Concerto: ThanatoSchizO + ManInFeast @ Hard Club

14Mar11

12 de Março, Hard Club, Porto
Texto por António M. Silva

Lá fora era dia de contestação. Um pouco por todo o lado falava-se de história a ser feita, com quase 300 mil pessoas a sair à rua com um propósito mais ou menos definido. Na Sala 2 do Hard Club, mais ou menos à mesma hora que uma geração à rasca marchava pelas ruas, os ThanatoSchizO e os ManInFeast desenrascavam-se para ter tudo pronto à hora certa: é que ali na sala ao lado “a artista” Maria Gadú e a sua equipa teimava em ocupar demasiado espaço e tempo. Por entre caixas de guitarras, cabos, amplificadores, tripés, pratos de baterias e toda a parafernália própria de um concerto, cerca de 20 pessoas marchavam de forma operária, em contraponto com a populaça contestaria umas ruas mais acima.

Mas com mais ou menos atrasos, um ou outro azar e os típicos problemas logísticos, a coisa lá ficou alinhavada e prometia bastante. Os ThanatoSchizO regressavam ao Grande Porto – agora na outra margem, haveria de lembrar Patrícia Rodrigues, a vocalista -, com um novo álbum que é um primor na bagagem (já ouviram Origami? Corram!) e os ManInFeast, uma jovem banda de Lamego que está a descobrir e bem o seu próprio caminho. Agora só faltava jantar, fumar um cigarro e esperar pela hora do concerto. A manifestação, essa, já tinha acabado – até porque começava a chover…

Às 22h00 a chuva mantinha-se, a manifestação já tinha recolhido definitivamente – Como foi? O que aconteceu? Estiveste lá?, ouvia-se perguntar –, à porta do Hard Club havia muita gente e os ManInFeast preparavam-se para entrar daí a meia hora. Desde a edição do EP How One Becomes What One Is, o quinteto lamecense já substituiu dois elementos – Tiago Machado é o novo baterista e Nuno Lobão o baixista – e passou a integrar José Silva como elemento definitivo. O novo alinhamento só tinha actuado uma vez ao vivo, mas na sala de ensaios já dava frutos: há música nova no horizonte e é para ser tocada no Porto. E entre estas e outras confidências, chegava a hora de subir ao palco e aqui ninguém estava à rasca.

Dentro da sala ainda havia pouca gente – será que a manifestação fez assim tantos danos colaterais? -, mas isso não tirou empenho à banda, que se atirou de cabeça à actuação. E pela forma que o fez, ninguém diria que só têm dois anos. Mas é perceptível, face ao seu trabalho de estúdio, que foi feita uma remodelação. Primeiro pela coesão e fluidez de som em palco, depois pelos pormenores mais trabalhados e desenvolvidos em Ewige Wiederkunft e Beyond Blindness – . É verdade que de cabeça nos lembramos do peso dos Neurosis e Isis, mas lá no fundo sente-se uma dissonância construída pelas guitarras que só lhes fica bem, principalmente quando se lhe juntam os teclados de André Lobão e José Silva, que tecem texturas agridoces à la Suicide que são um mimo!

Mas estes rapazes são duas caras da mesma moeda e, se de um lado mora o sludge violento, do outro mora o sublime de uma mistura shoegaze e pop. A ideia ficou bem patente nos temas novos (Broken Heart Kid e outro cujo nome mora no segredo dos deuses), que mostraram uma lição simbiótica bem estudada e aplicada no excedente de reverb das vozes e na distorção etérea das guitarras, que criaram um limbo entre os mui peculiares My Bloody Valentine e os não menos fixes Rosetta ou Year Of No Light. Aplauso sincero e fortalecido para o lamento cantado em Open Sky – um daqueles momentos de se tirar o chapéu – e para a voz de André Lobão, que não raras vezes fez lembrar a voz fantasmagórica de Devendra Banhartt. No final, a balança pendeu claramente para o lado positivo e deixou adivinhar novas forças motrizes na criação, que só podem resultar em coisas boas no futuro.

Entre a mudança de palco, houve tempo para mais uma cerveja, um cigarro e dois dedos de conversa. «Eram 80 mil aqui no Porto e 200 mil em Lisboa!», diziam da manifestação que, ali, não dava mostras de sequer ter ocorrido. Essa história já estava escrita; no antigo Mercado Ferreira Borges faltava escrever o capítulo da apresentação do novo disco dos TSO.

Infelizmente faltou gente a agraciar Origami. Muito mais gente, que quiçá acanhada pela chuva ou pela falta de vontade, não apareceu. Mas quezílias de quem vos escreve à parte, só restam coisas boas a dizer do concerto da banda de Santa Marta de Penaguião. Para quem não sabe ou não se apercebeu, Origami marca um ponto de viragem (e será que de não retorno também?) na carreira dos TSO. Longe vão os tempos de Insomnious Night Lift, em que o doom era a praia ideal para o sexteto; agora predominam os acordes acústicos, os arranjos étnicos, as cores e os sabores de outras paragens que vão de Portugal ao Médio Oriente. Os temas, esses, são ora tão velhinhos como o álbum Schizo Level ora tão frescos como o último disco de originais Zoom Code. E mesmo sem Eduardo na voz e Miguel no baixo.

Quem seguiu com atenção o evoluir dos ThanatoSchizO, sabe que sempre tiveram atenção ao mundo para lá do metal. Primeiro vieram os showcases acústicos em Fnacs, depois um embrião de Origami que percorreu o país e, finalmente, o produto final. Nos “novos” TSO moram os mesmos temas de sempre, com roupagens novas, que assentam tão bem ou melhor do que antes assentavam. Há bossa-nova em Sweet Suicidal Serenades; há acordes a fazer lembrar Silence 4 em Dance Of The Tender Leaves; há arranjos épicos em (un)Bearable Certainty suportados por uma orquestra… E por detrás de isto tudo há uma banda que leva muitos anos disto que é fazer música e que ainda não parou de crescer.

Só um amadurecimento lhes permitiria chegar a este ponto e arriscar uma mudança (tão) drástica, sem desapontar ninguém e ainda conseguir surpreender. Surpreendem os arranjos tão fluidos, surpreende a voz cada vez mais poderosa (indo de arisca a sedutora) de Patrícia, surpreende a voz de Guilhermino e surpreende, acima de tudo a sua capacidade de reinvenção de si mesmos. Com o disco a ser apresentado na sua totalidade no palco do Hard Club, saltaram à vista (ou aos ouvidos, para quem preferir ser literal) as versões de Sublime Loss, Journey’s Shiver e Suturn, agora sem voz e transformada numa amálgama perfeita de jazz e rock progressivo.

Sempre com um suporte visual por trás – parabéns a quem desenhou as projecções –, os TSO foram irrepreensíveis e ainda mais completos quando dois convidados subiram ao palco para tocar acordeão e clarinete em Hereafter Path e RAWVoid. Seria esse, aliás, o ponto em que a sala do Hard Club se aproximou da manifestação que tinha decorrido de tarde: com os membros de ManInFeast em palco a servir de coro e a melodia quase circense, cantou-se a linha «It was written by your eyesight…» a plenos pulmões e a pedir festa, pulos e outros festejos. Não fossem questões logísticas – imaginamos nós – e poder-se-ia ter partido dali para a rua, em cortejo festivo. Não aconteceu, mas podia – pensem nisso.

Com os novos membros Pedro Cardoso (guitarra) e Nuno Leitão (baixista) apresentados, a banda partiu para uma ponta final de concerto sem medos nem freios, em clara manifestação de – mais não seja – alegria de estar em palco. Aqui não houve lugar para contestações e no final ninguém podia dizer que saiu dali insatisfeito. Bom, ninguém menos eu, que fiquei a lamentar a francesinha acompanhada de fado ao jantar…

PS – E a manifestação, afinal como correu?

Advertisements


No Responses Yet to “Concerto: ThanatoSchizO + ManInFeast @ Hard Club”

  1. Leave a Comment

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s


%d bloggers like this: