Concerto: Franco, Singh e Lobo @ Lisboa

29Apr11

27 de Abril – Galeria Zé dos Bois, Lisboa
Texto por António Matos Silva/ Cartaz por Carlos Gaspar

Noite transfronteiriça, intercontinental, de intersecções, cruzamentos, experiências, esbatimentos, partilha e intimidade. Sim, houve espaço para tudo isto numa ZDB “vestida” a preceito para entrar em transe psíquico e viajar a bordo das criações (que bom que é uma noite de criação e não re-criação!) de Norberto Lobo, Miraj Singh e Marco Franco. Um português, um indiano e um italiano juntos no mesmo espaço que não é uma anedota. Não, aqui a coisa foi séria.

O ambiente sereno, com cadeiras frente ao palco e mal iluminado por velas, foi rompido pelos ritmos vibrantes das tablas de Singh, os alucínios da maquinaria de Franco (theremin fantasmagórico incluído!) e os loops hipnotizantes que Lobo sacou à guitarra. O resultado foi bonito de ver: durante cerca de uma hora a ZDB transformou-se na Interzona pertencente a Naked Lunch – primeiro descrita por Burroughs, depois filmada por Lynch e hoje musicada pelo trio com um devaneio já antes tentado por Howard Shore e Ornette Coleman. Uma terra distante, em que delírio, exotismo, angústia e psicotrópicos não só andam de mãos dadas como são sinónimos umas das outras.

Com as mãos irrequietas e sempre dentro do ritmo de Singh, tal como na Interzona, também a ZDB pareceu paralela ao espaço e tempo que se desenrolava lá fora. Norberto Lobo era uma espécie de Sleepy John Estes em ácidos e a tocar peças ora de Ali Farka Touré, ora de Ry Cooder. Ou, para quem leu o livro, Peter Weller em plena trip a tocar numa guitarra mutante e aberrante. As manipulações de Marco Franco ajudavam a acentuar o tom etéreo e quase fugidio da experiência em palco e a temperatura alta de uma sala cheia faziam pairar no ar um sentimento de incerteza – será que isto aconteceu mesmo?

Os drones hipnotizantes, baseados em loops de guitarra e num theremin que pairava no fundo, faziam-nos viajar sem sair dali. À Índia. Ao Paquistão. À Turquia. Ao Mali. Ao Cambodja e ao Senegal. Uma espécie de delírio provocado pelo abuso de serotonina implacavelmente derramada a cada acorde, batida ou toque do órgão. Valeu tudo para manter e saciar o vício de viagem, de experimentação e desafio da lógica do tempo.

No final, o exotismo da Interzona era palpável. O prazer era imenso e a certeza de uma noite de viagem ao piano, à guitarra, com percussão e maquinaria pulsava. Mas, cá como na Interzona, acabou tudo de repente. E tentamos sair incógnitos sempre com uma questão no pensamento. Aconteceu mesmo?

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One Response to “Concerto: Franco, Singh e Lobo @ Lisboa”


  1. 1 Para ver: ‘The Satallites Are Spinning’ por Norberto Lobo « Ponto Alternativo

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