Tiago Sousa em entrevista: “Tento expressar a minha própria natureza através da minha música”

22Mar11

Texto por Ana Beatriz Rodrigues
Fotos por Vera Marmelo

O oxigénio de Tiago Sousa não é qualquer um. É musical, sensorial e belo: todo um imaginário que se torna real em teclas de piano, tocado, clave a clave, pelo espírito de um Barreiro criativo. Em vésperas de lançar o seu novo disco, Walden Pond’s Monk, o músico desvendou ao PA um pouco das suas inspirações, da sua ligação literária e, claro, houve tempo para um regresso ao passado presente da Merzbau. No próximo sábado, 26, na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, e, a 2 de Abril, na Casa da Música, no Porto, poderemos ouvir Tiago e viajar com ele pela fantástica vida dos bosques.

Como surgem as tuas experiências com o piano? Apesar de teres tido aulas na infância, não foi algo em que tivesses pensado seriamente antes dessa prenda…
O piano surgiu após uma crise de identidade artística. Durante a minha adolescência estive ligado ao universo do Rock, envolvi-me em algumas bandas com diferentes abordagens. Feitas as contas comecei a sentir que nas diferentes bandas existia uma certa carência identitária que me afirmasse individualmente. Sobrava uma percepção de que tinha passado a maior parte do tempo a tentar imitar os ídolos dessa altura. É neste contexto que surge a ideia do piano. Era um instrumento ligado à minha infância ao qual eu tinha associado um património emocional que me era muito querido. Pareceu-me igualmente que seria uma forma de me voltar para dentro de mim próprio em busca de uma voz que tivesse em conta as minhas idiossincrasias. A minha avó acabou por me oferecer um piano para me incentivar e eu decidi nesse mesmo dia que iria ser autodidacta e aventurar-me na minha própria descoberta do instrumento.

Sentes, então, que se trata de um legado, dado que a tua avó foi professora de piano?
De algum modo esse legado esteve sempre presente. A minha família da parte dos meus avós maternos sempre foi uma família muito artística. Há diversa gente que pinta e antepassados que estiveram ligados à música, sempre de um modo bastante amador, com a entrega característica desse mesmo estatuto. Essa vivência marca profundamente a minha existência. Dado que também ouvi muita música erudita em pequeno ao ouvir as aulas da minha avó, as audições de piano, ou os poucos discos que ela tinha. Ainda que de um modo extremamente empírico fui construindo esse património emocional que mais tarde comecei a tornar mais consciente. Não o sinto como uma responsabilidade mas sinto que essa experiência que tive em pequeno me despertou a sensibilidade.

Muitos afirmam que o Barreiro é a Brooklyn portuguesa. Consegues ter o distanciamento, apesar de residires lá, para explicar a mística criativa da cidade?
É uma cidade muito própria. Ligada a um forte movimento associativo no passado. Pela indústria forte que teve na primeira metade do século XX acabou também por se transformar numa cidade muito viva e comunitária. Esse espírito perdura com os tempos e vai passando de geração em geração. Julgo que acabou por se tornar numa boa escola para mim, na altura em que para aqui vim e me comecei a ligar mais à malta que já fazia coisas. A malta da Out.ra Associação ou da Hey Pachuco!, assim como outros personagens que gravitam em torno dos acontecimentos que elas promovem. Ao mesmo tempo é uma cidade bastante desesperada em que sentes que muita dessa energia se esvanece e se autodestrói. Mas sem dúvida que dentro de certos ciclos tem uma forma muito particular de estar. Muita gente que gosta de música, ou literatura, ou outras expressões. E no meio da sua vida boémia não tem sido raro encontrar pessoas com quem podemos ter uma boa conversa e isso é muito estimulante.

Torna-se complicado fazer-te uma entrevista sem mencionar a Merzbau, por causa do seu impacto na música portuguesa. Como seu mentor, quase dois anos depois do término da netlabel, não tens vontade de voltar a ter uma iniciativa do género?
Eu continuo ligado a esse espírito empreendedor. Apenas agora encontro-me mais num segundo plano, também porque tenho estado bastante mais concentrado na minha música. Não digo que não seja possível que volte a envolver-me de forma mais activa. Fazer aquilo deu-me muito gozo e sinto que aprendi muito com o processo mas a prioridade neste momento é de facto estabelecer a minha carreira enquanto músico.

“O legado [da Merzbau] continua no site e qualquer pessoa pode revisitá-lo ou descobri-lo”

Lançaste, enquanto membro da Merzbau, inúmeros nomes marcantes da música portuguesa. Falo, por exemplo, de B Fachada ou de Noiserv. Sentes orgulho ao ver o sucesso que as tuas apostas alcançaram?
Sinto acima de tudo aquela coisa do “dever cumprido”. Porque o meu propósito com a Merzbau sempre esteve ligado à crença de que as pessoas precisam de espaço de laboratório onde possam crescer e desenvolver-se com um risco minimizado e daí conseguirem desenvolver-se artisticamente sem a pressão do “sucesso”. Claro que depois cada artista conseguiu usar isso de modos diferentes. No final do dia sinto que valeu a pena por todos as bandas e artistas que se envolveram, tenham eles feito mais ou menos sucesso. O legado continua no site e qualquer pessoa pode revisitá-lo ou descobri-lo.

Colaboraste, musicalmente, com filmes. Achas que o cinema a música, enquanto processo criativo, andam de mãos dadas?
Já tive música nalgumas coisas mas mais pontuais. Numa longa metragem nunca aconteceu mas também não tenho essa ambição em particular. Envolver-me-ia caso fosse um projecto no qual acreditasse e que de algum modo respeitasse a minha própria identidade artística. Não me vejo a desenvolver carreira enquanto compositor de bandas sonoras apesar de compreender que a minha música tem um carácter cinematográfico forte.

E a literatura, como pode ser relacionada com a tua música? Li que William S. Burroughs também já te influenciou no passado.
A literatura acaba por ser uma referência bastante mais profícua para mim. Lancei em 2008 um disco chamado The Western Lands que é inspirado no livro com o mesmo título do Burroughs, o próprio Insónia tem um certo carácter ligado à corrente existencialista. E agora o Walden Pond’s Monk recorre à inspiração do escritor e ensaísta Henry David Thoreau.

“No fundo o que eu faço com esta inspiração [a literatura] é um exercício estético”

Podes explicar-nos em que sentido?
Thoreau foi um escritor e ensaísta que escreveu, entre outras coisas, dois livros fundamentais na Literatura Americana, o Desobediência Civil e o Walden – Ou a Vida nos Bosques. A sua obra tocou-me primeiro como indivíduo. Nesta minha busca por respostas que consigam ajudar-me a compreender o mundo e a civilização contemporânea. Estabeleci de imediato uma empatia muito forte com os valores que Thoreau advoga na sua obra. Estes valores estão ligados à emancipação individual enraizada numa moral individual focada nas aspirações legítimas da vida na terra que o leva a contestar o crescimento exacerbado do materialismo, do despotismo, da necessidade de subjugar o “Outro” à nossa vontade. Sempre guiado por um profundo respeito pela natureza enquanto força que providencia o que existe de mais elementar para a concretização dessa vida. No fundo o que eu faço com esta inspiração é um exercício estético. Ao criar o Walden Pond’s Monk quis homenagear a obra e o legado que Thoreau nos deixou. A criação de um objecto artístico depreende sempre o desenvolvimento de uma sensibilidade estética que se rege por valores ou ideias que queres expressar. No fundo o que eu faço é uma materialização de alguns desses valores quase como uma consumação utópica através do veículo de ideias que é a arte. Não o faço com um propósito de veicular um qualquer dogma ou uma qualquer verdade absoluta mas apenas como a expressão da minha sensibilidade e identidade que depois à posteriori será interpretada de diferentes formas pelo ouvinte.

Como é que é ser um músico, em Portugal? Sentes-te bem tratado? Consegues viver inteiramente para a música?
Estou um pouco cansado da apologia do coitadinho que cada vez é mais frequente na nossa sociedade. Estamos a viver um momento conturbado da nossa existência colectiva mas que vamos ter de saber ultrapassar com determinação e sentido de responsabilidade. A vida de um músico não é fácil, como não será fácil a vida de qualquer pessoa que tente atingir algum objectivo por mérito próprio. Temos de saber lidar com a adversidade. Conseguir olhar mais além do que a penumbra possibilita e pensar de forma audaz para que nos possamos transformar primeiro individualmente e depois colectivamente. É esse o meu objectivo com aquilo que faço. Tenho a meu favor o facto de gostar de o fazer e de me sentir comprometido e isso leva-me a abdicar de alguns confortos mas que deixam de ser importantes quando penso na razão pela qual o faço.

Tens e tiveste várias bandas. Como é que concilias os teus projectos homónimos e, agora, os PÃO?
Gosto da energia que brota do facto de poder envolver-me com outras pessoas. Pessoa que têm as suas experiências e idiossincrasias mas que nessa diversidade nos ajudam a crescer e a viver novas circunstâncias. A aventura com os Pão é mais uma nesse sentido como no passado me envolvi noutras bandas e como espero voltar a fazê-lo no futuro.

