Reportagem: Rock no Monte – uma segunda edição para a memória

17Mar11

11 e 12 de Março, Montinho, Cantanhede
Texto por André Forte / Fotos por Eduardo Pinto

Antes de se avançar para cada concerto, há que se fazer umas notas prévias para que se percebam algumas coisas: primeiro, que o Rock no Monte foi um festival de dois dias, e, aparentemente, no Montinho isso leva-se a sério – um dia é um dia e outro dia é outro dia; segundo, que, a continuar assim, o evento começa a ser um roteiro a ter em conta para o fim-de-inverno; e, terceiro, último e mais do que óbvio, que a polícia só prejudica a organização destes eventos. Mas já lá vamos, porque o que realmente importa reter aqui é a música e o sucesso que este segundo Rock no Monte foi. Imperativo é que para o ano haja mais – e está tudo alinhado para que tal aconteça, diz a própria organização.     

1º dia (11 de Março)

O Rock no Monte sofreu de uma curiosa patologia de som, em que, começando da pior maneira, a forma como se ouviria cada banda acabou perfeita em todos os recantos da tenda. Infelizmente, isto afectou imenso o concerto dos Botswana, que acabou por ficar reduzido a um bacoco som de bateria, com um ténue acompanhamento da voz distorcida de João Pimenta, que também empresta as suas cordas vocais aos ALTO! e aos Green Machine. De vez em quando, talvez de mais, lá se ouvia o baixo a ser agredido, quando a música aparentava crescer, e se escutava a guitarra, quando todos os outros instrumentos aguardavam em silêncio. Para uma banda como os portuenses, em que a música tem bem mais do que um linha melódica comum a todos instrumentos e ganha em pormenores, este simplesmente não foi o dia ideal, dadas as condições. Mas, claro, não foi impedimento nenhum para que se fizesse a festa em palco e para que o vocalista andasse pelo meio do público a dançar e a violar a bateria e a monição. A festa foi deles e dos Larkin, que estiveram em aquecimento durante todos os concertos.

Já com o backline a seu favor, os Aspen, de guitarra, baixo e bateria num plano bem mais audível e perceptível, fizeram uso da amplificação para levar a perdição à audiência com um doom adornado com alguns laivos do post-rock técnico à la Russian Circles. Sem grandes acidentes, entre acelerações e desacelerações no andamento das músicas, o trio barcelense começou a delinear com clareza os contornos de bons concertos que se iam ver na tenda do Montinho, com muitos cabeceamentos ao sabor do vai e vem dos riffs. No entanto, apesar da boa performance, o público, que preenchia toda a tenda, não saberia corresponder ao headbanging das bandas com muito entusiasmo. Facto esse que se verificou ao longo da noite e que até não é de estranhar, dada a falta de concertos na zona de Cantanhede, no geral.

Mas mesmo perante um público mal habituado, os Larkin mostraram-se bipolares da melhor forma: sempre simpáticos entre as músicas, mas completamente entregues às suas canções numa loucura (quase) contagiante, recordando-me qual o propósito do hardcore – contagiar quem o ouve com o feeling e alegria com que deve ser tocado. No entanto, sem as fronteiras do género e graças a composições ponderadas além de fórmulas gastas e à vivacidade de um baterista impossível de ignorar, o quinteto de Viana do Castelo conseguiu proporcionar um concerto mais do que divertido e deixar óptimas recordações para quem estava a compreender o que raio se passava em palco. Os At the Drive-in ficariam felizes por alguém perceber que o punk é quebrar barreiras e fazer não música, não tentar fazer algo com limitações de ideias. Uma grande contribuição para a memória colectiva terá sido, com certeza, a constante dedicatória de músicas ao “Glockenwise de camisa azul”, que consumia um bebida espirituosa em frente ao palco, visivelmente satisfeito com a sua situação.

Ou, quem sabe, simplesmente nervoso. Algo que não combina nada com este quarteto de rufias simpáticos (e que pode ser já excluído), que passam concertos a tocar punk ensurfado de reverb e a falar de adolescentes que engravidam, mas que não se contêm no que a distribuir amor diz respeito. Começando a actuação com uma quase dedicatória, o vocalista Nuno Rodrigues encarnou um dos organizadores enquanto o chapéu que aparentemente o caracterizava se manteve na sua cabeça: “Nós somos os Glockenwise e eu hoje sou o Pinto,” atirou antes de se fazer a Bardamu Girls com os restantes três membros (Glockenwise de camisa azul incluído). E foi neste “toma lá, dá cá” que os barcelenses se desdobraram em palco, insultando quem se ia mexendo, elogiando quem conheciam e divertindo-se à brava com as suas canções. Quando chega o final glorioso do quarteto, Goodbye, não há mesmo como duvidar disto: não há como não passar um bom pedaço num concerto de Glockenwise. A não ser que não estejam bem habituados…

2º dia (12 de Março)

E virando a página para o último dia do evento, parece que se virou o público também. Um dia é um dia, e outro dia é outro dia, foi sem dúvida o que se verificou no Montinho. Talvez por agraciada com um som claramente melhor, perceptível e claro em todos os momentos, e com uma primeira actuação surpreendente, a audiência do Rock no Monte entregou-se inteiramente às actuações, partilhando da energia que emanava do palco durante quase todos os concertos.

Mas claro que nem tudo foi um campo de rosas para os Wild Tiger Affair, que ainda apanharam com alguns narizes torcidos aqui e acolá. Contudo, mesmo perante os obstáculos do costume que cabe sempre às bandas de abertura enfrentar, o quarteto de São João da Madeira mostrou que o seu sludge não está mal na vida: tem bons riffs, não é demasiado óbvio e vive de partes instrumentais muito bem conseguidas, principalmente para o fã incauto do headbanging. Porventura cientes disso, deixaram o suor todo no palco e levaram algum da audiência, embevecida, consigo para o backstage. Merecidamente, acrescente-se.

Já sem peneiras e com a voz da experiência a pulsar em cada movimento de pulso, quer nos instrumentos de cordas quer na percussão, os Sons of Misfortune atacaram o Montinho com um stoner do bom e à boa moda antiga: riff, refrão e solo (o baixista e o baterista que se desunhem, que o rock é das guitarras). Claro, Conim, dos Dawnrider, sabe bem com quem se meteu para formar este trio, porque não era de se desenrascar a eles que Mike Ghost, dos Men Eater, e Poli, também conhecido pelo alter-ego Sam Alone e por dar voz aos Devil in Me, se encarregavam. Bem pelo contrário, aquele duo aguenta cada música como se fossem uma orquestra. Perante esta entrega e esta solução bem conseguida de cada riff seguro pela raiz aos sons graves, Conim agradece na linguagem que melhor conhece: a de solar na guitarra, no palco, no público, na monição, onde calha; essencialmente, como um guitarrista dos tempos áureos do rock o faria – com estilo, muito. Mesmo não se tratando de um genial virtuoso, brilhante e histórico, cada fraseado acaba por assentar como uma luva nos Sons of Misfortune.

Talvez por humildade, ou por se saberem uns verdadeiros sacanas, os membros tenham chegado ao consenso de se considerar a falta de sorte no nome. Porque, azar dos azares para os Amazing Flying Pony tiveram o ingrato papel de se desembaraçar do entusiasmo que Mike Ghost e companhia construíram anteriormente (que até se deram ao trabalho de fechar a actuação com a Kick Out the Jams dos MC5, com grande pinta). Perante uma actuação que teve tudo, desde presença, força a, claro, grande riffaria, o quarteto de Coimbra fez o melhor que lhe era possível, mas simplesmente não foi suficiente para apagar uma actuação demolidora. Não se lhes aponte, ainda assim, a falta de entrega, que não houve. Tiveram a vontade de estar em palco e de tocar cada nota com o feeling do punk dos inícios dos 80 que caracteriza o seu som – e que conduz a voz da vocalista, algures entre uma pequenina Karen O e os gritos estridentes das vocalistas de B-52s. E do público, não haveriam de arrancar mais do que amena reacção, principalmente quando se coloca em perspectiva tudo o que aconteceu no Rock no Monte: eventualmente surge a actuação dos Devil in Me.

Que nem uns ‘Luíses de Matos’ do hardcore, Poli e companhia fizeram uns truques de cartas, saltaram, fizeram headbang, cortaram, magicmente, umas pessoas ao meio, e, de repente, tinham a plateia nas mãos. E aqui viu-se de tudo, como se espontaneamente o mosh fosse a dança oficial de um rancho local. Perante o comando do monstruoso e incansável vocalista, os presentes respondiam naturalmente a incentivos como “Circle pit! Circle pit!” e “usem o palco! Aqui não há regras!”, como se invadir estrados para fazer stage dive fosse o pão nosso de cada dia. Só para sublinhar este ponto: houve uma vigorosa wall of dead.

Autênticos bichos de palco, sempre em movimentos infernais, os Devil in Me encerram o Rock no Monte num apoteótico ambiente de festa, em que organizadores, membros de outras bandas e até do público, se deslocaram ao público para acompanhar a banda num sing-a-long. Nem o facto de se tratar de um hardcore agressivo, muito dependente de palm-mutes e, claro, cheio de beat-downs para dar peso, conseguiu afastar o público do quinteto, que esteve em constante comunhão.

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A actuação de Poli Correia e companhia só prova que, realmente, não há necessidade alguma de haver polícia à paisana e operações stop para quem vai e quem vem para que um evento destes corra bem. Aliás, já que mudei de assunto e estou nas acções da polícia, que multou bandas por causa das moradas que tinham nas cartas de condução e revistou toda a gente à procura de traficantes, gostava de vos tomar um bocadinho do vosso tempo para dizer para vos dizer que importância tem a polícia nestes eventos: nenhuma, a não ser que estejamos a contar com o prejuízo que representam para a organização. Há que agradecer os abusos de autoridade, porque isso da liberdade de expressão e de reunião e de seja o que for não faz muito sentido nas suas cabeças. Se não agradecerem, não se esqueçam que têm sempre uma morada na carta de condução e que isso vos custa umas boas dezenas de euros.

Só para não me multarem assim do nada, aproveito para dizer que não me chateia em nada que a polícia tente tirar o entusiasmo a pessoas que não ganham nada em organizar eventos destes. Eu sou todo contra bons concertos e pessoas felizes. A sério.

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3 Responses to “Reportagem: Rock no Monte – uma segunda edição para a memória”


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