Concerto: Daniel Levin Quartet @ Lisboa

03Mar11

28 de Fevereiro, Culturgest, Lisboa
Texto por Regina Morais

O regresso aos palcos nacionais trouxe consigo o quarteto de Daniel Levin para duas noites seguidas (27 e 28 de Fevereiro) de jazz no pequeno auditório da Culturgest. O contacto influente de Levin com a música erudita e digna de norma académica reinventa-se numa interpretação improvisada, que une várias linguagens musicais, feita pelos quatro instrumentistas.

Os bons concertos não precisam de ter uma plateia apinhada. Este foi um deles, em que a sintonia, empatia e reciprocidade lideraram entre os quatro músicos: Daniel Levin (violoncelo), Nate Wooley (trompete), Peter Bitenc (contrabaixo) e Matt Moran (vibrafone). Complicado será descobrir como é que Levin cria este espectro de autonomia – conexão – dinamismo levado a cabo pelo quarteto.   

Foi o violoncelista que estreou a música na noite de segunda-feira. Se há quem diga que a criação só surge após o conhecimento técnico, então a afirmação é uma máxima para o desempenho do intérprete. Daniel Levin lida com o violoncelo como se fosse um membro físico seu. Tal reflecte-se nos constantes olhos fechados, em que é o tacto e a sapiência que chegam ao pretendido e não a visão que o conduz até lá.

Uma corda que se solta do violoncelo não origina um momento parado para a sua substituição. Pelo contrário, dá continuidade a um exercício paradigmático em que são reveladas potencialidades para lá da erudição. É uma linguagem colectiva que permite que um incidente destes não interrompa uma criação sonora comum a quatro indivíduos.

Por sua vez, Matt Moran é um entusiasta do vibrafone. Não é apenas com a ajuda das baquetas que faz com que as teclas de metal se façam ouvir, são arcos de violino, correntes metálicas e um sentido de inovação audaz. Mesmo que tenha sido o músico que mais acusou a escola nova-iorquina ligeiramente comum a todos os instrumentistas, nunca se deixou ficar pelos cânones da mesma. Todas as extremidades das teclas do vibrafone acabaram por ser exploradas, desde as suas melodias acórdicas até às camadas timbradas de notas irreconhecíveis – revelação de que a emocionalidade de um som não se prende a uma partitura.

Peter Bitenc é o músico que acompanha implacavelmente todos os outros. Aquando das suas paragens, era difícil apanhá-lo desatento perante a interpretação dos restantes membros. Contudo, não se pode deixar de louvar o seu contributo. Bitenc é o instrumentista mais discreto e, no entanto, o que cumpre na totalidade o papel de elo de ligação entre o grupo. É o contrabaixo que, de forma circunspecta, dá a ordem do ritmo e da velocidade.

Contrariamente a Peter Bitenc, o trompete de Nate Wooley surdiu em momentos exactos, impregnando a força que um instrumento de sopro como o trompete tem. Foi, sem dúvida, o instrumento em que mais se contemplou a base sólida que acompanha e determina o carácter orbital descrito em torno da improvisação. A experiência individual do trompetista, que se insere nas correntes do pós-bop, acaba por ser essencial no contexto de improviso explorado no quarteto.

O leque de referências e abordagens musicais feitas por cada intérprete dá origem a uma idoneidade explorativa que flutua entre vários dialectos jazzísticos. Assim sendo, as criações concretizadas pelo quarteto acabam por atingir uma amplitude que alterna desde o padrão normalizado até ao delírio mais desenfreado.

A união de quatro línguas distintas principiou este conjunto em meados de 2002. Mais tarde, durante o ano de 2009, houve uma necessidade forte de reinventar o que até então tinha sido elaborado. Foi exactamente em Portugal que tal se sucedeu, principalmente devido ao apoio da editora portuguesa Clean Feed que, segundo Daniel Levin, foi indispensável para a continuidade do quarteto. «A Clean Feed é como um cometa que passa pela nossa atmosfera apenas uma vez num período muito largo de tempo», referiu Daniel Levin em entrevista a Rui Eduardo Paes, editor da revista jazz.pt.

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