Preferes estar em palco sozinho ou acompanhado por outros músicos?
São experiências diferentes como é natural. Gosto de estar sozinho quando o momento tende a um certo intimismo mas gosto igualmente da experiência incrível que é, podermos partilhar a nossa música com outras pessoas que contribuem com a sua individualidade.

Mas, ao mesmo tempo, costumas ter sempre convidados especiais nos teus discos. O que procuras quando pedes a alguém para colaborar contigo? Tens agora, no novo disco, Ricardo Ribeiro e Baltazar Molina contigo, por exemplo…
Procuro acima de tudo enriquecer aquilo que faço. Sinto que o contributo destas pessoas levou-me sempre a lugares que não julgava ainda possíveis na minha música e essa é a maior recompensa destas colaborações!

Pelo que percebi, cada disco teu reflecte um momento da tua vida, até mesmo em termos de influências musicais. Por exemplo, o Crepúsculo tem influências muito post-rock… E aqui, em Walden Pond’s Monk, quais seriam as tuas maiores inspirações?
Tento sempre que essas inspirações não me condicionem em demasia. Eu terei imensos compositores ou artistas cuja inspiração exerce influência sobre o que faço mas acima de tudo tento dar espaço à minha própria forma de trabalhar o processo. Sinto que cada pessoa faz a sua própria interpretação e encontra em si as suas próprias referências para a minha música e sinceramente seria estragar esse mesmo gozo se tentasse fazer uma leitura muito linear sobre o modo como cada coisa me muda e me influencia.

Já tiveste experiências internacionais, em digressão. Como correram?
É sempre um enorme prazer e um enorme desafio. De repente deparas-te com uma plateia de pessoas que nunca ouviram falar de ti na vida e o que sinto é que essas mesmas pessoas acabam por estar muito mais de coração aberto à essência da música! Para além de tudo o que propicia: podermos visitar novas cidades, conhecer novas pessoas, sermos bem recebidos por essas pessoas. Eu tenho sido sempre incrivelmente bem recebido e volto sempre com a certeza de que estas redes informais são de uma importância cada vez maior e são uma resposta muito concreta à mecanização do mundo.

Editaste pela Humming Conch, mas, agora, Walden Pond’s Monk irá ser editado pela Immune Records. Como surgiu a oportunidade?
Foi bastante engraçado. Porque o Erik, o dono da editora, descobriu o meu disco (Insónia) na Boomkat. Enviámos alguns exemplares para eles venderem no site e a crítica que saio ao disco era altamente elogiosa. Chegaram mesmo a colocá-lo como destaque da semana. O resultado foi que os discos voaram em dois dias. Um dos discos que foi vendido foi precisamente ao Erik que aparentemente gostou do disco ao ponto de me enviar um e-mail a dizer para lhe enviar material quando tivesse um disco novo pois ele poderia ter interesse em editar. E assim foi.

Porquê o hiato de dois anos?
O disco já está gravado desde o Verão de 2010. O Erik já tinha o seu ano calendarizado o que só possibilitou a saída do disco agora em Abril. Não chega bem a ser um hiato de 2 anos pois o Insónia saiu em Novembro de 2009. Força das circunstâncias.

O que é que nos podes contar sobre o novo disco?
É um disco simples e singelo que eu fiz na esperança de que seja algo que valha a pena ser partilhado. A avaliar pelas primeiras impressões só posso permanecer convicto e continuar empenhadamente a trabalhar para continuar a fazer música que eu considere valida e interessante.

“Tento […] expressar a minha própria natureza através da minha música”

Vais beber, neste novo registo, a uma estética, para muitos, idealista e romântica. Achas que isso é uma parte de ti?
Acima de tudo o que tento é expressar a minha própria natureza através da minha música. É em parte por esse motivo que a gravação que se encontra no disco foi feita num só take. Como se de um concerto se tratasse. Pois sinto-me bastante cansado de artificialismos e de um fenómeno de espectacularização da vida social contra o qual quero lutar e me expressar. Antes de me preocupar em “entreter” estou mais interessado em reflectir e me “reflectir” através da música que faço.

O que é que podemos esperar do Tiago Sousa num futuro próximo?
Aquilo que esperaram até aqui….

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2 Responses to “Tiago Sousa em entrevista: “Tento expressar a minha própria natureza através da minha música””


  1. 1 Tiago Sousa em entrevista (via Ponto Alternativo) « Nunoanjospereira’s Weblog
  2. 2 Clubbing de Abril traz Roy Avers, Tiago Sousa e Rene Hell ao Porto « Ponto Alternativo

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