Antichthon em entrevista: “O complicado não é introduzir uma música nova em concerto, mas sim acabá-la sem contexto lírico”

16Feb11

Texto por André Forte

Os Antichthon parecem ter começado há pouco tempo, dada a juventude dos seus membros e o facto de ainda não ressoarem nas nossas paredes cranianas como uma malha de Dimmu Borgir, mas acabam por ser uma das bandas mais sólidas da cidade de Coimbra e com um trilho vistoso ainda por pisar. O seu metal sinfónico ainda não se fez ouvir devidamente, mas já conta com um álbum lançado em edição de autor digno de atenção suficiente para puxar o PA até a uma conversa de café sobre o já longo percurso da banda.

No já habitual TAGV da cidade dos estudantes, o PA reuniu-se com o Alex e o Diogo, vocalista e guitarrista do quarteto conimbricense, respectivamente, à volta de uma mesa com tostas e refrescos para discutir assuntos não tão ligeiros, como a música dos Antichthon, a curiosa história de uma banda de metal técnico que começou entre as 14 e 15 primaveras dos seus membros, que agora estão todos no Ensino Superior, e as narrativas que encerram nas suas composições.       

Vocês começaram a banda de uma forma muito curiosa. Como, exactamente?

Diogo: Eu e o João conhecemo-nos desde os sete, oito anos. Sempre fomos vizinhos e sempre tivemos uma proximidade muito grande. Sempre gostámos das mesmas coisas e sempre participámos nas mesmas actividades.

Alex: Já eu, o Bruno (baixista) e o João éramos colegas na escola primária, e eu conheci o Diogo numa festa de anos da segunda classe.

Diogo: A partir de certa altura, o João começou a ir a casa do Alex, a dar-se mais com ele e com o Bruno, e a ouvir metal, coisa que me era desconhecida. Lembro-me que ele me mostrou uma música qualquer de que eu gostei imenso; aí sugeriu-me ir com ele, ter com o Alex e com o Bruno. Ficámos amigos, começámos a sair juntos, a gostar das mesmas bandas, até que surgiu uma enorme vontade de criar um projecto no género do que ouvíamos em comum.

E vocês sabiam tocar algum instrumento?

Alex: O João já tocava bateria desde pequeno. De resto, a nossa formação musical era o básico, que se aprendia na escola, com flauta, etc.

Diogo: O João e o Alex é que estabeleceram que papéis íamos ocupar: o João ficava na bateria porque já sabia tocar, o Bruno e o Diogo nas guitarras, e o Alex no baixo. Mas depois o Alex decidiu que ia para a guitarra.

Alex: As letras ficaram para mim, sendo o único gajo das humanidades e o que sempre teve apetência para contar estórias, e como me tinham dito que era mais simples tocar guitarra e fazer vozes, foi uma opção natural. Entretanto, o Diogo já tinha comprado a guitarra e ficou o papel do baixista para o Bruno, que está muito satisfeito com o seu instrumento.

Cada um de vocês foi aprender o instrumento do início para fazer a banda?

Diogo: Sim, e é realmente curioso como resultou. Ninguém sabia tocar e houve um esforço colectivo para aprender. Foram três pessoas a dedicar-se a um instrumento para chegar a algum lado. O próprio João, apesar da curiosidade que sempre sentiu por outros instrumentos e da facilidade que sempre teve para aprender, também teve aulas para consolidar o que sabia e para aprender a compor.

Vocês começaram a ensaiar e a tocar com que idade, então?

Diogo: Nos primeiros ensaios eu tinha catorze anos e eles todos tinham quinze. Mas eu nem levava a guitarra. Esses ensaios consistiam no João a tocar bateria e o Alex a cantar por cima de músicas de outras bandas. Era algo mesmo muito primitivo.

Quando é que começaram a compor?

Diogo: Começámos quando o João arranjou uns softwares sequenciadores que davam para criar músicas com uma qualidade um bocado ranhosa. Mas lembro-me, porque realmente me marcou, de um natal e passagem de ano em que nós estávamos de férias e eu me reuni com o João, que começou a treinar guitarra eléctrica, quase todos os dias para treinar e compor as nossas primeiras músicas. Começámos a enviar tabulaturas ao Bruno e as músicas ao Alex para ele escrever as letras e mais tarde nos reunirmos na garagem dos avós do João para tocar tudo.

Actualmente, ainda são tu e o João que compõem as músicas todas, incluindo o baixo?

