Concerto: Sei Miguel @ Galeria Zé dos Bois

05May11

28 de Abril, Galeria Zé dos Bois, Lisboa
Texto por Gil Dionísio


Tantas vezes o jazz recebeu o adjectivo de Hot, fora assim quando se passara do rag time e do blues dos campos para algo superior, fora assim quando a América vivera a maior das crises económicas e se ouvia Pops ou se enchia o Savoy, Dizzy e companhia levara a geração beat ao êxtase, Ornette Coleman e o inicio do tao inquitante free, ou a fusão e os instrumentos eléctricos que vieram trazer as mais loucas das experiencias a instrumentistas e ouvintes em todo o mundo. Os tempos foram sem qualquer dúvida, entre muitos adjectivos, excitantes. Depois surgiu a globalização e ao contrário do que seria de esperar, tudo passou a ser acessível, menos o êxtase, este passou a ser local, individual se assim o quisermos. A ironia da globalização é que impossibilita a partilha, toda a gente já sabe de tudo. E assim se podia concluir, como tantas vezes realmente acontece, que as surpresas são poucas, e logo a excitação é menor ou inexistente, há uma banalização, e o hot já não aquece tanto. Até que se chegue a Sei Miguel.

Não se espere então que um concerto do trio dirigido por Sei Miguel será uma noite para um pezinho de dança ou de grandes loucuras entre sonoridades e públicos, será permitido com toda a certeza, mas talvez só será possível para o ouvido desatento para àquilo que há de excitante nesta apresentação do trompetista. Se hoje são tempos em que se sabe de tudo e de nada se sabe, o músico português oferece a oportunidade de se deitar algumas cartas na mesa, traçar rotas, conclusões e indagar sobre aquilo que nos é tão elementar: a experiencia, a experiencia do corpo ou o corpo sem experiencia. O empírico e o transcendente composto por percussão, um trombone alto e um trompete de bolso. O encontro com o cosmos, o todo que é o eu e o que este eu nos proporciona é feito através de um luto. Usando Francis Bacon como referência maior, Sei Miguel começa por procurar e encontrar respostas no luto de Bacon por George Dyer, fazendo assim um estudo de um luto em luto para encontrar “o corpo de toda a gente”.

A ferramenta a usar é o tríptico, e tal como no trabalho de Bacon a forma e o modo não são obra do acaso, o estilo a que Sei já nos habituou encontra um equilíbrio tão sóbrio como contemplativo neste pintar em três partes. Se existe algum caos presente nos fragmentos do tríptico não será de todo na ordem do perturbante, existe toda uma compatibilidade entre ideias, sons e entre os próprios músicos nesta imagem criada pelo trio, desde o calor encontrado no improviso dos sopros ou nos ritmos calculados de Cesar Burago, como na aleatória percussão que serve da mais bela forma o liricísmo das linhas melódicas de Mariam e Sei, culminando numa quase composição, tanto no acto de criação como no acto criado. É importante sublinhar o desafio entre a forma e o arranjo, a criação no momento e a força da composição, o conto da realidade feito necessariamente entre uma gramática bem assente e escrita de antemão, (preparada como resultado de um trabalho que dura desde o inicio dos anos 80), e um surgir de uma linguagem que é resultado do agora, o improviso, e que os sentidos permitem no momento do contar. Estas duas abordagens, a improvisada e a escrita, fazem do homem / musico / compositor, e também do trio, um ser de uma enorme consciência, para consigo mesmo e do que o rodeia.
Nesta coisa que é o jazz e a música contemporânea pelas mãos do, poderá dizer-se, artista e pensador que é Sei Miguel, surge-nos o tríptico como a forma das formas, que engloba o todo numa filosofia tão atenta ao carnal como o transcendente, a narrativa do tríptico é feita através de três estudos: Nuvens, Pássaros e Corpo. O corpo surge então como signo daquilo que nos é mais doloroso, o limitado e encarnado corpo. Se existe em Bacon uma noção de experiencia extrema quando se trata de retratar o corpo, o trio não foge à tradição e permite ao estudo apresentado em primeiro lugar significar-se através do arrastar do sopro, alcançado uma intimidade que poucos instrumentistas têm a oportunidade de experimentar, o toque, o timbre, o bocal e a proximidade do musico para com o instrumento que é o trombone e trompete, permitindo a este estudo do corpo um nível emocional que ultrapassa qualquer que seja a tonalidade ou escolha melódica. Esta proximidade permite, não só a esta parte do tríptico, não fosse todo a obra um resultado conjunto, mas a todos os fragmentos uma força que não só reforça a linguagem, mas que serve enquanto símbolo por si só, o som como agente de uma linguagem independente, que em tanta vezes durante a noite de quinta feira poderia existir apenas enquanto imagem de si mesmo. A qualidade do som em Sei Miguel é possivelmente a sua maior valia, acima de tudo o resto, o modo como se representa sonoramente é de uma presença incontornável, para depois acrescentar toda a conceptualidade e um trabalho complexo e de enorme detalhe, oferece uma pesquisa brutalmente enriquecida e gratificante.

