Álbum: Niagara – Niagara EP (2010)

01Apr11

Escrito por Regina Morais

Há discos tão flexíveis que se podem ouvir pela manhã, quando se procura alguma acção e espertina, ou ao cair da noite, quando o sentimento do final de um dia solicita um caminho por onde fugir. Este é um deles.

Percorrido por uma base de idioma house – algumas recordações de Larry Heard (Mr. Fingers) ou Phuture não são propriamente vãs – que se reescreve em linguagens que tanto roçam o experimentalismo de Arthur Russell, o pioneirismo electrónico de Edgar Froese (Tangerine Dream) ou até mesmo a vanguarda eighties dos The Art Of Noise. É um trabalho fresco, jovem, reúne gramáticas musicais diversas que o ilibam de qualquer pretensiosismo estético e, mutuamente, lhe conferem o cunho da originalidade.Passou-se da matéria-forma à matéria-energia” (Giles Deleuze): é exactamente esta transformação material que se propaga pelas seis faixas em que o som samplado, em forma de gradação, avança em cursos dinâmicos de ataque e decaimento, reparando-se facilmente na vontade de revelar mais e diferenciados timbres. Contudo, não deixa de haver um carácter discreto, e por vezes até minimal, no suporte de cada música.

Logo na primeira faixa Travesti + Palmeiras AV, com um apoio rítmico repetitivo, é posta em prática uma sequência inesperada – vozes, desvios psicadélicos, simulações de novos diálogos – sem, todavia, se criarem contrastes ao ponto de se perder a direcção. Existe uma qualquer brincadeira criativa em que se intersecta o presente e o passado, sendo que o “agora” se estrutura pelo passado mais recente, conferindo-lhe uma sucessão sonora munida de sentido.

Este trabalho, que conjuga espectros sonoros das discotecas de Chicago dos finais dos anos ’80 com o experimental da década anterior, é fruto da audácia lisboeta do António, do Alberto e da Sara. Porém, não é só a ousadia timbrada que passa pelo primeiro EP dos Niagara: numa edição limitada de 100 cópias, cada uma é dona de um design exclusivo criado pela artista plástica norte-americana Natalie Westbrook.

Como se não bastasse, a ambiciosa Dromos Recordings, constituída apenas pelos amigos João e Pedro, que viu o seu primeiro fruto surgir no Verão de 2009, é a “cara” ávida por contribuir que se esconde atrás deste projecto admirável. Entre as suas edições, já se contam trabalhos com Tetuzi Akiyama, Manuel Mota, Wasteland Jazz Unit e não só.

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