Concerto: Sei Miguel Unit Core @ ZDB

12Feb11

10 Fevereiro, Galeria Zé dos Bois, Lisboa
Texto por Regina Morais


Sei Miguel não é um compositor. Sei Miguel é um homem do jazz, um trompetista que a cada instante expele a forma, a partícula, o átomo. Debruçado sobre as camadas auditivas que nos transcendem, Sei Miguel não se agarra a uma linha contínua que nos mantém presos nas garras do que chamamos de cultura. Pelo contrário, Sei Miguel procura fugir aos contextos e, indo mais longe ainda, aos pretextos culturais.

De volta à sua casa artística, o intérprete viajará no tempo lançando-se na reexploração do que tem produzido desde o final dos anos 1970. Mensalmente, Sei Miguel trará ao “aquário bairrista” (Galeria Zé dos Bois) as memórias musicais que nunca tiveram direito a uma configuração física até meados dos anos 1990. Cerca de três dezenas de pessoas compunham a plateia que assistiu a Sei Miguel, Fala Mariam e César Burago num dos pisos superiores do edifício da Zé dos Bois. Entre eles, não estavam somente os que desejam descobrir aquilo que Sei Miguel desenvolveu ao longo dos últimos trinta anos, mas também aqueles que podem ver em Sei Miguel uma influência, uma hipótese de confrontar percepções e noções da música que fazem, é o caso de Gabriel Ferrandini e Ernesto Rodrigues, por exemplo.

Antes de dar início a qualquer peça, Sei Miguel não hesitou em falar-nos sobre o que iria ser ouvido durante os seguintes noventa minutos de música interpelados por explicações e contextualizações. O músico não se prendeu somente às suas criações. Pelo contrário, revelou-nos algumas das suas conclusões: «a arte é a factura dos objectos», disse quando relacionava a arte com as suas formas.

Foram exactamente as formas que deram início à música, quando César Burago pegou no primeiro instrumento. Oriundo do Chile, um cacto seco e devidamente tratado, com sementes no seu interior. Pode-se dizer que é uma pseudo variação de um pau-de-chuva africano.

Juntando-se à percussão de César Burago, Fala Mariam fez ouvir a rigidez do seu trombone e logo a seguir se somaram as camadas trompetistas de Sei Miguel. Formas, elementos, céu, água, vento, palpitações, olhos fechados e um punhado de sensações (apesar do carácter minimal evidente) foram o primeiro embate com o ano de 1979 relembrado numa noite de 2011.

Logo de seguida fomos transportados para os anos 1980, mais propriamente 1981. Altura em que Sei Miguel descobriu os elementos (água, terra, ar, fogo) e os consagrou no âmbito que vinha desenvolvendo, o âmbito da música. As peças foram apresentadas numa espécie de gradação, iniciando-se no piso do Homem, a terra. Neste primeiro elemento musical, destacou-se a continuidade sonora, os sons alongados e com poucas variações. Logo de seguida, foi-nos apresentado o elemento água. Poder-se-ia dizer que o som criado pelos três músicos se decompunha como se fosse um dia de chuva, em que cada gota cria a chuva.

As gotas são não mais do que o som oriundo de cada instrumento. Sendo por vezes mais intenso, lembrando a fúria da natureza, ou mais calmo, recordando um chuvisco que passa despercebido. O ar foi ultrapassado por um espectro de calma, até se atingir o fogo e a sua força.

Saltando para os anos de 1983 e 1984, mas não esquecendo a constante presença dos elementos, conhecemos os Moeda Noise, banda da qual Sei Miguel foi membro-fundador. Neste momento, o trompetista relembra algo que anteriormente tinha sido ignorado, a fórmula canónica à qual se dedicou. Ou seja, a música literalmente escrita, não esquecendo que as criações anteriores também tinham sido alvo de escrita, todavia, uma escrita de memória. A obra dos Moeda Noise que Sei Miguel nos fez ouvir era uma junção das obras desenvolvidas até então, recuperando a essência do que tocara anteriormente, mas conferindo-lhe outra magnitude. Não se pode esquecer o pioneirismo dos Moeda Noise, trazendo para Portugal a fusão rock-jazz e um quanto noise até então praticamente inexistente.

Foi no início dos anos 80 que Sei Miguel, Fala Mariam e César Burago deram por encerrada a primeira noite de memórias. Sei Miguel nunca se esqueceu de parafrasear as suas músicas, as suas ideias, a sua noção de cosmos e o impacto da mesma nas suas composições. Permaneceu a vontade de voltar a ouvir esta história da vida real que já conta com mais de trinta anos de
escrita.

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