Acabando o fragmento do corpo, visita-se o segundo estudo, painel central do tríptico: os pássaros. Nesta segunda parte, são evocadas as chances, os significados das coisas que passam, e que tão rapidamente passam. Desta vez a métrica do percussionista Burago é ditada em blocos, respeitando ou convidando o silencio e os solistas que falam à vez, anunciando de forma individual os pássaros que vão e vêm. Mesmo nesta fase em que os sopros funcionam de forma separada, não deixa de existir, tanto no trio, como apenas nos dois instrumentos de sopro, uma relação de cumplicidade e de consciência que merece mais uma vez sublinhar.

Depois as Nuvens, o jogo da memória, o catalogo simétrico que trata do passado e do futuro, que prescinde das visitações dos pássaros e nega o corpo. Neste terceiro e último estudo alcança-se a total consciência do tríptico como forma definitiva. Nesta falsa suite o trio ora apresenta-se num arrastamento sonoro por parte dos sopros ora como oscilantes nas métricas de Burago que se auto regeneram matematicamente e são, como costume o grande suporte para tudo o que é necessário retratar durante um concerto de Sei Miguel. Encontra-se nas nuvens a ideia de princípio, mas também de finalidade, de novo uma abordagem bastante consciente que se faz notar no trio, a noção de totalidade. Quando os músicos se encontram, mesmo que por vezes de forma dissonante, não deixa de haver um encontro saudável entre os dois solistas, entre os espaços abertos por Cesar Buraga, o caos nunca sendo inoportuno. Alterando entre o uso ou não das surdinas, marcando assim os diferentes pontos das nuvens, Fala Mariam e Sei Miguel saltam de um arrastamento muito semelhante àquele encontrado no corpo para um contrapontismo, um pergunta e resposta, anunciando o dialogo, o sempre presente jazz. Tanto na rapidez e nos quase abruptos fraseados de Sei Miguel, ou nas afirmações tão cheias e quentes, mesmo que subtis de Mariam, há que voltar a dar atenção ao modo do som. A percussão de Buraga é claramente um suporte imprescindível, pelas estabilidade ou espaços que cria, mas se o som do trombone alto prima pelo cuidado e precisão, o trompete de bolso marca-se por uma voz e alcance que poucos músicos conseguem, sem quaisquer exageros por parte do trompetista, existe constantemente um calor que flutua e enche qualquer que seja o propósito pelo qual Sei Miguel sopra.
Para fechar, quero focar-me no silêncio em Sei Miguel. Uma forma tão presente na sonoridade do trompetista é o silencio, o espaço, a ilusão da existência do nada. E uma sonoridade que tantas vezes fora apelidada de minimalista. Poderia facilmente concluir esta pesquisa sobre o espaço na música de Sei com um simples ‘Less is more’ mas depois de ter assistido à composição do tríptico e tudo o que este implica, já não nos podemos ficar apenas pelos clichés, um cliché nunca é suficiente. Esta abertura e espaçamento, não se trata de estar em menor quantidade, muito antes pelo contrario, é o procurar e alcançar da noção do cosmos, em pinceladas que se sabe onde começam e onde acabam, numa ideia que apresenta todas as formas e possibilidades mas que não as define. A contemplação como palavra de ordem. Sei Miguel encontra e oferece um contacto directo com a realidade, sem qualquer pretensiosismo, onde convida a beber de uma sabedoria que trata a mais comum das experiencias, o sentir e os sentidos expressados em modulações de uma narrativa que é trabalhada desde sempre e que merece sempre ser revisitada, Sei Miguel esclarece aquilo que tantas vezes nos parece ser de tão pouca relevância, transformando um simples concerto numa sessão para serem escutados os sons por parte dos músicos e outros tantos em forma de palavra, que faz do trompetista mais que um artista, um pedagogo.

Advertisements


No Responses Yet to “Concerto: Sei Miguel @ Galeria Zé dos Bois”

  1. Leave a Comment

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s


%d bloggers like this: