Concerto: Marc Ribot @ Cinema São Jorge

14Apr11

12 de Abril de 2011 – Cinema São Jorge, Lisboa
Escrito por António Matos Silva / Foto por Regina Morais

Em 1985, Ry Cooder lançava Paris, Texas, um dos álbuns mais americanos de sempre e que pintava, com notas dignas de museu, o deserto americano filmado por Wim Wenders.

Em 1985 Marc Ribot estava em estúdio com Tom Waits, a gravar Rain Dogs. Sinceramente, é-me mais fácil falar do filme do Wenders que deste colosso de álbum, em que Tom Waits explana e encarna as suas histórias do fantástico, em plena encarnação do Diabo – o mesmo Diabo que nas histórias do blues troca a alma ou a visão de um música pela capacidade de dominar aquele instrumento como ninguém. Essa pessoa pode ter sido Blind Willie Johnson. Essa pessoa pode ter sido Marc Ribot.

Numa passagem que foi anunciada do dia para a noite, ninguém esperava ver tanta gente a acorrer para a minúscula (e quente!) Sala 3 do São Jorge, em Lisboa. Mas o certo é que, bem apertadinhos, sentados no chão, ou em pé, enfiaram-se por ali adentro umas 150 pessoas. Para ver o quê? Um mestre da imagem, tal como Ry Cooder o era. A diferença é que se Ry Cooder a partir de 1985 continuou a fazer mais ou menos sempre o mesmo disco, tendo a América como pano de fundo, Marc Ribot foi variando de estilos, foi alargando as suas paletes, a sua destreza e a sua capacidade. É vê-lo, como aconteceu em Lisboa, é vê-lo a aparecer com atitude punk (aos trinta segundos já repreendia alguém que se ria de um pequeno engano) e a transbordar rock and roll – daquele à antiga -, jazz, noise, uma perninha na música latina e outra na música de ascendência judia, punk, free-jazz-rock se é que isto existe e muito, mas muito blues. E soube embalar a plateia sempre que foi preciso, sem a ostracizar totalmente quando os pregos surgiam aqui  e ali, durante as peças mais complexas do ponto de vista da execução..

De guitarra acústica em punho, chegou-se a temer que o concerto fosse parco em notas, em momentos de maior vertigem. Afinal, o homem atreveu-se a adaptar músicas do saxofone esquizofrénico de John Zorn para a guitarra e agora surgia aqui descido à terra, despido de virtuosismos e truques, sem mais que a mais simples ferramenta que foi oferecida ao Homem: as duas mãos. E que mãos! Quem toca assim, tem unhas. Unhas e cojones, que não é qualquer um que sobe a um palco, olha uma plateia nos olhos e toca a dedilhar um sem-fim de estilos. Perceba-se: Marc Ribot já tocou em todas as linhas musicais, mais verticais ou horizontais, perpendiculares ou paralelas: ele é Lounge Lizards (ouvimos Blowjob), ele é Electric Masada, Tom Waits, Elvis Costello… escolham. Ele fá-lo em constante (des)construção e sem esquecer a (a)tonalidade. O homem é uma espécie de guitar hero – com todas as precauções. Não pelo seu virtuosismo (que esteve lá, mas mais contido), mas pela capacidade heróica – lá está! – de abordar e fundir géneros sem nunca perder o controlo e deixar tudo aquilo tornar-se num emaranhado caótico sem força de expressão.

Em vez disso e depois de dois encores e uma abordagem a John Coltrane e a John Cage (Harmonies of Maine), já com a sua guitarra eléctrica em exercício “drónico” hipnotizante, fica na memória uma noite com doses iguais de mestria, intensidade, ruído, melodia e harmonia. Toda a harmonia do mundo.

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