Concerto: Ballaké Sissoko + Vincent Ségal @ Lisboa

11Apr11

Textos por António Matos Silva e João Torgal
10 de Abril, Gulbenkian, Lisboa


Há lá melhor forma de combater a letargia de um domingo do que com um concerto? Não há não senhora. E como a preguiça não convidava propriamente a uma tarde de hardcore na Casa de Lafões, arrepiámos caminho até aos jardins da Gulbenkian onde se esperava calma mas ansiosamente pela hora de ver Ballaké Sissoko e Vincent Ségal subir ao palco do Grande Auditório.

Gente, muita gente. Gente que talvez tenha decidido aparecer ali em cima da hora, gente que percebia da faina que estava prestes a colher, gente que queria combater o enfado do término de outro fim-de-semana, gente que gostava de música – havia de tudo um pouco, de todas as idades. Uma fusão humana que era esperada também em palco, onde a kora (em português diz-se corá) do Mali se cruzava com o violoncelo de…bom, de todo o mundo.

Seja a ver imagens de metaleiros do Botswana ou a assistir ao encontro de Sissoko e Segal, fica patente um valor: a universalidade da música. As distâncias terrenas esbatem-se acabando por cair por terra e encontram-se com facilidade e delicadeza que chega a impressionar e este espírito acaba por ficar patente desde início, conhecendo-se melhor ou pior Chambre Music, o disco da dupla.

Mais em diálogo do que em duelo, kora e violoncelo cruzam-se para se complementar em paisagens e texturas que, de certa forma, não deixam de causar uma certa supresa. Por um lado, a melodia colorida e quente debita pelos dedos de Sissoko embala-nos com uma leveza que chega a ser inaudível. Mas, sempre pronto a chamar-nos à realidade, está a manipulação suave e paradoxalmente grave do arco do violoncelo de Ségal. Há mestria de parte a parte, não há espaços vazios e não falta a melodia, que tocava em pontos tão díspares como a chanson-française, a música do Mali e os tons coloridos dos Balcãs e Mediterrâneo. O público, esse, envolto no escuro convidativo e confortável do Grande Auditório da Gulbenkian, deixa-se ir e plana sobre si mesmo numa calma que parece irreversível.

Infelizmente, na fusão do jazz com a música do Mali (não tão (r)estrito como nos Kora Jazz Trio), algo parece perder-se. Sissoko abdica de uma técnica totalmente tradicional e adopta uma perspectiva moderna da kora. A consequência chega-nos na perda da espiritualidade e da aura que rodeiam o instrumento, que acabam engolidas no formato canção – bem mais facilmente consumível. A diferença é notória quando pensamos no Mestre Diabaté, em que a notas da kora contam histórias seculares, trazidas aos dias de hoje totalmente incorruptas, graças ao dispositivo chamado memória. Não desvalorizando o trabalho importante de trazer a kora a mais palcos e a mais gente, o espírito ritualista que marca a religião, forma de estar e viver do norte de África, fez falta a tradição instaurada por outros tempos.

É assim que a ponta final do concerto – as duas últimas músicas e os dois encores – acaba por compensar a totalidade de Chamber Music interpretada. A kora ganhou arrojo e importância e sobressaiu finalmente sobre o violoncelo, que se assumiu mais como acompanhamento e menos como instrumento mestre.

