Concerto: Aloe Blacc na Aula Magna – Passado, presente e futuro

05May11

4 de Maio, Aula Magna, Lisboa
Texto por Gonçalo Trindade/ Fotografia por Graziela Costa 



O soul está bem vivo e recomenda-se, parece. Aula Magna completamente esgotada e em total apoteose no concerto do jovem Aloe Blacc, a nova promessa do género, que veio apresentar o seu segundo disco, Good Things, num belo e energético concerto que fez relembrar os grandes mestres que deram ao soul a sua alma. Imediatamente na primeira música, Hey Brother, menciona James Brown (claro!) e Stevie Wonder, enquanto coloca logo grande parte da sala de pé para dançar naquele excelente opener. E de facto, eles estiveram lá. Pelo menos em alma.

Mas voltemos atrás para mencionar a jovem rapariga que esteve vinte minutos em palco, mas que ainda assim conseguiu impressionar: Maya Jupiter. Tem acompanhado Blacc nesta digressão (ele foi, aliás, um dos produtores do seu álbum), tocado com a banda que também o acompanha (os Grand Scheme) e o seu estilo meio hip-hop, meio soul, meio rap demonstra um talento tanto na composição como na voz. Tem mãe da Turquia e pai do México, explicando assim o facto de trocar a meio de canções o inglês pelo espanhol. Comunicativa, falou muitas vezes em português, mencionou a origem e de que fala cada canção (apenas era dispensável aquele pequeno discurso à activista que apresentou a segunda música…), e dançou de uma ponta à outra do palco. Vinte minutos apenas, mas serviram para deixar no ar a curiosidade e o desejo de a ver a solo.

Menos de quinze minutos depois, chegava o homem da noite: Aloe Blacc. A banda entre primeiro, dá uma intro, e ele depois entra perante uma Aula Magna já rendida antes sequer de se ter dirigido ao microfone. Começa, como já foi dito, com a energética Hey Brother, que dá logo o mote para a noite: o soul é para dançar. A música transforma-se num jam vertiginoso, a Aula Magna está toda de pé, e a noite já está ganha. A sua voz não impressiona particularmente (aqueles agudos falham imenso, principalmente em You Make Me Smile), mas não deixa de ter os seus dotes, e o carisma acaba por compensar qualquer falha que possa surgir. Blacc dança (até faz moonwalk), raramente está parado no mesmo sítio, e tem do início ao fim um sorriso estampado na cara. Se tudo está obviamente ensaiado até à exaustão? Sim, claro. As interacções com o público não pareceram propriamente espontâneas, e qualquer pausa que surgia para falar ao público era usada pelos músicos para afinar os instrumentos. Mas é uma actuação bem pensada e executada, e resulta. A banda é mais que competente, impressionando particularmente em momentos mais instrumentais, que chegavam no fim de algumas músicas. Um guitarrista, um baixista, um baterista, um excelente teclista, e uma secção de sopros com um músico no saxofone e outro no trompete.

Acalmou as coisas com You Make Me Smile, pedindo a cada um para dar um abraço caso estivesse com alguém que o fizesse sorrir, voltou a torná-las energéticas com Miss Fortune, e foi um espectáculo consistente e sem pausas, como era de pedir, e onde as ovações de pé foram frequentes. Aliás, o público pouco se sentou, ponto. Os grandes momentos estavam guardados para o fim: o combo Politician/I Need a Dollar, uma onda arrebatadora de energia que atravessou toda a sala, pôs um fim perfeito ao corpo principal do concerto (e aquela letra, aquela letra…). Olhando para o público, não se via (literalmente) ninguém sentado, e Blacc deslizava pelo palco com uma confiança impressionante, apenas igualada pelo tamanho do seu sorriso. Foi após uma hora de espectáculo que fez a tradicional despedida antes do encore, perante um público a desesperar por mais.
No entando, quem voltaria a pisar o palco primeiro não seria ele: Maya Jupiter regressa, dirigindo-se ao microfone. Dá com um sorriso na face a notícia que, por esta altura, já todos sabem: o músico vai regressar a Portugal em Julho, para o Cascais Cool Jazz Fest. “Querem mais?”, pergunta. O público grita. “Então dêem as boas-vindas de novo a Aloe Blacc!”. A banda regressa primeiro, depois Blacc, e chega mais um belíssimo momento: uma cover calma e introspectiva de Billie Jean, de Michael Jackson. O músico transformou-a numa balada, imitou os agudos da lenda que já não está entre nós, e tudo resultou muito bem. O público senta-se, mas não por muito tempo: no final, Blacc volta a chamar ao palco Maya Jupiter, para interpretar Rico, um novo tema cantado em espanhol com pedaços em inglês, numa onda caribenha e tropical que valeu não só pela música em si (divertidíssima), mas acima de tudo pelo carisma e química que Jupiter e Blacc partilham. Foi espectacular ver a união daquelas duas vozes, naquele que foi sem dúvida um dos momentos da noite.

E no final, para encerrar o concerto de hora e meia, veio a canção que faltava: a excelente Loving You Is Killing Me, que se já em disco dava vontade de bater o pé, ao vivo se transforma em algo de apoteótico. Blacc a suar (muitos do público deviam estar na mesma situação, acredito), dançando, cantando na perfeição um dos melhores temas (se não mesmo o melhor) do disco, acabando o concerto naquele que foi o seu melhor momento e no espírito ideal: o de celebração. Faz moonwalk, dobra-se sobre si mesmo, e no final agradece e volta a repetir que voltará em Julho. Sai do palco (o público em apoteose, como esteve constantemente ao longodaqueles noventa minutos) deixando a banda acabar a canção de forma espectacular, com alguns minutos instrumentais que revelam bem o talento de cada um dos seis.

Noite de festa, celebração, e por vezes de baladas introspectivas. O soul é isto, afinal de contas. E é bom ver alguém deste género a esgotar uma das maiores salas de Lisboa, e a dar um concerto todo ele tão coeso e consistente, com as suas falhas mas que no geral demonstrou um carisma e um talento que não são nada abaixo de impressionantes. As falhas que existiram (por vezes pareceu ensaiado demais… e aqueles agudos…) pouco minaram a noite, e a experiência certamente fará com que desapareçam. O passado, o presente e o futuro do soul estiveram ali, naquela noite. Resta agora esperar para ver qual será a evolução de um músico que provou, sem sombra de dúvida, ser de facto um dos mais promissores e talentosos músicos do género na actualidade. O soul esteve ali, e mostrou bem a boa forma em que ainda está.

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2 Responses to “Concerto: Aloe Blacc na Aula Magna – Passado, presente e futuro”

  1. 1 poppe1

    Belo resumo do q se passou ontem.
    Bem escrito e bastante fiel aos factos.
    Gostei.
    Só não concordo com a tua opinião sobre o dueto entre o Aloe Blacc e a Maya Jupiter do qual não gostei, se o proximo disco soar sempre assim vai ser uma desilusão para mim.
    Já agora devo dizer que achei uma delícia ele estar á saída da A.M. a dar autógrafos.

    Um abraço

  2. 2 Gonçalo Trindade

    Muito obrigado, fico muito contente por teres gostado.
    Realmente aquele dueto foi num espírito um pouco mais diferente de tudo o que se tinha visto antes, mas acabei por gostar bastante. Gostei de os ver em palco aos dois, acho que há ali imensa química e gostei da combinação das duas vozes. Mas percebo completamente que não tenhas gostado, e já ontem um amigo meu me dizia que também não ficou muito agradado com essa parte.
    Acabei por não mencionar isso no texto, mas é realmente óptima que ele lá tenha ido no final. As bandas começam a fazer cada vez mais isso, e acho que é óptimo tanto para elas como para nós. Proporcionar esse tipo de quebra de barreiras e de interacção é algo que deviam fazer mais. Eu até queria ter lá ido pedir-lhe um autógrafo, mas a fila assustou-me logo…

    Abraço


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