Concerto: John Cale @ Teatro Aveirense

23Feb11

20 de Fevereiro, Teatro Aveirense, Aveiro
Texto por João Sardo

De pedra e Cale


John Cale chega-nos a Portugal nos seus imaculados “69“.
É um número repleto de lembranças se fizermos alguns exercícios de aproximação ao passado distante na aurora de uma geração que foi a sua e a de muitos dos nossos pais.
Eis que me lembro, sem dificuldade, da francófona “69 Année Érotique” pela mão da pop aveludada “gama” Serge Gainsbourg (neste capítulo da poligamia, em companhia da sua consorte Jane Birkin) que poderia perfeitamente, pelo nome da faixa em questão, assumir-se como a pia baptismal para o universo de muitos dos artistas daquela época.

69” é também o ano em que Cale deixa de coabitar os “seus” Velvet Underground depois de lhes ter legado (aos VU, aos EUA e ao rock, para a eternidade) tudo aquilo que um galês estudioso, curioso e criativo poderia legar. Um passo (muito) à frente ou aquilo que uns, de forma inusitada, optaram por chamar de “rock de vanguarda” e outros de “rock experimental”.

Para servir de exemplo das suas capacidades como indivíduo que escorre ecletismo e o talento trabalhado com o mestre John Cage, Cale, para além de músico em nome colectivo com os VU chegou, inclusivamente, a colaborar nas composições do malogrado Nick Drake.
Só estando satisfeito onde não estava e só querendo ir onde não ia, aventurou-se herculeamente no mundo da produção com nomes tão redondos como os Stooges, de Iggy Pop ou no álbum-mãe do punk seminal. Refiro-me, claro está, ao inestimável Horses, de Patti Smith.

Alguns mais, ainda naquela Nova Iorque, viriam a acarinhá-lo, sublimando as tendências 10 e 15 anos mais tarde. Refiro-me, respectivamente, à No Wave (ou à New Wave, se quisermos ser um pouco mais europeus) de uns Television e de uns DNA mas também a Glenn Branca e seus voluntariosos discípulos, uns tais de Sonic Youth, apostados que estavam em fazer novo uso do seu sangue na guelra, ou seja, dos seus pedais de guitarra.

Sim é isso mesmo. O indie rock.

Está mais que visto, pois, que os VU não são bicicleta pequena e que John Cale, o dínamo que lhe conferiu a luz necessária para tanto passeio nocturno, nunca “teria que ter” deixado mal o seu condutor, um tal de Lou Reed.

Bicicleta por estimar, empena.  Foi pena. Não há condutor que a conduza sem luz nem há dínamo que justifique a sua razão de ser sem a “restante” pedalada.
Diriam, pois, Cale e Reed todos os dias, ao acordar: “espelho meu, espelho meu, haverá VU maior do que eu?”

Poderíamos continuar a generalizar e a desconstruir de mil-e-uma mais formas este que é o maior dos ramos (ou deverei dizer tronco?) dos arqui-inimigos figadais de muitos dos amantes do hard rock e de toda a sua vasta prole, nomeadamente nos anos 70 e, em particular, nos anos 80.
Os Velvet Underground posicionam-se, para gáudio de muitos dos seus seguidores, como o Diabo daqueles que gostam de ter tudo no sítio e demasiadamente bem afinado. Os seus demónios gravitantes, já os referimos aí em cima, embora haja sempre muitos mais para contar.

Avanti.

Confirmámos, em Aveiro, que John Cale não perdeu o seu british accent o que também significa que nunca quis escamotear (e ainda bem) em suas composições, a sua Europa de berço.
Desenganem-se aqueles arautos da sofisticação que pensam aquilo que, infelizmente, se constata tantas vezes na terceira-idade-da-música: o acomodamento.
John Cale
tem saúde, continua em grande forma e dispõe de rara lucidez para quem tantas décadas atravessou, por tanto passou e que, uma vez havia dito até que todas aquelas drogas fizeram todo o sentido para se poder continuar a criar.

Cale chegou-nos acompanhado, comme il faut, do tradicional  quarteto rock (bateria, baixo, guitarra eléctrica e voz), sendo que se encarregou das teclas, da sua companheira de guerra “eléctrica” –  nos temas mais rasgadinhos –  e, obviamente, da sua deliciosa e empedernida voz.
Bem se sabe que Cale não é um “vocalista” de se lhe lançar loas, portanto, e como é apanágio da sua obra, é no processo lírico e instrumental que reside a sua genialidade, bem expressa na subtileza das sonoridades que escolhe para os seus instrumentos mas também do uso tão próprio e único que lhes empresta.
Todos os músicos que o acompanham (juniores, ao pé de si) terão sido escolhidos a dedo e são fenomenais.
Não querendo correr o risco de inscrever injusta negligência em relação aos restantes executantes, gostaria de destacar o baterista.
Quem lá esteve, sabe o que quero dizer.

O desfilar de temas apresentados no Aveirense, representa as três grandes facetas de JC: uma mais experimental (o tremendo tema de abertura – Heartbreak Hotel mas também Pablo Picasso – uma extensa nortada sonora antes de pausar para o encore); uma outra, distinta,“pop-de-contornos-épicos” (a emocionada e epidérmica Chorale – o único tema que constituiu o encore, encerrando o concerto a capella com as quatro vozes presentes em palco; e a intimíssima Amsterdam, dessa obra prima que é “Vintage Violence”); mas também, finalmente, uma face mais rusty, rock ´n´roll (Walking the Dog ou a sugestiva Dirty Ass Rock´n´Roll).

No fundo, uma viagem por terrenos mais antigos, tais como, “Vintage Violence” (1970), “Slow Dazzle” (1975) (estes último, gravado na companhia de outros dois enormes: Brian Eno e Phil Manzanera), ou aindaElen of Troy” (1975) – neste capítulo de vida com uma formação, a todos os títulos irrepetível, já sem Manzanera mas com o mesmo Eno e, imagine-se, Phill Collins, como baterista de serviço.
Por outro lado, não descurando o seu passado recente, o bilhete de ida também incluiu-nos em algumas das “novas-vidas” de Cale, casos de “HoboSapiens” (2003) e “Black Acetate” (2005).
O único grande amargo de boca fica-nos por não termos sido banqueteados com nenhum dos temas desse requintado exercício pop que é “Paris 1919” (1973).

Foi tão bonito ter-se celebrado Cale com a casa cheia, plena de várias gerações com sorrisos estampados nas faces (dir-se-ia dos 18 aos 70) e aquela tremenda ovação geral-final com uma plateia rendida, de pé.

Um apontamento, em jeito de curiosidade: Cale, de cabelo multicolor e ao contrário do que costuma acontecer, apareceu-nos, no fim, para autografar, entre outros materiais de culto que a sua plebe comportava, o meu humble ticket .
Assinou tudo, com poucas palavras e parco de sorrisos.
Fomos meticulosamente avisados, pela produção, que não valia a pena expormos o material co-assinado com Lou Reed.
Endless story

Enfim, tudo quanto se pode dizer mais, para rematar, é que Aveiro ainda tresanda a NY por todos os cantos e que nem todos os gigantes, para bem das nossas vidas, estão adormecidos.
É por isso, vos afiancio eu, que é uma responsabilidade impiedosa e danada esta, a de escrever sobre figuras históricas.

É caso para dizer: se tentas aos sessentas, mereces os noventas.
Mereces tanto.
E tanto é tudo aquilo que já temos de Ti para mostrar aos nossos, os que aí vêm e que não vais conhecer.

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