Diogo: Inicialmente, o João programava o baixo e ensinava-o ao Bruno. Entretanto, já no fim da composição deste álbum, ele tornou-se um baixista excelente, mais do que capacitado para escrever o que toca, na minha opinião. Mas, essencialmente, quem compõe as músicas somos eu e o João. Depois enviamos as músicas ao Alex, que assegura toda a parte conceptual e lírica, e ao Bruno, para compor os baixos.

Alex: E as orquestrações são fundamentalmente feitas pelo João.

Vocês inicialmente não tinham fechado o alinhamento da banda. Ainda andam à procura de um teclista?

Diogo: Já não. Mas é preciso sublinhar que naquela altura nós tínhamos mesmo a ideia fechada na cabeça de termos um teclista porque as nossas bandas preferidas tinham todas um e os próprios teclados que nós tínhamos eram um pouco lineares, não tinham a complexidade que este álbum tem. Mas já são tantos anos e tantas experiências que nós os quatro já nos tornámos o núcleo duro da banda; chegámos à conclusão que não podíamos estar mais a empatar e decidimos todos fazer um investimento num sampler. O que começámos a compor a partir daí já não podia ser tocado por um teclista sem material de topo e mesmo sem samples por trás, porque são peças impossíveis de tocar só com duas mãos.

Já trocaram de guitarrista, uma vez, estou certo?

Alex: Inicialmente, seria eu a fazer a voz e a segunda guitarra, mas dada complexidade da coisa, tive de desistir dessa ideia. O Pedro Barros foi o nosso segundo guitarrista durante algum tempo, mas teve de sair por razões de trabalho e entrou o Gustavo, que tem o seu projecto, uma banda muito fixe. Mas ele próprio diz que é um membro ao vivo de Antichthon.

Diogo: É um bocado complicado para nós, devido à nossa história enquanto banda, incorporar outra pessoa como membro efectivo. O nosso processo de composição já está tão bem delineado e funciona tão bem que incluir mais uma peça na engrenagem não ia fazer nada andar mais rápido ou melhor. Se calhar, ia atrapalhar, de modo que decidimos não incluir outras pessoas na composição.

Agora o sampler já tem o vosso carinho, já é o quinto membro da banda?

Alex: Ele teve direito a um carinho imenso desde o momento em que chegou, porque foi um investimento bem dispendioso para as nossas capacidades financeiras. (risos)

Diogo: Para uma banda como nós, o sampler é uma situação indispensável. Nós compomos as coisas de uma maneira, mas qualquer músico que interprete vai adicionar o seu cariz pessoal à música, e de certo modo isso acaba por “estragar” o que originalmente escrevemos. Neste momento, para nós é o mais fiável.

“As letras são indispensáveis à composição da nossa música e substantivas na classificação do black metal”

O vosso nome, de onde é que surge?

Alex: De uma teoria de Filolaus, um filósofo grego pré-socrático. Eu já planeava dar um conceito às músicas desde o momento em que se falou de fazer uma banda. O nome Antichthon pareceu-me indicado para isso, porque é uma corrente que diz ser necessária a existência de uma contra-terra, no ponto exactamente oposto ao do nosso planeta, para que o mundo e até o movimento – o Filolaus acreditava que a terra se movimentava de alguma forma – da terra sejam equilibrados.

Antichthon é um conceito que vocês utilizam em que medida?

Alex: A ideia de Antichthon é completamente incerta e o real impacto que esta teoria teve está nas histórias que dela surgiram, muitas relacionadas com religião. Dizia-se que o panteão dos deuses se localizava em Antichthon, da mesma forma que se dizia existir lá bestas macabras e megeras de todo o tipo, e isso permite-nos contar estórias sobre mundos diferentes.

Há alguma temática subjacente ao vosso álbum de estreia, Through the Rupture of Dimensions?

Alex: É uma estória reminiscente das epopeias gregas. O meu objectivo era, realmente, contar uma narrativa épica, por isso, influenciei-me em autores como Camões e Tolkien. Centra-se num herói que enfrenta as vicissitudes do destino e chama-se Through the Rupture of Dimensions porque o herói, neste capítulo, passa por vários mundos complemente diferentes dentro do multiverso de Antichthon. O título deste registo é recolhido da música central do álbum, que representa a passagem do protagonista por dois mundos opostos.

Diogo: Este primeiro álbum ainda é o primeiro capítulo. Em princípio, esta estória em particular vai ser uma trilogia. O segundo álbum será o próximo capítulo e o terceiro o final.

Qual é o peso que vocês dão às letras?

Diogo: Nós inicialmente fazíamos as músicas e só depois é que a mostrávamos ao Alex para que ele fizesse as letras. Mas a meio da composição deste primeiro álbum tivemos de mudar o processo. As letras, neste momento, são de extrema importância. São indispensáveis à composição da música, porque não faria sentido continuar o conceito do álbum sem ter uma base lírica.

Alex: Eu dedico-me ao máximo para fazer um bom trabalho nas letras. A parte lírica tem um significado muito importante para mim, especialmente no black metal; até digo que são substantivas na classificação do género.

Vocês não compõem sem uma ideia sobre o que vão fazer, mesmo sem sendo a letra? De que forma é que isso afecta a vossa composição?

Diogo: Sim, trabalhamos com algum contexto, nem que seja uma ideia geral. Mas só com mais de metade do álbum escrito é que começámos a ter as letras mais em conta. A penúltima música, The Evil Rising, surgiu quando eu já tinha começado a compor uma música para finalizar o álbum; o Alex já estava um bocado à frente na estória e percebemos que a música não transmitia o mesmo que letra. Essa foi a primeira vez que eu e o João, enquanto compositores, nos apercebemos de que é muito mais fácil escrever uma música com base num conceito do que sem ter nenhuma ideia em mente. Essa música teve uma composição quase imediata, e apesar de ser, talvez, a mais simples, é também a mais forte e mais directa.

Em concerto, vocês dão mais importância ao impacto que as músicas têm ao vivo, ou à narrativa que construíram inicialmente?

Diogo: Nos concertos de apresentação do álbum temos uma obrigação de tocar o alinhamento do Through the Rupture of Dimensions. Até utilizamos uma pista única com as transições instrumentais, coisa que não existe nos outros concertos. São actuações únicas em que tocamos o álbum do princípio ao fim, sem qualquer tipo de interrupção. E, claro, também usamos isso como forma de atrair o máximo possível de pessoas que estejam interessadas na banda a esses concertos de apresentação, porque são realmente mais exclusivos.

Alex: É importante que o ouvinte reconheça o que ouviu no álbum, quando vê um concerto de apresentação, daí manter a ordem ortodoxa das músicas. Agora, nos concertos ditos normais, trocamos as músicas e fazemos uma setlist que tenha o impacto máximo.

Vocês teriam problemas em tocar uma música nova durante um concerto normal, nesse caso?

Diogo: Para nós não faz grande sentido estar a tocar músicas novas enquanto não tivermos o outro trabalho todo finalizado. Até podíamos acabar uma música instrumental, mas a nível lírico estaria inacabada. Qual é o contexto que a música teria numa estória mais abrangente como aquela em que estamos agora a trabalhar? O complicado não é introduzir uma música nova em concerto, mas sim acabá-la.

Sexta-feira (dia 18) vai ser o vosso último concerto antes de regressarem ao estúdio. Como é que vai ser o setlist, já agora? E têm alguma coisa especial preparada?

Diogo: O setlist de dia 18 será o set exclusivo das datas de apresentação do álbum. E, sim, preparámos um momento especial, que será a nossa versão de uma música de uma banda de black metal sinfónica extremamente emblemática da década de 90!

“Sempre achámos que para expandir Antichthon da maneira que nós queremos é necessária uma editora estrangeira”

Through the Rupture of Dimensions foi o vosso primeiro registo?

Diogo: Foi o nosso primeiro lançamento, mas antes de começarmos sequer a fazer este álbum já tínhamos músicas suficientes para fazer uma demo. Apesar de terem validade, de terem qualidade, que para nós é necessária, não tinham coesão. As músicas soavam muito diferentes entre si e para nós isso não resultava. Então, decidimos por unanimidade que nos íamos concentrar num registo que fosse coerente e coeso.

Alex: Para um álbum de conceito, isso é algo muito importante, até porque todos nós queríamos incorporar músicas instrumentais no álbum. A melhor solução para todos esses males foi um álbum de longa-duração, em que há espaço para tudo.

Como é que foi o processo de gravação e de produção?

Diogo: O nosso processo tem uma parte inicial de pré-produção, em que compomos tudo e as músicas são um esboço do que se ouve no produto final. Possibilita-nos apagar aqui, mudar ali, e estar sempre a actualizar sem pagar nada por isso. É um método com o qual nós nos sentimos mais descontraídos, sem pressões externas. A fase seguinte já passa pelos retoques finais, uma alteração do nome da música aqui, das letras ali, uma passagem instrumental acolá, e depois vem o estúdio.

E como foi essa passagem pelo estúdio?

