Concerto: Roger Waters – The Wall Live @ Pavilhão Atlântico

22Mar11

21 de Março, Pavilhão Atlântico, Lisboa
Texto por Emanuel Pereira

A 2 de Julho de 2005, as televisões puderam difundir mundialmente imagens únicas e marcantes: os Pink Floyd estavam reunidos na sua totalidade, mais de vinte anos depois. Roger Waters, David Gilmour, Nick Mason e Rick Wright pisaram o mesmo palco e tocaram quatro músicas – uma delas, Wish You Were Here, dedicada ao génio Syd Barrett, que ainda estava entre nós, por essa altura (e, quem sabe, a assistir à actuação dos seus eternos companheiros).
Durante aquela meia-hora, pudemos testemunhar a grandiosidade de uma banda que joga numa divisão à parte. Para mim, e não minto, sempre foi difícil comparar Pink Floyd com outro grupo qualquer, até. Continuam a pairar sobre a minha cabeça como uma entidade etérea, capaz de criar os mais idílicos, e também escabrosos, cenários mentais. Durante a sua carreira, foram abrindo passagens inúmeras para dimensões difusas, onde nos podemos encontrar com todos os nossos espelhos psíquicos, numa congregação de self-enlightment.
E foi nesse 2 de Julho de 2005, por ocasião do Live 8, que eu entendi algo. Se eu juntasse os melhores músicos do mundo e os colocasse numa sala de ensaio nada me garantiria bons resultados. Mas, se eu colocasse os Pink Floyd, provavelmente teríamos direito a mais um álbum colossal. Entre eles, sempre existiu uma química perfeita, mesmo com toda a turbulência que lhes marcou a carreira.
De entre os membros de Pink Floyd, Roger Waters destacou-se pelo seu sentido criativo e pelas suas ideias incomuns. Marcado pela evasão de Syd Barrett, pela morte do seu pai e pela opressão a que foi sujeito enquanto jovem, Waters tornou-se um indivíduo volátil, mas capaz de catalisar o seu lado lunar obscuro em obras musicais eternas. The Wall é uma delas. Aliás, The Wall é a vida de Roger Waters transformada em rock opera. Ontem, no Pavilhão Atlântico, vimos um homem de 67 anos a percorrer todos aqueles anos tenebrosos em retrospectiva, dando grande ênfase à crítica sócio-política, outra das faces de The Wall.
Mas Roger não se limitou a isso. Roger trouxe consigo um império artístico. Transformou o Pavilhão Atlântico em cinema, teatro, palco de concerto, tudo em simultâneo, num clímax inolvidável.

Assim que In The Flesh? abanou a estrutura do recinto, auxiliada por uma imponente descarga pirotécnica, o público colocou-se em sentido e percebeu que deveria respeitar o que aí vinha. Imensas câmaras foram colocadas ao alto, prontas a testemunhar o que se lhes deparava. Roger apareceu, envergando aquele sobretudo ditatorial, adereço importante da última parte do filme de The Wall. A partir daí, o espectáculo desenvolveu-se em larga magnitude. O muro, que começou despedaçado, foi-se construindo a pouco e pouco, tornando-se não só uma barreira entre público e plateia (outro conceito-chave do álbum), mas uma parede capaz de reflectir imagens que lhe eram projectadas. Another Brick In The Wall (part II) – com a participação especial de crianças da Cova da Moura – e Mother marcaram a primeira parte do concerto, com a última a ser especial: Roger Waters fez questão de cantar e tocar por cima da gravação de um concerto de The Wall em 1980, em Earls Court, Inglaterra, criando uma simbiose de 30 anos, entre “um Roger fodido da vida e um Roger mais calmo e tranquilo”. E, quando questionou a sua mãe sobre se deveria confiar no governo, o público português respondeu com um monumental assobio, que quase ofuscou o som do concerto, algo recorrente em todas as cidades por onde passa e passou esta tour. Sintomático.

Goodbye Cruel World foi o último tijolo no muro, com o membro dos Pink Floyd a colocá-lo. Anunciou-se, então, um intervalo que durou praticamente meia-hora, tirando algum ímpeto ao concerto. No muro, reflectiram-se imagens de jovens que padeceram na guerra, recordando-os e homenageando-os, ao som das tradicionais e oficiais gaitas de foles.
Hey You, a extraordinária música que serviu de abertura para a segunda parte, sofreu com a paragem, pois ainda eram muitos aqueles que voltavam aos seus lugares iniciais quando se deu reinicio ao espectáculo. Vera, Bring the Boys Back Home e Comfortably Numb compuseram uma tríade imponente, servindo de ligação entre a violência emocional de Roger Waters e a violência dos conflitos armados, que separam famílias, tal como aconteceu com o músico.
A última parte foi obviamente dedicada à metáfora ditatorial, com os martelos cruzados a surgirem por todos os lados, e com Roger a disparar uma metralhadora em direcção ao público, tentando emular aquilo que Pink (brilhantemente interpretado por Bob Geldof), já sem sobrancelhas, conseguiu fazer no filme. Ainda houve espaço para colocar imagens de dois árabes assassinados a longa distância por tropas americanos, que julgaram que os dois jovens transportavam armas, quando apenas levavam consigo câmaras de filmar.

Os derradeiros momentos foram dedicados ao julgamento final (com Roger a interpretar de forma categórica todas as vezes de The Trial – aliás, Waters mostrou ser ainda dono de uma voz imponente, como se ouviu em Don’t Leave Me Now), que culminou com a destruição do muro. Outside the Wall foi tocada já com todos os músicos para além dos destroços, onde puderam saudar e receber uma calorosa e merecida ovação, com Dave Kilmister a ser o mais aplaudido, até por ter ocupado o lugar de destaque: o de David Gilmour.

Acabo esta review com a sensação de dever incumprido. Haveria tanto para dizer, para mencionar. As referências a George Orwell, as figuras projectadas de Stalin, Obama, Mao Tse Tung ou George W. Bush, o psicadelismo de What Shall We Do Now?… Mas é impossível descrever tudo, ou sequer parte, do que se sucedeu ontem. Resta-me esperar que a minha memória se conserve pelos vindouros anos. Pelo menos, parcialmente, para que não me consiga esquecer de tudo o que absorvi.

Sinto-me, hoje, feliz por ter visto um membro dos Pink Floyd.

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One Response to “Concerto: Roger Waters – The Wall Live @ Pavilhão Atlântico”

  1. 1 rui soares

    ja tive o prazer de ver no velhinho e desapareecido estadio de alvalade Pink Floyd no rock in rio rogers waters etambem tive o prazer de estar presente no dia 21 no grandioso Atlantico para um grandio e espectacular concerto que se podia repetir pelo menos uma vez por semana.


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