Opinião: Para queima, não está mau

22Apr11

Texto por André Forte

Chegou a altura das queimas das fitas e respectivas festas académicas e, por isso, é época do meu argumento de validação preferido: o bom e velho “para X, não está mau.” Numa atenta observação dos comportamentos da fauna que se encontra por esse Portugal fora (para a eficácia da qual aconselho, vivamente, a que se disfarcem com a ajuda da flora – cevadas e plantas silvestres são as mais comuns), registei as suas mais variadas aplicações. Em baixo, apresento-as e sujeito-as a discussão – à partida será num intenso monólogo.

Fugindo às utilizações mais comuns logo de início, vou fazer uso da efeméride académica para vos apresentar o primeiro exemplo: o bom e velho “para queima, não está mau.” É um argumento comummente utilizado para falar dos terríveis cartazes das queimas das fitas, principalmente para destacar a existência de um nome que não é tão horrível quanto isso. Este ano, por exemplo, temos Divine Comedy no Porto e Editors em Coimbra (que até tem um palco RUC, mas cuja programação é feita, como é óbvio, pela Rádio Universidade Coimbra e se livra desta verborreia). Esta é a minha preferida, até ver.     

Temos, ainda, a sua utilização relativamente à música que por cá se faz: “para português, não está mau.” Esta traduz a divisória que se estabelece na produção artística, diferenciando a que se faz aqui e a que se faz ali. Especificamente, demonstra uma perspectiva algo interessante, de que Portugal está à margem da globalização ocidental. Politicamente, diria que é visionária.

Depois, temos as utilizações mais comuns da expressão. Não são as minhas preferidas, mas diria que são as mais perspicazes: “Para quem usa óculos, até nem vês mal,” ou, em casos extremos, “para quem não tem uma perna, até consegues andar bem.”

Nisto tudo, não se equacionam utilizações em nada menos gloriosas que as acima introduzidas, como a positiva “para comida estragada, até está comestível,” a intrigante “para quem caiu de tão alto, nem ficaste mal,” ou a incontornável “para teen-movie, até tem miúdas giras.”

Todas elas têm algo em comum: uma deficiência assumida – algumas são motoras e localizam-se no tal X da equação, outras são cognitivas e são detectadas em quem faz uso do belo argumento. A que se inscreve nesta última é, claro, a da música portuguesa, que demonstra um claro desconhecimento do que por cá se faz – e, também, do que se faz lá por fora. Claro, a aplicação deste argumento faz algum sentido quando diz respeito a bandas que são letradas em não fazer nada de especial e imitar os Strokes (que não são conhecidos pela sua criatividade e originalidade), como Os Pontos Negros, mas teria de ser alterado para algo semelhante a “para Flor Caveira, não está horrível.”

O argumento que se inscreve nos dois tipos de deficiência é, obviamente, o das queimas – demonstra as deficiências das infra-estruturas (ou das pessoas que as compõem) e das pessoas que legitimam as constantes más opções, porventura, por falta de padrões mais exigentes (não adquiridos no processo de socialização). Além disso, não é só uma má desculpa para um mau trabalho, levado a cabo, insistentemente, todos os anos, como é o que legitima o gastar dinheiro com o Quim Barreiros, os Hi-Fi e outros entertainers que tais.

Para todas as deficiências há, por norma, plataformas que melhoram acessos e que permitem alternativas de forma a normalizar a vida das pessoas que delas padecem. No caso das deficiências de que padecem as queimas, há todo um conjunto de plataformas inebriantes, a que chamam bebidas espirituosas e estupefacientes, que permitem tornar o cartaz da queima em algo normal para os jovens, que não se inscreva na lista de feiras populares e outras barrasquices do nosso bom e belo pais.

O resultado do meu levantamento conduz-me ao seguinte, e não quero ser o gajo que vos receita “óculos cognitivos”: os cartazes das queimas estão mesmo maus. E, caso sejam estudantes, diria que é tempo de vos deixardes de tretas e de começarem a exigir um pouco mais e melhor dos vossos ditos representantes, porque eles, uma, ou são parvos, ou, duas, vos estão a chamar parvos (eu não gostava de ser representado por uma cambada que insiste em partir do princípio que eu gosto de Quim Barreiros. Manias…).

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One Response to “Opinião: Para queima, não está mau”

  1. 1 Paulo Castelão

    assino por baixo


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