Reportagem: Clubbing Optimus Fevereiro – Em bom português, salva-se a noite à moda estrangeira

27Feb11

26 de Fevereiro, Casa da Música, Porto
Texto e fotos de Norberto Lobo por Ana Beatriz Rodrigues/ Fotografia por Mariana Lambertini

Em mais uma noite de Clubbing, a Casa da Música estava, como tem vindo a ser habitual, a rebentar pelas costuras. Num serão que se prolongou, inevitavelmente, pela madrugada, Peter Hook dos Joy Division foi a atracção principal, contudo, a taça foi ganha em português. Mas já lá vamos.

À moda dos bons velhos Can, os Gala Drop foram os primeiros a pisar o principal palco da sala da Avenida da Boavista. Depois do disco homónimo de 2008, o ano passado trouxe-nos Overcoat Heat EP, o segundo trabalho dos lisboetas, que se diga, já mereciam um destaque assim, como a sua actuação de sábado veio demonstrar. Perante uma sala Suggia já quase cheia, durante uma hora, fomos levados perante bons momentos atmosféricos, quase em transe, que os quatro músicos nos proporcionaram. Catalogar a música dos Gala Drop é uma tarefa ingrata, mas, entre samples, piscadelas ao nu-jazz, abraços ao krautrock, beliscões dolentos à electrónica minimal e uma relação prolongada com o rock, já se consegue ficar com uma boa ideia. Impossível, contudo, é não mencionar o excelente trabalho de bateria que Afonso Simões nos proporcionou, qual mestre de um templo onde a energia é dançável e onde o reverb das guitarras de Tiago Miranda se reinventa em momentos de quase bossanova.

Falando em atmosfera, uma rápida incursão à Cibermúsica mostrou-nos uma realidade completamente distinta em termos de audiência (a sala estava quase despida), mas não em termos de sonoridade. No que diz respeito à densidade musical, Massimo Pupilo, baixista dos Zu, compete seriamente com os Gala Drop, perdendo, no entanto, para a secção rítmica dos portugueses. Sem F.M. Einheit, que se encontrava ausente, o italiano e o seu macbook foram marinheiros por águas previamente navegadas por uns Earth na parte mais drone, encontrando-se em terra firme com a electrónica de, por exemplo, Ricardo Villalobos. De ressalvar, o trabalho visual e artístico dos vídeos projectados, quase chocantes, a encaixarem-se, na perfeição, com a música.

Mas o responsável pela enchente da Casa da Música vinha de Manchester e fez parte de uma das bandas do nosso imaginário adolescente: Peter Hook. Não há muito vocabulário que possa dar uma ideia sobre o estado da sala Suggia; talvez, neste caso, as fotos sejam preciosas. Gente, gente, gente: gente em pé, nos corredores laterais, gente nas cadeiras, filas de gente para entrar numa sala esgotadíssima, gente junto ao palco. Hook não nos fez esperar muito, entrando em palco perante uma ovação entusiasta e, como se esperava, deu início a uma actuação debruçada sobre Unknown Pleasures, disco dos Joy Division, editado em 1979. Inicialmente, mais comedido, o público vibrou sentado perante temas como Disorder ou Shadowplay, porém, passado pouco mais de meia-hora, o cenário já era diferente – pequenos focos de mosh, multidão em pé e a dançar um quase-hino geracional, Love Will Tear Us Apart. Os Joy Division são uma das bandas que mais respeito possuem, com temas já entranhados nas mais variadas camadas etárias e, sim, Unknown Pleasures é um disco marcante. Esta é a óbvia explicação do que se passou durante os 90 minutos em que Hook o foi desnudando. Ainda assim, apesar de esta homenagem ir ao encontro da ansiosa vontade dos fãs de entoarem os temas de Joy Division ao vivo, a sensação que ficou foi agridoce. Falta a pujança da bateria e do baixo marcadamente post-punk que encantou os anos 80 e, claramente, em termos vocais e carismáticos, Hook não é Ian Curtis.

Na sala 2, o Carlos Paredes dos nossos tempos, Norberto Lobo, começou a tocar para um plateia quase vazia, o que não impediu um fã de gritar “Que se lixe o Peter Hook, viemos cá para te ver!”. E ainda bem: a música de Norberto é belíssima, tocante, com dedilhados inteligentemente arquitectados e onde se cheiram paisagens urbanas, rurais, ora mais calmas, ora mais apressadas. Com dois discos editados, Mudar de Bina e Pata Lenta, Norberto é um dos músicos mais talentosos da sua geração que, pleonasticamente, mesmo sem palavras, nos deixa sem palavras. Conforme o concerto foi decorrendo, mais gente foi chegando, deparando-se com um espectáculo de cariz intimista, embevido perante um homem e a sua guitarra, quase a meia-luz, quase em silêncio, e não quase, mas, totalmente, em perfeição.

Advertisements


2 Responses to “Reportagem: Clubbing Optimus Fevereiro – Em bom português, salva-se a noite à moda estrangeira”


  1. 1 Peter Hook lança um novo EP com um inédito de Joy Division « Ponto Alternativo
  2. 2 Nem os vemos chegar: Zu no Milhões de Festa « Ponto Alternativo

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s


%d bloggers like this: