Concerto: Tiago Sousa @ ZDB

29Mar11

Texto por António M. Silva
26 de Março de 2010 – ZDB, Lisboa

«António! Tiago Sousa, sim ou não?». Sim, sem pensar duas vezes, sim. Lembrava-me dele nos tempos da Merzbau e dos Jesus, The Misunderstood. Quando Insónia saiu, demorei a juntar as peças e perceber que este Tiago Sousa era o mesmo dado aos terrenos mais mexidos dos Jesus e – mais recentemente – o mesmo que integra aquela massa convulsamente criativa que dá forma aos Pão (eu gosto de piadas óbvias!). Esta dificuldade em juntar peças deve-se a uma única coisa: à melancolia que reveste todo o trabalho sónico de Tiago Sousa. Primeiro em Insónia, agora em Walden Pond’s Monk. E melancolia na música nunca é má.

Segui as ruas demasiado movimentadas sem saber bem o que esperar. Tentava imaginar um piano no pequeno palco da ZDB e parecia-me deslocado. Tentava imaginar as pessoas etilizadas do lado de fora do Aquário a criarem um contraste significativo com um ambiente íntimo do lado de dentro das paredes quentes da Galeria – nada parecia fazer sentido. Só até começar o concerto.

Tiago Sousa é daquelas pessoas que, se passasse por mim na rua, talvez não lhe reconhecesse o talento cada vez mais delapidado e maduro que realmente é. É fácil reconhecer-lhe no rosto a calma que se reflecte de forma tão cristalina e evidente na sua narrativa musical. Mas há mais qualquer coisa, qualquer coisa palpável até, que só a maturidade de uns quantos – cada vez menos – consegue construir. Um elemento romântico e inominável, que cresce e se intensifica ao longo da noite e que, quando atingimos a frequência certa, toma conta também de nós para só nos largar no final.

Nesse período de tempo, não há mais nada. A simplicidade da música de Tiago Sousa – como a de Arvo Pärt – é bela e encantadora. A linha melódica que se traça lá no fundo do nosso ouvido é rica em imagens, mas sobretudo em sensações. Nunca uma habitual melancolia de domingo, pontualmente agravada e pontuada pelos sublimes Ricardo Ribeiro e Baltazar Molina, soubera tão bem ou tão pouco trouxera tanta tranquilidade ou tanto conforto.

Pode parecer um paradoxo, mas é precisamente neste simplificar de melodias que se conseguem texturas e paisagens tão ricas. Mesmo que por detrás de Walden Pond’s Monk estejam os estudos da evolução humana de Thoureau – uma ideia que em papel faz erguer uma barreira vertiginosa entre mim e a música –, mesmo que haja percussão, sopro e guitarras ao (não) barulho aquilo que fica é uma sensação de permeabilidade extrema perante a beleza da música e uma nudez de pensamento que nos desarma. Sim, pode ser complicado de assimilar, ou ridículo de ler, mas o mais difícil mesmo é transpor em palavras. Mas acreditem: a música de Tiago Sousa é fácil, muito fácil de ouvir e ainda mais fácil de absorver. O resultado é uma multiplicidade de interpretações que vão ser diferentes de pessoa para pessoa. E isso, só ouvindo.

Foi nesta tentativa, nesta prova perante mim mesmo, de descobrir o que se passava cá dentro que o tempo foi passando. A ideia de um conforto melancólico que não quero abandonar perdura ainda agora. Mas na altura, depois de um momento de duração incerta, provavelmente límbico e com certeza etéreo, o pensamento era só um: «porque é que teve que acabar já?».

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