Opinião: A mítica influência dos Animal Collective na música actual

15Apr11

Texto por André Forte


Serão os Animal Collective a banda mais influente da actualidade? Atentando na edição de hoje do Ipsílon, “negar que […] são hoje o padrão para muita da nova música – e da mais interessante – que se vai fazendo planeta fora é tão inglório quanto tentar esconder um elefante atrás de um poste de electricidade.” E, acrescente-se, a nível estético está mais ou menos a par.

Convém, desde já, salvaguardar que este não é mais um tópico para discutir o indiscutível, nem tampouco um artigo contra o colectivo de Panda Bear (Noah Lennox), Avey Tare, Josh Dibb e Brian Weitz. Realmente, o quarteto norte-americano é a banda mais influente para a música popular que se faz actualmente, mas resta saber se isso é, ou não, algo positivo e de que forma se manifesta realmente.     

No mesmo Ipsílon, a discussão desta temática fica numa contradição parva: há, realmente, bandas que soam a Animal Collective, e isso é bom; mas todas as bandas que soem como eles erram, porque o ideal seria ser como eles e tentar ser diferentes. Nesta confusão argumentativa, em que, na voz de Mark Richardson, mentor da Pitchfork, fica pouco claro o que há a reter, se, por um lado, os músicos devem fazer uso “do computador e vontade de experimentar [e] criar uma sonoridade na mesma linha dos Animal Collective,” ou se , por outro, devem tentar criar “um impacto tão grande exactamente por fazerem algo de diferente e não por soarem como outros grupos.”

A discussão, caminhando para o que Panda Bear e companhia fazem, não fica mais clara. Noutro artigo e no mesmo suplemento do diário Público a propósito do seu novo álbum, pode ler-se que a música que se ouve em Tomboy é algo “que se inventa (e reinventa) com um sentido de actualidade que não nasce de uma obsessão pelo novo, pelos sinais de modernidade.”

Os Animal Collective deixaram um legado indiscutível – e é nessa impossibilidade que ele se revela obsoleto e de impacto reduzido para a história da música, nomeadamente porque incide sobre a dita música popular urbana (epíteto que surge nesta procura de algo que a diferencie dos produtos da MTV). Panda Bear e companhia surgem como os líderes aleatórios de uma geração que não tem a contra-cultura crítica da arte para se expressar, como até agora tinha vindo a acontecer.

A contra-cultura dos Animal Collective não é mais do que uma farsa vendida sob a possibilidade do DIY – agora introduzido em larga escala nas ferramentas de produção musical e que Mark Richardson destaca nos propósitos dos norte-americanos – pela indústria cultural, em oposição da abertura que uns Clash nos finais dos anos 70 e o jazz nos anos 20, propuseram na forma de abordar a música. E nem mesmo estes propuseram um nada como alternativa; nunca descuraram a infinita possibilidade da comunicação, tudo o que resta quando se decompõe e analisa “o que é a música?” (“Escolhemos esse nome [Animal Collective] por nos sentirmos identificados com a forma como os animais se relacionam com o mundo. Não pensam sobre ele, reagem conforme os seus instintos,” admite Noah Lennox em entrevista ao Ipsílon).

Panda Bear, tal como os seus companheiros, dão voz a uma geração que, na sua busca por identidade, compra os identity-makers no supermercado mais próximo.

A indústria cultural superou a discográfica, que se vê obrigada a reconhecer a possibilidade de ser o consumidor a fazer o seu próprio produto. Essa é uma crise com que não sabe lidar – esse é, sim, o grande mérito dos Animal Collective, a problematização do negócio da música. Nunca o conseguiram sozinhos, no entanto.

A música, agora, ainda se faz como os Animal Collective começaram a fazer. Na verdade, a aleatoriedade de que falo em cima não se deve a eles, é mais uma circunstância. Como tudo o que dita modas actualmente, Tare, Lennox, Dibb e Weitz foram apontados como a tal banda mais influente não pelos opinion makers desta geração – e os próprios assumem esta distinção no reconhecimento. Realmente, a verdadeira banda mais influente terá de ser apontada por nós e não de nos ser apontada. Diria que continuaremos, eternamente, à espera dessa.

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