Concerto: Stranded Horse @ Clube Ferroviário

13Feb11

10 de Fevereiro, Clube Ferroviário, Lisboa
Texto por João Torgal


Stranded Horse é o alter-ego de Yann Tambour, singer-songwriter francês que, para além de guitarra, toca kora, uma espécie de harpa africana, construída sobre uma cabaça e do qual é extraído um som verdadeiramente mágico. Esse facto e a colaboração anterior com um dos grandes virtuosos do instrumento, o maliano Ballake Sissoko, afastá-lo-iam, em teoria, do protótipo do escritor de canções chato e banal (os muitos pseudo-cantautores que por aí abundam), mas no concerto de Lisboa só a espaços essa diferença foi notória.

Depois de alguns acertos técnicos, o concerto começou com uma apresentação do músico, em que este destacou a estreia ao vivo em Portugal (com prolongamento nos dias seguintes, com concertos em Coimbra e no Porto) e fez uma breve exposição sobre a kora. De seguida, executou o primeiro tema, em que literalmente tocou em simultâneo os dois instrumentos (uma mão para ambos) e em que a sua voz mostrou um timbre que curiosamente associaríamos muito mais à folk irlandesa. Só com kora, seguiu-se um dos momentos altos do concerto (a par do crescendo de guitarra no último tema antes do encore), um tema em que conseguiu colocar a intensidade na interpretação do instrumento que faltou a grande parte do espectáculo.

Acontece que, a partir daqui, tudo se tornou demasiado monocórdico. Mesmo tendo em conta a inclusão de dois temas em francês e a alternância entre temas com kora e guitarra, não aproveitando grande parte das enormes potencialidades do instrumento africano e usando e abusando de períodos de acordes submissos, quase silenciosos, muito mais aborrecidos do que emotivos. De tal modo que, sensivelmente a meio, houve lugar a uma versão claramente reconhecível de What Difference Does it Make dos The Smiths, mas cujo registo pouco ou nada variou em relação, por exemplo, ao tema imediatamente anterior.

Num concerto assente num registo mais intimista, é difícil avaliar a reacção do público, ainda para mais tendo em conta o tímido pedido de encore, que viria a constar de apenas um tema. Talvez algures entre o entediado e o devoto, mas que levou o músico a elogiar a postura silenciosa e focada na música da maioria da plateia (num dos breves momentos de comunicação com o público, que incluiu ainda uma imprevista interferência do telemóvel de Yann, a que o músico reagiu com sentido de humor). Uma tendência só quebrada pelo barulho do fundo da sala, junto ao bar, o que levou mesmo a organização a fechar umas cortinas de modo a não perturbar o concerto.

Em qualquer dos casos, parece-me objectivo considerar que, numa plateia de cerca de 50 a 60 pessoas, poucos terão sido aqueles que saíram deslumbrados com o que ouviram. Assim sendo, fica a pergunta: perante o reconhecimento de talento na mediania, como é que algo tão, mas tão melhor, como é o projecto Noiserv (ele sim um cantautor de corpo e alma, com uma marca própria), do português David Santos, não tem maior impacto internacional?

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