Concerto: Peter Evans @ ZDB

20Feb11

18 de Fevereiro, Galeria Zé dos Bois, Lisboa
Texto por Regina Morais / Fotografia por Vera Marmelo

Peter Evans é um libertino do jazz contemporâneo. Ele não faz dos academismos o seu ponto de partida, pelo contrário. Faz da inovação, do desvendar incessante do instrumento (trompete) e do slogan «impossible is nothing» a base para as suas performances. Se existe uma linha contínua de notas, uma linha unissonante de acordes, Peter Evans consegue sobrepor-lhe uma ruptura “disfuncional”, revelando o que de tão virtuoso existe na capacidade de improvisar.

Não foi uma noite de vento, frio e chuva que anulou uma visita ao Bairro Alto. Ainda para mais, quando é para ouvir Peter Evans. Poucos não eram os que se encontravam relativamente antes das 23h na Galeria Zé dos Bois, enquanto Evans já aquecia os dedos e exercitava os pulmões fazendo ouvir os primeiros sons de trompete, vindos do seu camarote.     

Com algum atraso, e já com uma plateia totalmente composta, o intérprete subiu ao palco. Foram escassas as palavras antes de iniciar a sua actuação, referindo apenas o concerto dos Mostly Other People do the Killing, quarteto do qual faz parte, este sábado (dia 19 de Fevereiro) na 9ª edição do Portalegre JazzFest. Terminada a breve advertência, Peter Evans deu início à sua interpretação.

Uma coisa é certa, se os humanos fossem caracterizados pelos cinco elementos, Peter Evans seria um homem inteiramente feito de ar. Dotado de uma capacidade extrema de controlar a respiração, Evans conduz o fôlego até onde a vontade o leva. Foi claramente a flexibilidade respiratória que o intérprete nos desvendou nos primeiros momentos de música. Contudo, não foram exclusivamente as razões técnicas que desde logo se destacaram. A criatividade de Peter Evans fez-se ouvir imediatamente.

Evans explora o instrumento sem se deixar abalar por qualquer obstáculo. Demonstra-nos que o improviso não está estritamente relacionado com a ruptura “acórdica”, mas com a liberdade de criar sem que exista um fio concreto, sem que exista um limite para a exploração sonora. Não foi por acaso que, durante a primeira peça que tocou, nos transportou para ambientes diversos. Se num primeiro instante nos fazia lembrar uma guerra sonora de elefantes com milhares de músculos na tromba, logo de seguida a sala foi invadida por uma praga de insectos vindos do Oriente, para acabar no grasnar longínquo de patos selvagens.

A segunda peça tinha um carácter intermitente. Uma continuidade interrompida por outras continuidades consequentemente interrompidas. Um verdadeiro jogo em que os próprios dedos serviam como uma espécie de instrumento, fazendo batuques percussivos no trompete. Se no início a peça era marcadamente rápida e desconcertante, foi claro o seu caminho para um limiar mais brando.

Engane-se quem pensar que o imaginário de Peter Evans não pode voar ainda mais alto. No terceiro momento, Evans levou-nos numa viagem de avioneta e, logo de seguida, num passeio de lancha através do som. Incrível é a palavra certa para traduzir as quimeras sonoras criadas pelo trompetista. Da mesma forma, deixou marcada a sua relação com o instrumento e o à vontade que tem ao contracenar com ele. Peter Evans não toca trompete. É mais do que tocar, mais do que fazer ouvir camadas sonantes que nos transportam de um local para outro. Existe uma entrega que só os adeptos confiança, do estudo e principalmente da inteligência são capazes de fazer.

Na última peça, Peter Evans voltou parcialmente ao registo da primeira música, revelando um pouco mais dos aspectos técnicos que o conduzem. Apesar de alguma repetição nos acordes, não deixou de evidenciar algo novo: de que pode igualmente inserir-se num quadro canónico.

Fortemente aplaudido no final da sua actuação, o trompetista teve que voltar ao palco para um encore. Contudo, um único não foi suficiente para que os aplausos cessassem. Seria pela vontade de ouvir Peter Evans noite fora ou o facto de o concerto não ter chegado à uma hora de duração, o que é certo é que a plateia hesitou mais do que uma vez em levantar-se e dar como terminada uma interpretação sem igual.

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