Concerto: José Mário Branco @ Teatro Rivoli

19Feb11

18 de Fevereiro, Teatro Rivoli, Porto
Texto por Emanuel Pereira / Fotografia por Ana Beatriz Rodrigues

O tempo, esse grande escultor, dizia Marguerite Yourcenar. Abrigados da copiosa chuva que se abatia incessavelmente sobre a milenar cidade do Porto, os que se reuniram no Rivoli sentiram novamente o cheiro a Abril – um aroma nostálgico, de fulgor revigorado, pronto a rejuvenescer aquilo que conspurcou.
Sozinho, mas transportando consigo toda a efervescência das manhãs de Revolução, José Mário Branco transformou o que a princípio seria um simples concerto num movimento colectivo de inspiração, usando a sua arma favorita: a canção.

Faltavam quinze minutos para as dez da noite e o Teatro Rivoli, pronto a receber a última sessão das Noites do Rivoli, já se encontrava perto da lotação máxima. José Mário Branco entrou, cumprimentou gestualmente os presentes enquanto recebia um forte aplauso, sentou-se num banco de madeira, pegou na viola e deu início a um espectáculo que se estenderia pelas próximas duas horas.À sua volta, em palco, apenas umas luzes amarelas – companheiras suficientes para todo o espectáculo – que irrompiam o breu. “Imaginem que eu me levantava e dava um abraço a cada um”, disse ele, depois de afirmar que era bom voltar a casa.

O Charlatão foi o primeiro momento alto da actuação. Acompanhada com palmas a compasso, a música ganhou ainda um novo ímpeto quando José Mário decidiu versar sobre o Caso BPN e o Caso Freeport: “vamos lá, que isto aqui ainda não é o Médio Oriente!”, ironizou.

A sátira, a boa sátira, foi uma constante ao longo do serão. De uma capacidade crítica mordaz, mas bem-disposta, José Mário colocou a plateia a gargalhar por mais de que uma vez. A Menina dos Meus Olhos, dona de uma letra frívola para com a torrente informativa dos nossos dias, foi exemplo disso: impossível não sorrir quando menciona a “opinião pública dos urinóis” ou quando diz que “para manter a sanidade tenha até de cegar.”.

Entre espaços e entre canções, foi homenageando também os membros do seu próprio Comité Central: de Ruy Belo, de quem entoou um soneto, a Antero de Quental, vários foram os vultos e várias foram as histórias mencionadas. Fado da Tristeza (canção que, segundo o autor, lhe valeu várias críticas, pois um portuense marxista-leninista deveria, naquela altura, evitar falar sobre tristeza e sobre um dos três “F”: fado, futebol e Fátima), Casa Comigo Marta e Tiro-No-Liro mantiveram os presentes embevecidos com uma obra musical que é, em simultâneo, magnânima e detentora de uma simplicidade única. A emocionante Queixa das Almas Jovens Censuradas colocou o Rivoli a recitar de cor a poesia de Natália Correia. José Mário Branco, no final da canção, frisou que só mesmo um poeta seria capaz de fazer com que versos escritos nos anos 60 perdurassem até hoje, mantendo-se válidos e adequados a 2011.

Já depois de Inquietação, chegou Vim de Longe. Saudada aos primeiros acordes, José Mário usou esta música para colocar toda a sala em posição revolucionária. “Vamos para a Praça Tahrir, eles é que estão a dar o exemplo, camaradas! Vamos para a Tunísia! Vamos acabar com esta merda toda!”, disse, enquanto a plateia respondia com “Vamos!”. Depois de quase dez minutos de ímpeto avassalador, a sala respondeu com um estrondoso aplauso de pé, enquanto José Mário pousava a guitarra e saía de palco, agradecendo a todos.

Voltou para dois encores, onde não só não esqueceu como homenageou Isabel Alves Costa, ex-directora artística do Rivoli, que faleceu em 2009. O concerto encerrou, já perto da meia-noite, somente com a voz e poesia de José Mário Branco, sem auxílio da guitarra: Os Meninos de Amanhã serviu de corolário para a actuação, relembrando o esforço e a entrega de todos aqueles que fizeram parte do movimento de Abril, contrastando com a “gente virada para trás, gente que vive do menos mal e do tanto faz”. O FMI? “Esse fica para os outros”, disse.

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