Concerto: Tim Hecker @ Lisboa

02May11

29 de Abril – Galeria Zé dos Bois, Lisboa
Texto por António Matos Silva/ Cartaz por Catarina Dias

A última semana de Abril prometia. Avistavam-se aves raras no horizonte, com pousio certo e marcado para Lisboa. Ben Frost foi como foi: um poderoso soco no estômago, na cabeça e no nosso aparelho auditivo. Quatro dias volvidos, ainda mal refeitos daquela viagem imensa e violenta, chegava a vez de embarcarmos rumo a sabe-se lá bem onde, cortesia de Tim Hecker.

A ZBD fez questão de apagar as luzes para receber o canadiano e o seu público. Com os relâmpagos que lá fora iam caindo e iluminavam a sala pontualmente, a expectativa em torno do concerto ia-se tornano palpável. Afinal, a penumbra só deixava deslindar uma mesa com um Macbook e dois ou três sintetizadores. Do nada, alguém que empunhava um copo subiu ao palco, abriu o computador e fez a sala calar-se, abrir os olhos e ribombar.        

O impacto não foi imediato; de facto, o som começou tímido e lento. Mas à medida que as linhas sintetizadas iam aumentando de volume, aumentava também a tensão, muito sublimada pela negritude das linhas asperamente melódicas e graves. Sabiamente, Tim Hecker opta por fazer um concerto em linha contínua, o que só ajuda a solidificar as sensações e a percepção que temos da sua música. Ao fugir às habituais interrupções entre músicas que só pedem palminhas, é muito mais fácil fecharmos os olhos e deixarmo-nos guiar pelo ribombar palpitante no meio daquela atmosfera tão densa.

O primeiro sentimento é de vertigem; uma vertigem segura e fascinante, que nos faz querer mergulhar de cabeça e entregar àquela melodia quasi maquinal. Ficamos entregues a uma espécie de limbo onírico, a um longo sono quase comatoso, rodeado apenas por estas montanhas de som monolíticas, desbravadas por percursos sinuosos e enigmáticos.

A inspiração em linhas clássicas, escritas por Debussy por exemplo, é notória. Nada é deixado ao acaso, embora possa parecer. E à medida que a música vai avançando, ainda embrenhados no negro, tudo parece ganhar mais intensidade. As três colunas que rodeiam o púlpito dão um sinal de apocalipse quase deítico à noite. Qualquer profecia apocalíptica – seja da Bíblia, de Matrix, de Blade Runner ou Mad Max – tem que ter este tom, este toque e visão de Tim Hecker. Quase que nem nos importamos que o mundo acabe porque, verdade seja dita, nós nem estamos ali. Tudo depende de quem somos, como somos e como fomos – sonho ou pesadelo, sai tudo de dentro de nós.

Infelizmente, o buraco negro que sugou tudo e mais alguma coisa na sala fechou tão depressa como se abriu. Ou porque Hecker não tinha mais para mostrar ou porque se irritou à brava com a luz de um iPhone que irritantemente rompeu o breu da ZDB. Giraram-se os últimos botões, fechou-se a tampa do laptop e adeus. Não durou mais que uma hora este onírico-apocalíptico sintetizado. Tim Hecker não fez mais que girar uns botões e re-ordenar as sequências previamente gravadas (sim, não parece muito diferente de ouvirmos o disco em casa com as faixas trocadas). Mas quem fechou os olhos e se entregou, saiu facilmente dali para paragens imaginárias. E quando tentou despertar, fê-lo com esforço e com um cansaço que ainda perdura –e que ajuda a perceber que acordar e voltar é sempre feito de forma monolítica.

Embora continue a achar que quer Hecker, quer Frost devessem ser obrigados a apresentar um atestado médico que prove que a sua música não traz quaisquer danos para a nossa saúde auditiva, só tenho uma coisa a dizer: obrigado por pulverizarem o meu ouvido interno.

Advertisements


No Responses Yet to “Concerto: Tim Hecker @ Lisboa”

  1. Leave a Comment

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s


%d bloggers like this: