Concerto: Arthur Doyle + PÃO @ ZDB

13Mar11

10 de Março, Galeria Zé dos Bois, Lisboa
Texto por Regina Morais


Faça-se história. Pela primeira vez, e aos 65 anos de idade, Arthur Doyle pisou um palco português. Após cerca de quarenta anos de carreira, o saxofonista trouxe a Portugal o seu leque de experiências que se iniciaram por volta dos anos 1960, onde predominavam as vanguardas pós-bop no seio jazzístico, e se desenvolveram até aos dias de hoje em diferentes linguagens. Do R&B ao gospel, atravessando em larga escala o avant-garde, criou uma sonoridade única que o próprio apelida por “free jazz soul”.

Foi o trio nacional PÃOTiago Sousa, Travassos e Pedro Sousa – que respondeu na primeira hora de música. Numa posição destemida em relação ao som, os músicos abraçaram as texturas, as vibrações e as “dronagens” aliando-as ao jazz que se fazia ouvir principalmente através do saxofone tenor de Pedro Sousa.

Logo no primeiro lance, com Tiago Sousa perante o teclado (que por vezes trocava pelo harmónio ou instrumentos de percussão), Travassos concentrado na electrónica e Pedro Sousa ajoelhado de saxofone na mão, ficou explícito o conjunto de gradações extensas que percorreram várias atmosferas num ritmo espaçado e lento. Apesar de a orientação distinta de cada um dos intérpretes, houve sempre uma simultaneidade comum que nos conduzia até momentos de clímax e se desvanecia vagarosamente, dando lugar à preparação e consequente criação de uma nova fórmula.

Contudo, as “rearmonizações”, travadas por Pedro Sousa e Tiago Sousa, contrastaram e ornamentaram o tramo oriundo da electrónica reverberante de Travassos. Por um lado, o saxofonista, que por vezes se sobrepunha sonoramente, ora fazia ouvir notas límpidas e longas, ora explorava a flexibilidade inerente ao instrumento. Contrariamente, as camadas provenientes do harmónio eram donas de um carácter taciturno e sucessivo.

Em suma, este conjunto de três intérpretes nacionais procurou experienciar uma fusão que liga o jazz com os sedimentos de textura e alguma crueza próprios da música drone.  Partindo da experiência, existe uma busca pela inovação, tentando encontrar caminhos sólidos e próprios que originem linguagens futuras.

Seguiu-se um curto intervalo. Entre arrumações no palco e os primeiros comentários que se ouviam sobre a actuação dos PÃO, ansiava-se o momento da chegada do lendário Arthur Doyle.

Muito curvado, de boina vermelha e crucifixo ao peito, Arthur Doyle subiu ao palco. Seria pela presença de uma figura tão forte ou o estado debilitado do saxofonista que desde logo se verificou, o público revelou-se atónito, deixando o aplauso inicial para o fim da primeira interpretação.

Todavia, mal Arthur Doyle se sentou e pegou no safoxone, mostrou-se senhor de uma genica, uma força e uma energia fora de série para alguém que se encontra na situação em que o músico está. A forma repentina como tocou os primeiros acordes, variando entre os sons altos e baixos, prolongando-se na melodia até um ponto de tensão para, seguidamente, o quebrar entre assaltos harmónicos e alguma dissonância, foram mais do que suficientes para deixar bem claro que a idade não é um obstáculo para demonstrar o talento, a perícia e o brilhantismo.

Inicialmente, deixou bem perceptível o carimbo que o caracteriza: a capacidade de responder vocalmente aos sons do saxofone. Feito que aconteceu por acidente e que, no entanto, acabou por ser um marco nas suas interpretações. «Eu tinha uma palheta de madeira demasiado frágil e a minha voz surdiu através do saxofone. Gostei do som, então comecei a tocar e a cantar ao mesmo tempo.», afirmou em entrevista à Cadence Magazine.

Se a voz se ouviu desde o princípio, então chegava o momento de pôr o saxofone de lado e fazer dela objecto de plena audição. Frases incompletas, muitas vezes imperceptíveis, relembravam o cunho de África que baptizou, em grosso modo, o jazz americano. Não se podia pretender nada diferente de uma lenda afro-americana, que conseguiu revelar algo impressionante através de palavras maioritariamente incompreensíveis.

Com bastante esforço e alguma manifestação de cansaço, Arthur Doyle levantou-se e fez sinal para alguém subir ao palco. Para surpresa de grande maioria, o jovem Gabriel Ferrandini foi eleito para acompanhar o saxofonista. Segundo Ferrandini, a ideia de um baterista a acompanhar A. Doyle foi do seu agente, argumentando sobre a vivacidade de Doyle ao ser acompanhado por um instrumento de percussão.

Não é de estranhar esta escolha. Gabriel Ferrandini é um Lionel Messi da bateria: ágil, rápido e com uma noção de ritmo primorosa. É, sem dúvida, um talento proeminente no meio do jazz nacional. Depois de um pequeno solo que respondeu de imediato ao “porque?” desta preferência, Arthur Doyle juntou-se, pegando no saxofone.

No primeiro exercício conjunto, o destaque variou entre o saxofone e a bateria. Ferrandini deu-nos um ritmo enérgico, Doyle apostou num registo mais discreto, com notas mais prolongadas e pausas mais compridas. No entanto, juntando-se ao compasso frenético do baterista, o saxofone assomou pelas notas contagiadas pelo ritmo. Uma crescente de acordes delirantes e inquietos fez abanar cabeças e ombros por toda a sala, chegando a um cume de puro êxtase.

Em seguida, a notoriedade voltou-se novamente para Arthur Doyle. Numa ginástica desenfreada ao saxofone, esquecendo a fraqueza e o cansaço afigurados na sua postura, o instrumentista acabou por ter de se levantar e sair do palco. Ferrandini continuou na bateria, agitando os pratos numa cadência de metais. Doyle voltou com a fadiga desenhada no rosto. Sentou-se, calmo, para parafrasear melodicamente: “I can’t get no satisfaction”.  De volta ao canto, Arthur Doyle assumiu novamente a sua identidade intercontinental, acompanhado pela subtileza que se passou a ouvir, proveniente da bateria de Gabriel Ferrandini.

Após a modesta saída do baterista, Arthur Doyle continuou na exploração vocal. Sentado, de cabeça inclinada e olhando para o crucifixo que trazia ao peito, algo muito próximo de uma oração.

Antes da indesejada despedida, Doyle voltou a pegar no saxofone. Apesar do carácter constante de improviso, nunca fugiu de uma execução melódica dos acordes. Saltos entre vários fragmentos, viagens dentro de melodias seguidas por pausas, finalizaram o concerto. De sorriso na cara, digno de uma ovação exaltada, Arthur Doyle voltou a pôr a boina vermelha e desceu do palco em direcção ao camarote.

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