Entrevista a Sasu Ripatti: A percussão enquanto ruído

04May11

Texto por Ana Beatriz Rodrigues

Sasu Ripatti é Luomo, Sistol, Conoco e Uusitalo. Mas também, e sobretudo, é o nome de berço de Vladislav Delay, músico finlandês que actua, amanhã, no Teatro Maria Matos, em formato quarteto. Apaixonado pelos tons do jazz, da techno, ou do dub, Ripatti é o verdadeiro camaleão da electrónica minimal finlandesa, um dos artistas de renome da cena berlinense, onde se sedeou, durante uns tempos. O elemento sónico – que até pode partir de um simples ruído – é pedra basilar na estrutura musical de Ripatti, que, recentemente, foi convidado a participar no ATP de Londres, curado pelos aclamados Animal Collective. Nas linhas abaixo, fiquem com a conversa entre o PA e este percussionista de gema.

Primeiro que tudo, uma vez que a tua carreira pauta-se pelos teus anteriores e actuais pseudónimos, tenho de te perguntar: como é que agendas o teu tempo?
Sou um tipo organizado, por isso, acho que acaba por ser fácil.

E durante o processo criativo, como escolhes o que deve ser enquadrado como Sistol ou como Luomo, por exemplo?
Isso é sempre natural! Surge-me uma ideia, uma necessidade para produzir certas coisas e, depois, envolvo-me nelas a fundo. E só aprofundo essa ideia numa certa altura, ou seja, tento concentrar-me numa coisa em singular e depois vivo-a em cheio, durante o tempo que for preciso para ter as coisas prontas.

De onde ou de que situações é que surgem as tuas inspirações principais, na música?
Vêm da vida no geral, mas em tons de coisas diferentes, como livros, cozinhar, natureza, familia, animais…

Quando estás a compor, qual é o aspecto a que dás primazia?
É um acto espontâneo, por isso não dependo em padrões ou regras. Prefiro dizer até que será o sentimento, mas até isso pode chegar mais tarde, se houver algo interessante para começar. Não me importo muito como é que aquilo soa antes de estar pronto, se eu tiver uma visão clara disso na minha mente.

Li que a tua primeira incursão na música foi na bateria. Se nós visitarmos o teu estúdio, que instrumentos poderíamos encontrar lá?
Bateria e percussão – ou antes coisas em que posso bater e daí extrair um som – são ainda a minha maneira intrínseca de falar musicalmente. Dependo, hoje em dia, em vários aspectos electrónicos e também nos habituais equipamentos de estúdio, contudo ainda utilizo diversas coisas que encontro ou, até, que faço. No final, misturo tudo e toco, com a ajuda de um sampler. Nunca me interessei o suficiente por instrumentos melódicos para os aprender propriamente.

A tua música reflecte diversos estados de espírito. Achas que é uma maneira, mesmo que não objectiva, de estabelecer uma linha de contacto entre o músico e o melómano?
Eu acho que não há, de todo, uma ligação entre o músico e o ouvinte, numa primeira fase. Trata-se de um verdadeiro processo privado e egoísta. Numa segunda instância, as emoções podem ser partilhadas e, talvez, até similares, mas creio que isso concerne à pós-produção. Quando actuo ao vivo, podem existir sensações mais concretas em partilha e, aí sim, podemos criar ligações emocionais.

Musicalmente, és uma pessoa rica, no sentido em que exploras diferentes tipos de música. E qual é o teu favorito?
Acho que devo dizer, como músico, que prefiro aquele que ainda não fiz. Tudo o resto soa aborrecido ou limitador. Enquanto ouvinte, a coisa fica mais complicada, mas acho que será o jazz.

Vivemos numa era em que a tecnologia tem um impacto enorme na música, facto que se pode alargar até às tuas criações. Achas que a criatividade pode ser afectada, negativamente, com esta situação?
Creio que sim. Normalmente, a tecnologia permite maior conveniência e o facilitamento das coisas, tornando-as, igualmente, mais baratas, para arquivar. Não tenho, por isso, a certeza se estas promovem a criatividade, muitas vezes.

Qual é a tua visão sobre a actual cena musical? Há algum artista que te influencie, em particular?
Na verdade, não me envolvo muito nessas coisas. Até costumo seguir as publicações, vou espreitando a Pitchfork quando calha, o básico… Claro que, quando estou em digressão, ouço outras coisas e vou conhecendo outros artistas, apenas para saber o que é que anda a acontecer por aí. Talvez porque trabalho tanto tempo na minha música e dispendo tanto tempo nisso, quando viajo ou quando não estou a trabalhar, gosto de me entreter com música. O acto de procurar novas coisas para ouvir nem sempre resulta muito bem comigo, por isso acabo por ficar com o que já conheço e que amo. E, normalmente, é sempre música mais antiga, à excepção do hip-hop, que até sigo com mais atenção.

Como é ser um músico na Finlândia? É fácil internacionalizares-te?
Acho que, actualmente, é fácil destacares-te em todo o sítio, em especial dentro da Europa. Porém, eu saí da Finlândia bastante cedo e morei em Berlim durante vários anos. Regressei à Finlândia há três anos…

Vais tocar no próximo ATP, curado pelos Animal Collective. Podes contar-nos como é que tudo se desencadeou?
Para ser sincero, nem sei. Creio que a banda me escolheu pelo processo habitual: o curador escolhe os artistas. E depois, alguém contactou o meu agente. Sei mesmo muito pouco sobre isso…

Já tocaste com diversos músicos e agora, ao vires a Portugal, vais estar em palco enquanto quarteto. Preferes actuar com banda ou como um solo act?
Ambos têm os seus reversos e os seus pontos positivos, acho que é um 50/50. Há uns anos atrás, eu adorava o tal conceito de banda, porque era como uma brisa de ar fresco. Agora, depois de ter feito tantas coisas neste formato, dou mais valor ao estar a solo. Todavia, os sentimentos sobre os dois formatos são muito semelhantes, não conseguiria escolher um agora.

E planos a curto-prazo, depois de encerrares esta tour?
Vou ter imensos concertos em Maio e o quinto aniversário da minha filha, o que é um grande evento. No fim do mês, vou ter a minha primeira viagem deste ano, que consiste em pescar e escalar. Estou muito ansioso para isso, vou ter seis dias de pura primavera com sol durante 24 horas…

Por fim, tens alguma coisa especial agendada para o concerto no Teatro Maria Matos?
Isto é, de qualquer maneira, sempre uma surpresa quando estamos em quarteto, que nem precisamos de extras!

Vladislav Delay Quartet pisarão o estrado da sala principal do Teatro Maria Matos, em Lisboa, amanhã, quinta-feira, a partir das 22 horas. Com Sasu Ripatti, estarão Mika Vainio na electrónica, Lucio Capece no saxofone/clarinete e Derek Shirley, no contrabaixo. Os bilhetes podem ser adquiridos no local ou através da bilheteira online do TMM, por 12 euros (6€ com descontos).

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  1. 1 Maria Matos inunda-se de música até Julho « Ponto Alternativo

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