Concerto: Swans + powerdove @ Aula Magna / Casa da Música

10Apr11

09 e 10 de Abril – Aula Magna, Lisboa / Casa da Música, Porto
Texto por Emanuel Pereira / Fotos por Lais Pereira (apenas em Lisboa)

Um zumbido de duas faces toma de assalto o desprevenido público. As luzes baixam e concentram-se sobre o arsenal de imponentes amplificadores. O zumbido permanece durante vários minutos a fio e não dá sinais de término – é contínuo, monocórdico e bifurcado: ora nos tenta colocar em posição de transe, ora nos perturba e incomoda. Lentamente, e a conta-gotas, cada membro dos Swans vai entrando, adicionando o seu pedaço a uma panela de pressão pronta a eclodir abruptamente. O último, Michael Gira, surge como se de um “cowboy from hell” se tratasse – e, quando pega na guitarra, vociferando simultaneamente ordens aos seus colegas de palco, No Words/No Thoughts transforma-se numa impiedosa e voraz lava, que abre fendas tanto na Aula Magna, quanto na Casa da Música. Sejam bem-vindos, Swans.

Se contabilizarmos os quase quinze minutos de entrada, No Words/No Thoughts, faixa de abertura de My Father Will Guide Me A Rope To The Sky (2010), esventrou o público durante aproximadamente meia-hora. Num violento fervilhar noise/drone, os Swans provaram, desde logo, que aquela quase-doentia brutalidade dos primeiros anos de carreira ainda está bem viva. Não podemos falar de algo ao nível do demente Public Castration Is A Good Idea (1986), mas aqueles que se deslocaram para ver os norte-americanos sentiram de imediato que os Swans não voltaram para fazer festinhas a quem quer que seja. Da formação original, apenas resta Gira e Norman Westberg, mas nem por isso a banda parece ter perdido o guloso apetite para esmigalhar as audiências que se lhes deparam.

Ainda antes de partirem para Jim, outra faixa do álbum que voltou a colocar os Swans no activo treze anos depois, Michael Gira tratou de chamar o público da Aula Magna para a frente, misturando os que para os doutorais tinham bilhete com os que compraram ingresso para o anfiteatro. A amálgama inquietou os seguranças, mas, perante a autoridade que Gira é, nada fizeram. Na Casa da Música, o emblemático músico repetiu a ordem ainda antes de tudo começar. E houve mesmo quem se concentrasse em pé à frente do palco, obrigando os responsáveis a colocar alguma ordem na desordem que Swans provoca e que se reflecte tão bem na sua actuação.

Se dúvidas existissem em relação à tal imponência de Michael Gira, todas ficaram dissipadas assim que decidiu gritar alguns dos versos de Sex, God, Sex. A veemência foi tal, que foi fácil perceber o olhar cravado dos próprios músicos circundantes na figura do vocalista. “Jesus Christ, come down!” cuspiu diabolicamente Gira – e eu, se fosse Jesus, teria aparecido, para meu próprio bem. A viagem mais longa foi feita até I Crawled, faixa dos primórdios da carreira dos nova-iorquinos, estendida quase até aos dez minutos e aperfeiçoada na sua própria humilde crueldade, em mais um furioso murro noise. I Crawled que foi colocada, não ingenuamente, no meio de duas músicas-embrião, que começam a compor o novo álbum dos Swans, a ser lançado brevemente. Tanto Avatar, quanto The Apostate, revelaram que os Swans são uma “bad seed” pronta a durar e a prosperar num mundo cada vez mais pútrido.

Para o final, ficaram guardadas mais duas de My Father Will Guide Me A Rope To The Sky: Eden Prison e Little Mouth. Ambas foram estropiadas, alteradas e vestidas de forma negra, apresentando-se de cara mudada em relação às versões originais. Agressivas e acirradas, apenas cessaram quando Gira disse, envolto num silêncio sepulcral, as últimas palavras de Little Mouth. Depois, um sorriso sincero irrompeu na face do músico, que se despediu, de lenço na mão, acenando e agradecendo às plateias de Lisboa e Porto, apelidando-as de “beautiful portuguese people”. A nós coube, pois então, o levantar da cadeira e o aplaudir de pé, até para além da saída do sexteto. Demolidor.

Os powerdove, que vieram até Portugal para uns concertos singelos em Lisboa e Coimbra, foram repescados pelos Swans para abrirem as duas noites. Num folk suave, quase a fazer lembrar a doce e triste Sibylle Baier, os powerdove tiveram direito a meia-hora para apresentar o seu trabalho acústico. Em ambas as noites, impuseram silêncio e ouviram aplausos, algo nem sempre fácil para uma banda de abertura – ainda para mais quando desconhecida, como era o caso. Seja como for, acabaram com nota positiva e foram um bom contraste para a o tumulto que se seguiria.

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