Os melhores momentos acabaram por ser protagonizados novamente pela mascote do GSM, que lá se entreteve no mosh e no stage diving.

The Glockenwise + Tinnitus + Plus Ultra [Palco Milhões de Festa]
A festa de final de noite foi garantida por este trio insano. Primeiro, The Glockenwise, os já amplamente conhecidos barcelenses, que por onde passam agitam as ondas com o seu punk festivo. Nem mesmo o SWR, sítio onde jamais se imaginaria que estes quatro putos pudessem tocar, escapou à riffalhagem simples mas contagiante da banda, que provocou moshada e tudo o mais.
Depois, os Tinnitus. Mesmo sem o megafone que o Kikas pretendia usar, o grindcore do trio deu continuidade à mosharia, desta vez mais acirrada e com direito a presença muy digna da, claro está, mascote do GSM… Não tardou que a cabeça do fato da mascote fosse pendurada no vocalista de Tinnitus, que, mesmo com ela, continuo a vociferar guturalmente o que só ele sabe, numa mescla bonita entre a podridão do grind e a beleza de uma galinha.
E se até a esta altura os índices de demência já estavam elevados, imagine-se como ficaram com os Plus Ultra. Garrafas de água e copos de cerveja a voarem, o vocalista a fazer crowdsurf enquanto cantava, instrumentais caóticos que caíram (que nem ginjas dada a taxa de alcoolemia de quem ainda por ali estava) e um degredo que não parava de aumentar a cada minuto que a banda passava em palco. Um fecho de noite em grande, grande nível.

E ainda faltava o dia 3… 

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2 Responses to “Reportagem: SWR Barroselas Metalfest XIV – dia 2 (30 de Abril)”

  1. 1 António M. Silva

    “Puta infernal” é um verso da Calypso ;)

    • 2 Carlos

      «Puta Infernal» é mesmo um tema de FNI. E Calypso, outro.


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