Concertos: Palavras Desencarnadas 3 / Ciclo Granular @ Teatro Maria Matos

25Feb11

22, 23 e 24 de Fevereiro, Teatro Maria Matos, Lisboa
Escrito por António Matos Silva

Concordemos desde já num princípio: a obra de arte nunca, em caso algum, se encerra em si mesma. Falemos de um quadro, uma canção, um texto ou uma simples palavra. Pensemos por exemplo na música e no texto, que desde a música litúrgica do século XVI até à folk de protesto de Bob Dylan andam constantemente de mãos dadas. Tanto a música como o texto seriam capazes de sobreviver por si mesmas individualmente, mas ambas se relacionam para darem significado e contexto mútuo.

Mas pensemos agora, por exemplo, em Beckett. Talvez o bom do Samuel tivesse em mente sons, ruídos distantes, enquanto escrevia. Ou talvez não. Então porque não enquadrar essas palavras deslocadas de som… com o som? Ou façamos o exercício oposto e pensems em John Cage no expoente máximo do ruído, sem palavras audíveis, e apliquemos-lhe palavras, inscrevamos-lhe um texto. Todo este exercício de contextualização, de realinhamento, é saudável. Mais não seja pelo sentido mais dramático e performativo que se gera em torno da palavra e do som: um ou outro irá sempre sair mais agravado, mais forte e pesado, mais relevado. Porque quando a palavra rodeia o som, ou o som a palavra, ou algo se intensifica ou um deles se torna obsoleto. Mas lembrem-se: primitivamente, ambos têm origem no ruído. E funcionam para evitar o (nosso) silêncio.

Carlos ‘Zíngaro’ – mestre com a veterania na ponta dos dedos e a destreza de quem não envelheceu, a debitar ruído improvisado, manipulado para a voz de Inês Nogueira – actriz, cantora de jazz, na primeira noite do Ciclo Granular declamadora das palavras de Mário Dionísio. Música e palavras que não foram simbioticamente criadas, mas que com mestria foram arranjadas uma para a outra, posteriormente. A exploração sonora de Carlos ‘Zíngaro’ assentou no ruído industrial, sempre abrasador e entrópico, muitas vezes complementado com o seu violino, a roçar o free-jazz, em óbvia exploração. E a contrastar com a maquinaria pesada, quasi-industrial, estava Inês Nogueira. «Não é o que se diz, é como se diz» e Inês Nogueira nunca disse uma palavra da mesma forma: ora lento, ora rápido, ora de forma sentida, apegada à vida, ora fria, maquinal. Mas a palavra viveu, ganhou espectro e transformou-se. O exercício de desconstrução estava em pleno: fosse nas normas musicais – que, em bom rigor, não existem. Ou se existem, não deviam, pois as normas na música são, por favor!, para serem desrespeitadas, violadas e abusadas. Desde que saibam como o fazem -, fosse nas normas de leitura. Absolutamente formidável, o sentido que se pode dar à música e à palavra, reinventado o seu contexto e significado.

Reinvenção. Se há pessoa que sabe o que é reinventar é Médéric Collignon. Seja a reinventar Miles Davis (como já o fez), seja a reinventar o corpo humano e o seu uso como instrumento, seja a reinventar o trompete ao som do free-jazz e o free-jazz ao som do trompete. Um gigantesco ‘mas que raio estás para aí a dizer?’, eu sei. Mas falta-me habilidade para descrever a performance deste francês. Para se ter uma ideia, ouviu-se canto tibetano (aquele que os Huun Tun Tur celebrizaram) enquanto se tocava trompete. Sim, ao mesmo tempo. Haja capacidade mutante para esta pequena habilidade, que foi uma pequena amostra da beatbox inumana que Médéric é na realidade. Aquilo que este notável cidadão da pátria gaulesa fazia quando pousava o trompete de bolso era verdadeira exploração dos limites não só musicais, mas também humanos. Vamos cá ver: na beatbox de Médéric ouvia-se canto tibetano, grunhidos à la Jay Hawkins, mantras tântricos e tiques de soprano. Ainda hoje, com a devida distância não sei bem o que se passou ali, mas foi espantoso. E desafio qualquer regra, convenção ou norma. E ainda bem.

Foi a ter em conta a parceria «texto-palavra» que Carlos Santos entrou em cena no segundo dia. O português que pensa o som com uma perspectiva visual (percebeu-se isso nas suas projecções e também nas field recordings, que evocavam tanto o espírito urbano dos prédios em que ouvimos as canalizações, como uma fábrica abandonada e enferrujada), veio dar novo contexto a Samuel Beckett. As palavras estavam lá, bem entoadas. Mas a distorção, o ruído demasiado monocromático, criou um fosso demasiado alargado entre a palavra – que estava já viva – e o som. Não quero aqui assumir que sei o que Carlos Santos tinha em mente, não me cabe isso, apenas posso pesar a forma como me afectou. E a ideia de realinhamento foi realmente conseguida. Mas faltou algum espectro emocional, uma ligação entre som e palavra. Mas se a ideia era criar um contraste claro entre palavra e texto, a ideia foi conseguida.

Com metade da noite cumprida, faltava subir ao palco outra retratista: Frances-Marie, holandesa, violoncelista, virtuosa. «É assim que o amor funciona. É assim que o amor soa». Era com estas duas frases que se dirigia e dava início à sua actuação. E que actuação! Os quadros pintados a violoncelo eram complexos e pormenorizados, mas quentes e inteligíveis no seu todo. É verdade que manipular um instrumento sem trastes abre muito mais a panóplia de sons e, consequentemente, de sentimentos, mas fazê-lo com aquele virtuosismo sem se desligar da componente mais humana, é obra. «É assim que o amor funciona», dizia calmamente, enquanto empunhava dois arcos (dois!) e os usava ao mesmo tempo. O resultado espalhava-se pela sala, drónico e dissonante, mas com um efeito estranhamente mesmerizante.

Se no final do segundo-dia consegui voltar para casa embalado e embrenhado em mim mesmo, no terceiro dia isso não aconteceu. A performance de Ute Wasserman foi largamente vanguardista. Com uma escola claramente alemã, a vocalista exibiu os dotes de uma glote bem controlada, mas com menos capacidade de chegar ao público do que Médéric Collignon, por exemplo. Depois de três peças de solos vocais – a primeira totalmente a solo (com ambientes selvagens), a segunda em duelo/interpretação de estática (bem mais industrial) e a terceira com um microfone bocal (de longe a que teve mais potencial e impacto) -, Ute apresentou o resultado de um workshop com alunos portugueses: um coro.

Claro que a convencionalidade não fez parte do léxico deste grupo. Depois de termos visto uma interpretação de ruído do demónio, uma emulação da artificialidade, o que esperar? Um conjunto selvagem, em pleno primitivismo, mas que procurou expressar evolução, comportamentos e cenas do quotidiano. Por vezes em desafio, por vezes em congregação, reflectiu-se no coro o trabalho de Ute, principalmente na predilecção por ambientes que faziam lembrar uma selva, bem complementados com atitudes de desafio quase rituais e tribalistas. Mas quando o coro funcionava em conjunto, funcionava bem melhor: quase a recitar mantras, atingiram um nível de mesmerização bastante razoável e deram uma toada bem humana à noite.

O homem, o combatente do silêncio, o criador de palavras e sons, o alinhador de texto e do ruído. Saluta-se o trabalho da Granular: valeram a pena estas três noites, vanguardistas, exploratórias… Como lhe quiserem chamar. Mas fica uma certeza: a obra de arte não se esgota em si mesma. E o corpo humano também não. E fica-me no pensamento uma ideia: porque não apostar, numa edição futura, em nomes mais extremados, como o norueguês Zweizz, ou Black Pus, o projecto noise de Brian Chippendale?

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