No final, aplaudiu-se não só uma tarde de domingo bem passada, mas também a capacidade de dialogar em extremos que afinal podem ser tão próximos. E com uma paz interior que assombra e nos faz desejar que tudo na vida fosse assim tão fácil de absorver. É que hoje já é segunda-feira e não há kora que nos valha. /AMS

—-
Os últimos anos têm sido férteis em brilhantes fusões culturais. Foi o caso do Mali e da Bretanha, no projecto N’Diale, ou da Irlanda e do México, em San Patricio, com o toque de midas do grande Ry Cooder. Foi também o caso da colaboração entre o francês Vincent Segal e o maliano Ballaké Sissoko (o músico africano já antes havia encetado uma colaboração do género com o pianista italiano Ludovico Einaudi), embora seja essencialmente uma combinação particular entre dois instrumentos: o violoncelo e a kora, uma prodigiosa harpa africana, dotada de uma extraordinária harmonia. O disco de colaboração entre ambos intitula-se Chamber Music e faz jus ao seu título, num todo acolhedor e muito marcado pela espiritualidade e pela partilha (“música de quarto”, como referiu Segal)

Foi esta dupla que esteve no último Domingo na Gulbenkian, perante um público que praticamente encheu o Grande Auditório, pese embora o preço elevado dos bilhetes. Este facto merece um breve parênteses, sendo de lamentar que acabe por haver uma certa tendência elitista no domínio da world music, numa espécie de paradoxo com as raízes populares e étnicas que estão na origem da sua existência.

Ao contrário do que sucede no disco, onde ainda há alguns apontamentos de outros instrumentos africanos, como o balafon ou o ngoni, em palco surgem apenas a kora e o violoncelo. Desde cedo se percebeu que, de forma intencional ou não, um dos principais problemas do concerto estaria no som, nomeadamente na pouca amplificação da kora, acabando por proporcionar papéis desiguais aos músicos e subaproveitando as potencialidades do instrumento africano.

Depois de alguns temas tradicionais, Vincent Segal dirige-se ao público surpreendentemente em português (e assim foi das 3 ou 4 vezes em que comunicou com a plateia), embora numa linguagem por vezes imperceptível. Nesta altura, apresenta um tema da autoria de Ballaké Sissoko, aparentemente dedicado a uma cidade grega, algo que parece ser musicalmente comprovado, pelo menos atendendo a algumas linhas de violoncelo que remetem para o eixo Sul da Europa, Norte de África, Médio Oriente, para o que simplisticamente se designa de “Música Mediterrânica”. De seguida, Segal referiu que, contrariando a lógica griot, os filhos de Sissoko pouco ligam à música, preferindo o futebol (um deles jogará no PSG?). Assim sendo, iria dedicar um tema a esta modalidade desportiva, mas trocando a sua suposta vertente agressiva por aquilo a que designou por “tai chi football”. O lado mais agudo do violoncelo, assemelhando-se ao som de um sopro oriental, forneceu o lado esotérico adequado a essa arte marcial de meditação chinesa. A versatilidade do violoncelo foi, aliás, uma dos traços mais marcantes do concerto, seja na variedade de sons virtuosamente criados em palco, seja na forma de os concretizar, com o instrumento a ser tocado ora com o arco próprio, ora na forma de dedilhado. Num concerto fortemente multicultural, a parte principal viria a terminar com a sonoridade tipicamente proveniente da África profunda, no caso do Norte do Mali.

Houve ainda direito a dois encores. No primeiro, deu-se uma deliciosa e caricata desgarrada experimental entre os dois instrumentos, antes de culminar num belíssimo final colectivo. O segundo iniciou-se com um sublime tema a solo de kora, mostrando a vertente mais tradicional do instrumento, tal como era tocada pelo pai de Sissoko, falecido em 2010. Pouco depois terminaria o espectáculo, com um dos temas em que a cumplicidade entre os músicos foi mais forte e intensa, culminando dois encores que elevaram bastante o nível do concerto. Contudo, apesar disso e da inequívoca qualidade musical do que se passou em palco, terá ficado, em virtude do papel menor da kora, um pouquinho aquém das expectativas. Pelo menos atendendo à arrebatadora colaboração discográfica de Ballaké Sissoko e Vincent Segal, em Chamber Music /JT

Advertisements


No Responses Yet to “Concerto: Ballaké Sissoko + Vincent Ségal @ Lisboa”

  1. Leave a Comment

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s


%d bloggers like this: