Álbum: Horselaughter – I Was A Ghost, Then (2011)

05Apr11

Texto por André Forte

Horselaughter não é música para rir, bem pelo contrário. A melancolia com que todas as canções se desenvolvem, entre a lentidão e a simplicidade do post-rock descomprometido dos anos 90, o rock extra-psicadélico e, claro, os blues mais simples (que são sempre os mais tristes), sempre bem adornados, fazem de I Was A Ghost, Then um álbum desolador.

E eficaz nesse propósito de entristecer, desenhado desde o início com a Horse Tears à la Sigur Rós, e com a sua abordagem ao blues que daí em diante se desenvolve, a relembrar muito os cantautores canadianos que surgiram no início da década passada, como Mike Moya e os seus Hrsta, Sam Shallabi e os Shallabi Effect, Scott Chernoff e os Molasses, e, claro, Mark Linkous e os seus Sparklehorse, a quem Filipe Ferreira, cérebro do projecto do Porto, dedica o álbum. A magia desta comparação é a amplitude com que estes quatro senhores têm desenvolvido a sua música; é nisso, também, que o trabalho de Horselaughter é bem conseguido: na capacidade de se desdobrar ao longo da paisagem que pinta e de a cobrir com as cores que lhe pertencem.     

É essa, também, a melhor explicação para um álbum de 14 músicas, curtas, directas, e sem gorduras: cada uma com o pedaço de blues, de rock ou de qualquer variação de música de pedras, a desempenhar o papel que lhe está destinado na desolação de I Was A Ghost, Then.

Claro, o conseguir tão preciso deste ambiente deve em muita à produção do álbum, que em contraste com a música muito acústica, liderada constante por uma guitarra clássica em parceria com uma voz rouca, em surdina, consegue sempre adicionar o pormenor essencial na tristeza das canções – que ao longo do álbum acaba por ser, invariavelmente, a harmonia do violoncelo, como fica logo provado em Scratch ou, mais adiante, em A Night Out, ou, mais raramente, as lamúrias do serrote, como se ouve em Ghost Dog – ou o som que demonstra a luta interior que só o psicadelismo transmite – Ballad of Silver & Ruby Part I não seria tão eficaz se não fosse aquele delay a gritar-nos ao ouvido, sobre o piano.

O propósito era recordar o falecido mentor de Sparklehorse e as semelhanças acabam por não ser poucas, no entanto, está, em I Was A Ghost, Then, tecido um verdadeiro elogio saudosista e assumida a herança que Mark Linous deixou quando se suicidou durante o ano de 2010.

O calendário mudou e Horselaughter, colado ao seu propósito, assume o papel de continuar a abalar alegrias. Neste álbum, o objectivo foi claramente cumprido, mas até onde é que Filipe Ferreira vai conseguir carregar o peso do género maior da música popular, o que deprime? Essa é a questão que nem vale a pena fazer, por enquanto; se ainda há I Was A Ghost, Then, a pop tem com que se esquecer do triste passado.

Edição de Autor, 2011
Alinhamento:
01 – Horse Tears
02 – Scratch
03 – Wooden Heart
04 – Bates Ranch
05 – Ballad of Silver & Rubt Part I
06 – Radio Trails
07 – A Night Out
08 – Ghost Dog
09 – Underground
10 – Raspberries and Tweed
11 – Widows by the Window
12 – Ballad of Silver & Rubt Part II
13 – Twilight
14 – Gin Soaked Lullaby

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