Diogo: Nós não tínhamos nem meios financeiros, nem logísticos para gravar num estúdio de topo. Vimos várias opções e a que nos foi mais viável foi no homestudio do nosso professor de guitarra, que se ofereceu para nos gravar o álbum.

Ficaram satisfeitos com o resultado final?

Diogo: O objectivo de lançar o álbum era mostrar a banda e começar a expandir o conceito de Antichthon. Este foi um álbum que, como todos os primeiros registos de todas as bandas, foi complicado pôr cá para fora. É o primeiro trabalho, as pessoas são inexperientes e não conhecem toda a burocracia que é necessária para lançar um álbum. Para nós, gravar num homestudio já foi muito bom, porque não havia sítio nenhum para gravar baterias que estivesse adequado às nossas capacidades financeiras. A qualidade de som não se compara com o que ouvimos normalmente, mas ficámos satisfeitos pelo facto de conseguirmos finalmente lançar este registo, e essa satisfação bate o facto de não estar com uma produção excelente.

Vocês optaram por lançar o álbum numa edição de autor. Porquê?

Diogo: Já tínhamos algumas propostas a nível nacional, mas nenhuma nos conseguia oferecer nada que nós não conseguíssemos atingir sozinhos com algum tempo e trabalho a sério. Nós não vivemos da música, vivemos um bocado para a música, para a banda e damos muito de nós a este projecto. Sempre achámos que para expandir Antichthon da maneira que nós queremos é necessária uma editora estrangeira, por isso decidimos não nos prender a nada a nível nacional e, para não perdermos mais tempo, visto que ainda passaram alguns anos com isto tudo, optámos pela edição de autor.

Terem editado o álbum até funcionou como incentivo para fazerem coisas novas, então?

Diogo: Nunca se extinguiu a vontade criativa. Mas esteve muito fraca, porque, mesmo que fizéssemos músicas e riffs, não valia a pena avançar. O álbum ia demorar a ser editado, e quando saísse já estaríamos numa onda diferente. Isso prejudicou-nos. Tem de se pôr as coisas para trás. É preciso não ter preocupações durante o processo de composição, estar-se calmo e completamente concentrado.

Alex: Nós estávamos ainda tão agarrados a este álbum que não podíamos progredir devidamente. Entretanto, a nossa forma de compor já evoluiu. As novas músicas, do que já tem sido feito, estão distintas das do primeiro álbum, nomeadamente as orquestrações. Agora que o Through the Rupture of Dimensions já foi lançado podemos pegar nos instrumentos e trabalhar seriamente num álbum ainda melhor. Já não estamos mais presos a este.

Como é que tem sido o feedback que têm recebido do álbum?

Alex: Até agora, tem sido muito bom. Ainda estou para encontrar uma crítica relativamente negativa ao álbum. Até agora ainda não encontrei nenhuma falha notória que tenha sido denunciada. As pessoas têm gostado e teve um impacto considerável na internet.

Diogo: Foi algo de que nos admirámos muito, até. Nós decidimos fazer uma edição de apenas 50 cópias, porque a venda de CDs é complicada e um investimento maior da nossa parte não teria retorno. Apesar de o formato digital ser muito importante, nós queríamos conseguir lançar o álbum fisicamente, mas ele surgiu online sem iniciativa nossa. Foi partilhado na net, “ilegalmente”, poucos dias após termos lançado o álbum.

Vocês não ficaram melindrados com isso?

Alex: Pessoalmente, cá pensei “quem foi o malandro que fez isto?”, mas ao deparar-me que o álbum foi ouvido da China ao Alaska, foi falado em blogues de topo o tipo e em línguas que eu não consigo compreender… O visionamento do nosso myspace cresceu quase 500% numa semana.

Diogo: Conseguimos chegar a muito mais pessoas do que com 50 cópias físicas, e esse sempre foi o objectivo.

Quais são os vossos planos para breve, além do concerto de dia 18?

Alex: Terminamos os concertos que tínhamos planeado para promover este CD e iremos concentrar-nos na criação do nosso segundo álbum, da continuação desta estória.

Diogo: Continuar, fazer um novo álbum ainda melhor do que este, superá-lo. Pode não ser muito fácil, porque acho que, para primeiro álbum, este já estabeleceu uma fasquia, mas vamos, obviamente, superá-lo.

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One Response to “Antichthon em entrevista: “O complicado não é introduzir uma música nova em concerto, mas sim acabá-la sem contexto lírico””

  1. 1 João

    Força rapazes!


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