Concerto: Carlos Barretto Lokomotiv @ Culturgest

26Mar11

25 de Março, Culturgest, Lisboa
Texto por António M. Silva

Há alturas em que ouvir  música regrada, que obedeça a um cancioneiro, a uma temporização definida e pouco dada a ornamentos, sabe realmente bem. Mas há alturas em que só queremos ouvir música que seja fusão, que rompa com cânones, que não esteja em nenhum cancioneiro ou ditames inscritos em pedra – mas que ainda assim tenha uma identidade tão forte como as músicas chamadas ‘fáceis’. É assim, com o princípio da ideia de que a música pode ser corrompida e desviada, com o olho no que aí vem e perspectiva de futuro que os Lokomotiv sobem ao palco.

Lokomotiv: Carlos Barretto no contrabaixo, Mário Delgado na guitarra e José Salgueiro na bateria e percussões. A créme de la créme, um super-grupo, pessoas que ajudam todos os dias a construir o jazz português. Três músicos de soberba que enquanto sujeitos individuais pontificam no seu caminho, mas que enquanto grupo convergem para a genialidade que tem tanto de Miles Davis em Bitches Brew, como de King Crimson em Red (um dos discos menos ouvidos da banda, mas em que o trabalho de Adrian Belew é superlativo).Ontem comemoravam-se quinze anos, mas a olhar para os quinze anos que ainda aí vêm. Tudo começou no passado,com Terra de Ninguém, retirado do belíssimo Suite da Terra. Carlos Barretto nas lides, com o seu contrabaixo a dar o tom ou a abrir caminho sulcado, que era percorrido pelos dois dedos, quais pernas esforçadas de um caminhante que tem uma meta. A meta, ia-se perceber com a chegada de Lokomotiv, era a metamorfose, a transformação de um baixo  bamboleante e das notas aveludadas da guitarra, num delírio devaneante de electricidade em que os dois dedos caminhantes de Barretto preferiam a corrida acertada à marcha, a guitarra de Mário Delgado a distorção à suavidade e a bateria de José Salgueiro a explosão ao aplanar do caminho. Uff, que belo ponto de partida.

«15 anos. Estamos velhos!», Carlos Barretto ri-se sabiamente e acrescenta tudo aquilo que já sabíamos: «15 anos sempre a olhar para a frente e vamos continuar a olhar para a frente. Para o futuro». A meta continua metamorfoseante enquanto se avança, ora por terrenos mais familiares (0s do jazz clássico), ora por outros que podiam soar estranhos a alguns ouvidos (crucifiquem-me, mas houve passagens com sabor a prog-rock à la King Crimson. Talvez porque estes também se influenciaram pelo jazz e vice-versa). O que é certo é que, por mais dezenas de géneros que fossem abordados, estilhaçados e novamente remendados numa manta musical, os Lokomotiv mantêm uma identidade forte e única – muito graças ao contrabaixo gigante de Carlos Barretto, domado desde o primeiro minuto. Regras para quê? Elas só chateiam.

Toda esta maleabilidade conseguida através da hábil mestria de todos os músicos em palco – palmas, aliás, vénias para Delgado e Salgueiro – acabaria por culminar em Dádiva da Dúvida. O melhor momento do concerto foi tão espectral, que podia servir de banda sonora a Dario Argento. Havia algo de pantanoso, denso e sombrio que não foi possível absorver tudo de uma vez. Felizmente o momento a solo de Carlos Barretto em palco, construído com um arco e delay, deu-nos (a mim) tempo para assimilar o que se tinha passado. Entretanto, o mestre do contrabaixo debitava um solo que tinha ecos, muitos ecos, da música à qual Arthur Russell dava voz. E foi isso exactamente que faltou, uma voz. Pensa nisso, Carlos!

A meta estava no horizonte, mas faltava ainda um desafio. A tempestade imposta por Triklofive repleto de percussão, daquela que abana até o mais quieto e capaz de despertar até o mais molenga, era a prova que faltava ao caminhante que haveria de chegar à sua meta com o melódico Radio Song, já depois de muitos aplausos e pedidos de um regresso. Quinze anos em grande, a olhar para um futuro em transformação. Estes três vão no bom caminho.

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