Concerto: Dead Combo & A Royal Orquestra das Caveiras @ Aveiro

18Apr11

14 de Abril, Teatro Aveirense, Aveiro
Texto por João Sardo



Quando tanto se fala (e a maioria das vezes com desgraçada razão) no depauperado panorama musical português, não nos devemos nunca esquecer das excepções que não confirmam a regra.
Por falar nisso, é tão bom não ter que ler que o problema é não se apostar na música escrita e cantada em português porque aqui, meus caros, não há lírica para ninguém nem playlist´s encomendadas ao melhor radialista chinês da actualidade.

Os experimentados Dead Combo (Tó Trips – guitarra eléctrica e Pedro Gonçalves – contrabaixo, kazoo, melódica e guitarras) são, quase consensualmente, uma dessas brilhantes excepções.
Assim sendo, como qualquer português “médio” lavado em FMI´s desde que se iniciou a queda do Império Ultramarino com o “caso brasileiro”, é claro que me sabe bem escrever-vos que “estes gajos que são do meu país são tão bons aqui como em qualquer outro canto do globo”.
Depois, tão naturalmente, também me ouvem dizer que “eles mereciam era estar lá fora que cá dentro as coisas estão difíceis. Saudinha é o que é preciso”.
Sim, a inenarrável baixa auto-estima nacional tem a vantagem de, uma ou duas vezes por ano, nos sentirmos os maiores: ora com o Mourinho, ora, neste caso, com os Dead Combo.
Adiante.

Os dois cavalheiros, bem (re)conhecidos por nos terem brindado nos últimos anos com belíssimos exercícios instrumentais (ouso dizer sem que me batam, cinematográficos) decidiram lançar mão do resto do palco e apresentarem-se por Aveiro, aconhegados, com o colectivo de sugestivo nome  Royal Orchestra das Caveiras .
Acertadíssimo epíteto pois os DC vivem de imaginários. No seu caminho está a geografia dos Estados Unidos e a infantaria espectral do faroeste “armada aos cucos” sem se ter apercebido que jaz soterrada  por causas tudo menos que nobres e pacíficas.
Isso mesmo, também estava a pensar naquele ser atarantinado apanhado a conduzir enebriado no Baixo Alentejo, confortado, felizmente pela Dona Amália que lhe apontava uma faca ao coração, na telefonia.
E é claro que, nesta estória toda, não há espaço para palavras. Music is bigger than words and wider than pictures.

A juntar aos urros em forma de delays enlooparados tocados tal qual as modinhas portuguesas e os fados vadios da eléctrica de Tó Trips e ao contrabaixo deliciosamente empedernido de  Pedro Gonçalves, mais três elementos de sopro, piano e bateria.
Uma luz que balança sobre as cabeças dos dois companheiros, dois esgares de fumo na vertical, o fundo negro a camuflar a parafernália no palco e segue o baile nos primeiros temas da noite: Janela, Putos a Roubar Maçãs, Esse Olhar Que Era Só Teu (…).
Segue-se a entrada em palco dos restantes companheiros desta viagem que tem mostrado, um pouco a todo o país, as novas peles que cobrem os seus temas mais antigos.
Tom Waits. É verdade, esqueci-me  de o colocar de mão dada, aí em cima, ao Tarantino. Uma cover de Temptation, a indicar-nos em que prateleira lá de casa é que se guarda o Jack Daniel´s e o tabaco.
Temas para rir e para chorar (ao mesmo tempo) a percorrer em doses generosas os 4 trabalhos de originais do colectivo, desde o primeiro e sibilino Vol.1 (2004) até ao benjamim Lusitânia Playboys (2008).

O concerto terá tido duas partes distintas. A primeira e a segunda.
Vale a pena ser tão lacónico porque foi, infelizmente, indisfarçável o desconforto criado por uma série de problemas técnicos que se repetiam na primeira metade do banquete. Na segunda já não tínhamos, por exemplo, que adivinhar que havia um piano no palco se nos cobrissem as vistinhas.
Cerca de duas horas de repasto com uma sobremesa a 3 (Lisboa/Berlin, Cacto e Malibu Fair) bastaram para nos voltar a convencer que há mais motivos de celebração em Portugal do que o Cristiano Ronaldo e as colecções (de cromos) do Berardo.
Depois, é justo subinhar-se a qualidade dos músicos que acompanharam o Tó e o Pedro (ui, era mesmo o Alexandre Frazão na bateria).

Apenas uma ligeira nota que tem que ver com aquele je ne sais quoi (fazer “ts ts ts” com a boca). Por vezes fica-se com a impressão que há temas que funcionam melhor no antigo regime nocturno (ou seja, a dois, em palco pequeno) do que, massivamente, a sete, com a luz repenicada nos instrumentos de sopro.
Se considerármos que não se pode agradar a gregos e a troianos, então não há problema nenhum, até porque é sempre bom saber que há gente a arriscar na vida.

Advertisements


No Responses Yet to “Concerto: Dead Combo & A Royal Orquestra das Caveiras @ Aveiro”

  1. Leave a Comment

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s


%d bloggers like this: