Concerto: Sei Miguel Unit Core @ ZDB

19Mar11

17 de Março, Galeria Zé dos Bois, Lisboa
Texto por Regina Morais

A realidade constitui uma percepção dividida entre o espaço e o tempo”, afirmou Sei Miguel. Poder-se-ia resumir a sua actuação, em parceria com Fala Mariam (trombone) e César Burago (percussão), através da frase mencionada. Porém, a colectânea de formas apresentadas cronologicamente por Sei Miguel merece um campo muito mais vasto de análise e reflexão.

Nesta segunda sessão de releitura, apresentaram-se as peças que percorrem os anos noventa até ao novo milénio. Se na primeira nos foram apresentados os cinco elementos e as suas consequentes formas (musicais), desta vez o elemento água foi o centro das audições. O ambiente, propício à abordagem deste elemento, era dono de plena tranquilidade. Poucos foram os que passaram na noite de quinta-feira pela ZdB.     

Sei Miguel iniciou a noite com uma pequena introdução: uma sonoridade muito sequencial, na qual o alinhamento do trompete e trombone era análogo. Contrastando, no que toca ao som produzido, os metais da percussão de César Burago surgiam como uma ponte que intersecta as margens de texturas de cada instrumento.

Terminado o prefácio melódico, o trompetista não hesitou em voltar às palavras e situar-se em relação ao que se passara na apresentação anterior. A chegada à “forma cíclica” foi o colmatar da noite de Fevereiro. “Para conseguir trabalhar as formas são necessárias simetrias”, referiu quando explicava o que são para si as formas cíclicas, onde a sucessão temporal acaba por ter lugar de forma dispersa. “Parto da relação entre as energias perfeitas com as formas imperfeitas”, assim, entender-se-á o porquê da forma surgir num tempo sem ordem.

Chegando ao ano de 1994, Sei Miguel anunciou uma forma nova: a forma cíclica americana. Em ’94 era um grupo de dez instrumentistas que explorava este ‘showtime’, de uma complexidade narrativa distinta, agora interpretado pelo trio. Foi a textura criada por César Burago, muito semelhante ao que se ouve quando um canal de rádio não está sintonizado, que deu a ordem de início. Logo de seguida surgiram o trombone e o trompete que, durante a interpretação desta peça, nunca se ouviram em simultâneo. Enquanto Fala Mariam buscava uma linguagem mais branda no trombone, Sei Miguel seguia uma linha díssona, originando diferenças consideráveis entre os instrumentos. Esta peça é marcada por vários inícios e vários fins. Ou seja, não existe um crescendo que estabeleça uma recta a percorrer do “ponto A (início) ao ponto B (fim)”.

Um salto da América do Norte para a América do Sul. A “forma torta” ou, rigorosamente, forma paulista, datada de 2007, ouviu-se num laivo de ambiguidades e de fonias telúricas brasileiras. A pandeireta lançou o ritmo, o trompete aventurou-se num seguimento de frequências temperamentais em conjunto com o trombone: ora era uma sonoridade que roçava o ‘groovie’, ora o registo era senhor de uma euritmia muito mais lenta e extensa.

Foram duas versões distintas da peça Asterion que encerraram a noite. A primeira, fiel à peça original, foi marcada por um diálogo constante entre os instrumentos. Nenhuma sonância se ouviu em demasia, o equilíbrio foi proprietário do som. Já na segunda versão, a qual Sei Miguel denominou por «forma cíclica acelerada», a interpretação foi significativamente distinta: a sobreposição de texturas, as quebras sonoras que davam lugares distintos de destaque a cada instrumento e a variedade ininterrupta de acordes foram detentoras dos últimos instantes de música.

Sei Miguel persiste na dicotomia fantasia/realidade em relação às suas composições. A procura incessante de inserir o que o transcende no seu real pessoal acaba por determinar uma série de formas, onde a audição de elementos que se tornam físicos aliada à composição de uma linguagem inédita acabam por responder àquilo que se espera na posteridade do jazz.

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