Concerto: Ted Leo and the Pharmacists no Musicbox: O Remédio Para Ser Feliz

04Apr11

03 de Abril, Musicbox, Lisboa
Texto por Gonçalo Trindade / Fotos por Graziela Costa

Existiram dois grandes factores contra o concerto de Ted Leo e companhia no Musicbox, a sua estreia em terras lusitanas: 1) era Domingo e 2)…era dia de derby Porto – Benfica, em que a taça era decidida. Um Domingo difícil para qualquer espectáculo que decorresse fora duma sala de estar com uma televisão, e isso reflectiu-se na sala pouco composta com a qual Ted Leo e os seus Pharmacists foram recebidos. Menos de metade da lotação, para um nome que merecia mais.

Passava pouco das onze, hora marcada para o início do concerto, quando o grupo subiu ao palco. Veio um curto discurso dado por Leo, vocalista e mentor, num português amador e que por vezes arranhou o espanhol (ele pediu desculpa por isso, mais à frente), com hesitações, perguntas ao público sobre como dizer certas palavras, e um esforço louvável que quebrou imediatamente o gelo. E o que se seguiu foi, simplesmente, um concerto que não será tão cedo esquecido pelos que estiveram presentes. Fossem eles poucos ou muitos.

Mais de hora-e-meia de concerto, com encores improvisados (com um momento tão espontâneo quanto genial, mas já lá vamos…), conversas simpáticas entre banda e público, uma descarga de energia que nunca acalmou, canções tocadas porque o público as pediu, um alinhamento inteligente que contemplou os vários discos da banda… e Ted Leo, aquele homem que em palco não pára, que dá alma a cada acorde de guitarra e que entrega ao público por si só energia mais que suficiente para fazer uma festa. Vê-lo em palco é um verdadeiro prazer, quase tão grande quanto o que ele próprio sente em estar ali a tocar. Não houve necessidade de aquecimento: logo à primeira música, a espectacular Heart Problems, saída de Shake the Streets, já se via Leo de guitarra em riste, nunca parado do mesmo sítio. Foi desde logo impressionante não só o próprio vocalista, mas também potência que a canção ganhou ao vivo, deixando desde logo antever o que se seguiria. Em concerto, as músicas do grupo envolvem facilmente e impedem qualquer um de ficar quieto, sendo tocadas e entregues com uma energia simplesmente notável. Mesmo as canções que poderiam ser, à partida, momentos menores revelaram-se sucessos absolutos, com algumas delas alongadas, outras tocadas com um ritmo mais vertiginoso, e todas elas puras descargas de energia. Existiram momentos que roçaram verdadeiramente o épico (Little Dawn, por exemplo).

Estava pouco público, mas Leo e companhia tocaram como se uma multidão se tratasse. Todos óptimos músicos, moldando cada canção no que se viu. Excelentes guitarras, uma tocada por Leo e outra tocada por um talentoso guitarrista na outra ponta do palco, e uma bateria e um baixo que dão a cada canção o ritmo certo. Sempre com um sorriso na cara, sempre com empenho (tantas são a banda que tocam com menos alma para tão mais gente…). E depois veio, claro, a intimidade que só uma sala como o Musicbox pode dar, tornada ainda maior pelo pouco público. Veja-se a forma como o músico se riu perante aqueles jovens que cantavam o refrão da imortal “Hey Ho!”, dos Ramones, por exemplo, ou como respondia dizendo “Foi o nome que a minha mãe me deu, usamo-lo ao máximo!” quando alguém gritava o seu nome. Mas talvez o melhor momento que exemplifique este intimismo tenha sido aquele quando, a certa altura, o guitarrista secundário parte uma corda e vê-se obrigado e ir rapidamente buscar e afinar outra guitarra. Durante esta rápida mudança, alguém do público grita o nome duma excelente canção que ainda não tinha sido ouvida: Dirty Old Town. Ao ouvir isto, Leo vira-se para o público e, com um sorriso na face, pergunta: “Como é que se diz “Porque não?” em português?”. Seguiu-se uma excelente interpretação da magnífica canção, apenas por Leo e a sua guitarra, um momento simplesmente belíssimo. Ao olhar para a setlist, verifica-se que a música não está lá. O vocalista tocou-a apenas porque alguém a pediu.

Isto deixa logo perceber o tom que pautou todo o espectáculo: uma festa íntima, com rock energético e de tão boa qualidade como mote principal. Counting Down the Hours, do já mencionado Shake the Streets, foi magnífica, tal como Bottled In Cork, single do recente The Brutalist Bricks, que se em disco era “apenas” muito agradável, ao vivo ganha uma dimensão totalmente nova (um pouco como todas as canções, aliás). E aquele momento mágico, lindíssimo, trazido por aquela que é talvez a mais bela canção do grupo: Biomusicology, primeira faixa do grande The Tiranny of Distance. Custa dizer que foi o melhor momento apenas porque… bem, foi um concerto simplesmente todo ele tão bom e tão coeso que apontar melhores momentos se torna difícil. Mas foi, sem dúvida, um daqueles que mais perdurará na memória, num concerto todo ele espectacular do início ao fim. The High Party, Even Heroes Have To Die… todas as canções resultaram perfeitamente, sempre num ritmo consistente e contagiante.
Biomusicology teria sido, supostamente, a última canção, com a banda a despedir-se e a sair do palco… apenas para regressar pouco depois, com uma expressão na cara que dizia toda ela “Não sabemos o que é que vamos tocar a seguir, mas alguma coisa boa há-de ser”. O refrão de Hey Ho! voltou-se a ouvir, cantado por um público eufórico e sorridente, e a escolha do que tocar naquele momento tornou-se óbvia. “Eu não canto!” disse Leo com uma risada, obrigando o baixista a pegar no microfone e o guitarrista secundário a pegar no baixo (e a revelar uma veia multi-instrumentalista, diga-se: tocou lindamente o instrumento). Cinco segundos depois, a banda atira-se a esse clássico intemporal dos Ramones, e vive-se um daqueles momentos que valem dez ou vinte concertos. O baixista atira-se ao público, que se junta a este para cantar o refrão ao microfone, improvisa-se uma mini-moche perto do palco (mas daquelas moches alegres, não das violentas…), e por onde quer que se olhe apenas se vêem sorrisos. Perto do final volta a subir ao palco, com a música ainda a ser tocada, e atira-se ao chão, com Leo de guitarra na mão a atirar-se também. Absolutamente genial.

Pouco tempo depois e após mais de hora-e-meia de música, o concerto acaba, com Ted Leo encharcado em suor a prometer que iriam sem dúvida regressar em breve. Noite magnífica, impressionante (são sem dúvida uma belíssima banda, mas quem poderia prever um concerto destes?), coesa, alegre e energética. Rock sem preconceitos nem presunções que ao vivo se transforma simplesmente num exemplo a seguir para todos os concertos do género. Muitas são as bandas que ou abrandam de ritmo a meio do espectáculo, ou que tocam apenas para si mesmas ignorando o público, ou que simplesmente não conseguem demonstrar em palco prazer pelo que fazem; os Ted Leo and the Pharmacists são o oposto de tudo isto, criando uma ligação banda-público exemplar (muito sinceramente, quantas bandas há hoje em dia que realmente falem com o público, ou que têm em conta os pedidos que este faz?), tocando com um talento exemplar (a forma como conseguem elevar as suas canções ao vivo é, de facto, algo notável), e transformando cada momento num que equivale a um sorriso e um corpo a abanar. Tocaram para poucos como se muitos se tratassem, sempre com alma e genuíno prazer, tornando o concerto verdadeiramente memorável para os que lá estiveram.Foram poucos, sim; mas isso só fez com que os presentes se sentissem verdadeiramente sortudos e inteligentes por terem presenciado o que presenciaram. Quem lá esteve, não se esquecerá em breve. Quem não foi, nem sabe o que perdeu.

Advertisements


6 Responses to “Concerto: Ted Leo and the Pharmacists no Musicbox: O Remédio Para Ser Feliz”

  1. 1 Catarina

    A música dos Ramones chama-se “Blitzkrieg Bop” e não “Hey Ho!”…

  2. 2 Gonçalo Trindade

    Já vi de ambas. Tenho dois CD’s dele, e foi aí que fui ver. Num deles estava como Blitzkrieg Pop, no outro simplesmente como Hey Ho! (admito que fiquei convencido a mencioná-la definitivamente com este anome após ver um concerto dos Japanther em que eles próprios também se referiram à canção com este título…). Prefiro a segunda forma, até porque a torna mais facilmente reconhecível para qualquer um que leia o texto.

    Espero que tenhas gostado do artigo.

    Abraço,
    Gonçalo

  3. 3 Catarina

    Por acaso tinha ideia de que o nome “oficial” era Blitzkrieg Bop, e Hey Ho! apenas o nome que as pessoas chamavam para ser mais fácil de reconhecer, como dizes. Mas sendo assim, tudo bem :) .

    Gostei, sim, e gostei ainda mais do concerto. Japanther também foi muito bom.

    Abraço,
    Catarina

  4. 4 Gonçalo Trindade

    Posso estar enganado (não me admirava nada…) mas como realmente estava indeciso, fui ver à edição que tenho do disco homónimo deles, que é de onde saiu esse single, e estava lá como Hey Ho!. Mas realmente já vi das duas formas.

    Fico contente por teres gostado, o concerto foi realmente espectacular. E Japanther também, sem sombra de dúvida :). Que cá voltem os dois, e depressa!

    Abraço,
    Gonçalo

  5. 5 b

    Boas.. que magnifico texto a descrever um grande concerto.espero que nao te importes que ponha este texto num forum para mais gente ter acesso a esta grande review.Obviamente que vou por o teu nome nos creditos, pois nao quero de forma alguma roubar o teu trabalho.
    cumprimentos

  6. 6 Gonçalo Trindade

    Muito obrigado, e não te preocupes: estás à vontade :). Só peço que ponhas o meu nome e o do site, já que foi para aqui que a reportagem foi feita. Fico muito contente por teres gostado, o concerto merecia realmente um bom texto. Quando o escrevi ainda tinha na face um sorriso do tamanho do mundo (um pouco como toda a gente que lá esteve, acredito…).

    Muito obrigado, mais uma vez.

    Abraço,
    Gonçalo


Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s


%d bloggers like this: