Opinião: Será a música nacional algum animal em vias de extinção?

10Feb11

Texto por Ana Beatriz Rodrigues

O nacionalismo, proteccionismo, patriotismo e os outros “ismos”, no geral, são conceitos perigosos. Ao longo dos séculos, a história mostrou-nos que o extremismo pela força da imposição ocupa a coroa manchada pelo sangue de outrem. Contudo, ter “a música portuguesa a gostar dela própria” é de salutar, claro; as iniciativas culturais são sempre de ressalvar, não obstante, como indivíduos críticos que somos – ou deveríamos ser – um pouco de maturação nunca fez mal a ninguém.

Em Portugal, cada vez mais, goste-se ou não, há imensas ‘cenas’ a crescer: o retorno do rockabilly-punk de Coimbra, com nomes como The Legendary Tigerman, Tiguana Bibles ou, até, com o recém re-agrupamento dos Parkinsons; o ‘fenómeno mata-o-tédio Barcelos’, com os muito-em-voga The Glockenwise, Black Bombaim, ALTO!, Indignu, entre muitos outros; as produções Enchufada e os fenómenos PAUS ou Buraka Som Sistema; o eterno Barreiro, et alii.

Depois, como em tudo, é importante ganhar sentido de perspectiva. Sempre se fez música nacional, quanto mais não seja, recuemos até ao século XIII, com as divertidas cantigas de amigo, de amor, escárnio ou maldizer, que o rei Dom Dinis nos incutiu. Mais tarde, veio o fado e a nossa eterna saudade, perpetuada por Amália Rodrigues ou Carlos do Carmo, hoje relembrada e (muito) bem-honrada por toda uma nova geração, desde a incontornável Mariza, passando por Cristina Branco, Camané, ou, num sentido mais amplo, pelos Madredeus. Durante o 25 de Abril e os tempos que o antecederam, foi a música de intervenção que ganhou espaço: vencer a opressão pela música, um sentimento elevado e enobrecido por grandes senhores e senhoras que, em sua maioria, ainda por aí andam – falo de José Mário Branco, Fausto Bordalo Dias ou Sérgio Godinho, entre uma vasta miríade à escolha. Se ainda analisarmos os fenómenos pop já idos, como Variações ou Carlos Paião, percebemos que a nossa herança cultural sempre andou de braço dado e olarilolé com composições, colcheias, improvisações, variações em sol maior e afins. Isto tudo em termos muito sumários, obviamente.

Dado um brevíssimo apontamento histórico, voltemos à pergunta que se impõe: devemos apoiar a música portuguesa? É evidente, mas esta retórica-famigerada traz-me outra dúvida. Será que a música nacional é algum animal em vias de extinção e eu não me apercebi? Vai-se criar uma PETA pela música portuguesa, para, em breve, vermos músicos enjaulados em um qualquer jardim musical? Pelo contrário, nunca se fez tanta – e eu acrescentaria, tão boa – música made-in-Portugal (ah, saudoso Carlos Ribeiro…) como agora. Em meados dos anos 80, inopinadamente, duas bandas – e poderia citar tantas outras – quebraram a parede ou o muro para trilhar caminhos: falo dos Mão Morta e dos Pop Dell’ Arte. A partir daí, e até aos dias que correm, abriu-se uma maior receptividade, em especial pelas camadas mais jovem, para com a música que se faz por cá. Claro que o argumento “não gosto porque é português” sempre imperou, como há pessoas que preferem comprar maçãs ou pêras espanholas, não me parecendo isto um motivo para ser alvo de grande discussão, uma vez que não é racional; é moda ou mania, como preferirem. Ainda assim, o importante a reter – e lendo na diagonal o tal contexto sobre o qual acima discorri – é que, com mais ou menos ênfase, sempre se fez e foi fazendo, nos mais diversos estilos e gostos, música.

Falta discutir ‘originalidade’, esse tema transversal à nossa música e à do restante globo. Originalidade é algo que, devido a séculos e séculos de actividade, se torna complicado, to say the least, de atingir. O Hércules, o Hulk, o Homem-Aranha, o Popeye ou o Wolverine existem em papel, porém, infelizmente, não são humanos. Por isso, risquemos a opção ‘super-heróis’, mesmo musicalmente falando. Ou seja, é fácil de perceber que todos os seres, músicos ou não, são influenciados por algo, pelo quotidiano, pelo que já passou e, assim, a ‘originalidade’ é, normalmente, uma miragem. Por exemplo, os inunda-a-blogosfera-ou-facebook Deolinda não se lembraram, do nada, de nos cantar o maior problema da geração dos recibos verdes: um tal de Zeca Afonso, numa altura diferente, já nos tinha vindo avisar de que eles comem tudo. Resumindo este tópico, no intenso processo da criação, vai-se sempre beber a algum lado, facto óbvio n.º1; juntando-se pedacinhos de estórias é possível criar a originalidade dentro do ‘desoriginal’, facto óbvio n.º2; o ‘desoriginal’ não é demérito, facto óbvio n.º3; o ‘desoriginal’ pode ou não ter qualidade, facto óbvio n.º4. E, por fim, vivemos em plena era globalizada: ouvimos música internacional e não, não é pecado, facto óbvio n.º5.

Continuando, e como diz André Gomes, editor do webzine Bodyspace e colaborador da revista Blitz, em declarações ao portal Jornalismo Porto Net, “a fronteira entre o independente e o mainstream é de três semanas”. Por isso, e Portugal não é excepção, se hoje pesquisar no quase-defunto myspace sobre uma banda nova, amanhã esta pode estar na Antena 3: os Linda Martini, uma das bandas mais aclamadas, em solos lusitanos, nasceu assim. E, na verdade, acaba por tornar-se complicado destrinçar o que é pop alternativo.

Mas, com isto tudo da música portuguesa, mesmo a analisá-la, há sempre fenómenos que me escapam: a pop cristã é uma delas. Claro que, através da música, se passam ideologias, sentimentos ou estados de espírito. Não vamos discutir se isso é correcto ou não, cada um sente e incorpora música (nacional ou não) da maneira que melhor lhe convier. Agora, eu – e atenção, isto é um texto de cariz opinativo, é favor olhar para o título – não consigo ouvir, gostar, sentir, aproveitar música de qualquer artista proveniente das editoras Flor Caveira ou Amor Fúria. Será que o problema é meu? No caminho da salvação para o baptismo, não fui bem expurgada com água benta? Ou, lá por ser música portuguesa, eu tenho ser ‘obrigada’ a gostar e a apoiar? Dispenso, muito agradecida. Fazer reciclagem é de louvar, como já vimos pelo ponto ‘originalidade’, desde que, contudo, seja minimamente séria, ou bem-feita. No meu singelo e singular ponto de vista, enquanto parte integrante de um projecto como o Ponto Alternativo, o meu objectivo “é ser um ponto de contacto e de aproximação entre bandas, entidades da cena musical e um público mais abrangente, permitindo que este trave conhecimento com projectos menos badalados de forma facilitada”, por isso, qual a melhor maneira de considerar, louvar, exponenciar a música nacional? Considerando-a e difundindo-a em igual pé, ao lado da música internacional; afinal de contas não somos menores, piores ou menos capazes do que o resto do mundo. E, novamente, não vou dizer que  algo, neste caso a música, é mau ou bom, apenas por ser ou não português. Cada um com as suas vicissitudes, por isso, esta é a minha maneira de ter a música portuguesa a gostar dela própria: gostando, detestando, sendo crítica, sendo amante, honrando-a à verdade, tal como faço com a música internacional.

Fotografias (concertos de peixe:avião e ALTO!, respectivamente) por Lais Pereira

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18 Responses to “Opinião: Será a música nacional algum animal em vias de extinção?”

  1. A música é mais global que uma nação, digo muitas vezes nos manifestos do canal da música portuguesa a gostar dela própria, que o mais importante é ouvir-se a si própria, haverá música boa e má em todas a linguas! A questão nunca foi nacionalista mas muito mais um problema de ego, a verdade é que sou a auto estima sempre foi reduzida a muito poucos nomes durante muitos anos, os cantautores de abril por um lado e o rock português imergente a partir dos anos 80 por outro!
    crescemos a dançar sonoridades importadas e a negar as nossas raizes rurais cheias de paisagens sonoras e samplers lindissimos! Gosto de pensar que estamos a celebrar a variedade e a autoria, há tanta música portuguesa má que nem vale a pena pensar nisso! Celebramos o direito à diferença e a presença viva da memória e dos ilustres desconhecidos, queremos olhar para a música portuguesa como algo que é mesmo forte e em expansão, por ser feirta por pessoas que por acaso algumas são portuguesas outras até não, simplesmente vivem cá! Obviamente que a música é muito mais que um país! Mas quantos espaços temos onde podemos ver estes nomes todos autorais na rua, em vídeo? Quantos conhecem a obra da Banda do Casaco? Quanto ainda há por fazer? A música não está só nos espaços urbanos e é preciso celebrar no mesmo espaço a cantadeira de Caçarelhos, como o músico da cena que está sempre na fronteira entre o alternativo e o mainstream!’ A pergunta é num país cheio de “haters” quando se ouve algo novo, não deve aumentar a sua autoestima do que se produz fora e dentro do sistema mas que tenha um cunho, uma visão?
    Gosto de música, mas sei que a paisagem sonora portuguesa é tão riac e está tão pouco explorada que um espaço destes vale mesmo a pensa o esforço!

  2. 2 Diogo S. Silva

    O que eu acho é que há uma disputa idiota entre duas facções; generalizando um bocado, há aqueles que acham que “música portuguesa” é “ir às raízes da ruralidade” e “cantar em português” e não admitem que uma banda de rock portuguesa que se expresse em inglês e tenha influências americanas faça parte dessa “música portuguesa”; por outro lado, há os fãs/artistas que não vêem qualquer problema em fazer música inspirada por outras latitudes (ei, alguém na Suécia se importa que os seus artistas mais conceituados cantem em inglês?) se sentem “ultrajados” por essa segregação e, por definição, odeiam tudo o que esteja do outro lado da barricada.

    Embora ache piada a algumas coisas cantadas em português, tendo a pertencer ao segundo grupo. E tu tens a possibilidade, se assim quiseres, de esbater esta fronteira, ao não caires no erro de enfiares na tua Blogothèque os suspeitos do costume. A música portuguesa, cantada em português, em mirandês ou em inglês só ia beneficiar com isso. Boa sorte, pá.

  3. Não, o que queremos é salvaguradr a autoria e aí obviamente que cabem aqueles que dão um cunho pessoal à sua música independentemente da lingua! Por isso vamos grara projectos cantados noutra linguas!

  4. 4 Ana Beatriz Rodrigues

    Olá, Tiago.

    Antes de mais, obrigada pelos teus comentários e pelos esclarecimentos. :) Como disse, acho que todo este tipo de iniciativas merece, realmente, ser aplaudida e divulgada.

    Com isto, não posso deixar de concordar com as palavras do Diogo: há imensos projectos nacionais – e muitos deles até instrumentais – cantados noutras línguas, apesar de serem portugueses. A música portuguesa é isso, adaptada aos tempos actuais, mesmo que isso implique interpretações em inglês, francês, mandarim ou urdu.

    Conheço e sou fã de nomes como Banda do Casaco ou Filarmónica Fraude e, novamente, concordo contigo: as gerações mais novas – e as outras, claro – devem ser sensibilizadas para toda a história e para o passado rico que temos. Ainda para mais quando nomes deste calibre influenciam o presente e futuro musicais. Não creio, contudo, que se reduza o que se faz por cá à intervenção de Abril e às bandas emergentes. Aliás, programas de rádios históricos como o Santos da Casa, na RUC, o papel do António Sérgio ou, mais recentemente, o Circuito Nacional Indiefrente mostram o contrário: não há uma redução, mas uma grande valoração e um grande património português, cantado ou não na nossa língua.

    Há, como dizes, uma grande falta de espaço – mais talvez em termos audiovisuais – para a música portuguesa. Mas atenção, isso é um problema transversal à cultura nacional ou internacional, com cortes orçamentais ou falta de vontade das pessoas. Por isso, o importante mesmo é remar contra essa maré, promover a cultura e as culturas da melhor forma que pudermos. E sim, a música não está só no espaço urbano, não está só em Lisboa, a música está em todo o lado: há que a descobrir e lançar. No fundo, lutamos todos com igual intuito, o importante é não desmoralizar.
    Boa sorte na tua demanda.

    Ana Beatriz Rodrigues

  5. Tiago,

    Posso perguntar-te onde é que queres chegar com “salvaguardar a autoria”. É que estamos a falar de música portuguesa, e essa frase pode levar a discussão para um campo bastante distinto.

  6. André a isso mesmo!
    A respeitar os autores, o direito à difrença paga-se caro e ser autor em Portugal não é fácil!
    O instrumentista tambem tem uma linguagem universal que não é o português!
    O autor é universal, a música é portuguesa porque feita aqui! Se não sabemos donde vimos não sabemos quem somos! Mas com guardas! não é para ser literal! Vamos da cantadeira ao cantautor contemporâneo, passamos pelos instrumentistas e por todos aqueles que tem um cunho pessoal no que fazem!

  7. Olá.

    Fico contente que se considere salutar a iniciativa do “A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria”.

    Vou só aqui lançar mais umas achas para a fogueira:

    Existe música feita em Portugal, assim como existe música feita em qualquer outro local do mundo. Música essa que provavelmente nasce de tudo aquilo que rodeia o músico seja lá onde ele estiver; e como tal existirão linguas, dialectos, silêncio, harmonias, e desarmonias, consoante o músico assim o entender.

    Salavarguardar a autoria, no meu entender, é proteger esse acto de criação tão comum a qualquer um de nós mortais, dar espaço para que ele exista; e se estiver no nosso poder, permitir que esse espaço se mantenha e alargue (como por acaso está no meu caso e no do Tiago, e no de outros que a nós se juntarem nesta iniciativa da música portuguesa a gostar dela própria). É objectivo nosso registar o que está a ser feito hoje em dia, seja lá de que estilo for, ou em que língua seja cantado; e é bom que isto seja claro: trata-se de um arquivo onde o ouvinte chegará às suas próprias conclusões, e selecionará o que lhe agrada e desagrada; assim mesmo, tentando não ser tendencioso. É óbvio que este registo é efectuado por pessoas que têm, cada uma delas, a sua perspectiva sobre o assunto; e é exactamente por isso que o registo não é feito por uma só pessoa: para o canal ser plural.

    O importante aqui é dar valor e espaço ao que é feito. E é muito triste sentir que esse espaço é limitado por barreiras que não têm sentido.

    As razões para esta discussão são muitas e bastante profundas. E é quase inglório estar a preterir uma música vinda das ‘origens’ (seja lá o que isso quer dizer) a outra vinda do ‘exterior’, quando a nossa formação enquanto país não é senão o resultado de inúmeras culturas provenientes de vários locais do mundo, na qual se formou um país com a sua própria cultura. E é-o assim em qualquer outro país do mundo.

    Mas nós vivemos cá.

    Somos, porém, sortudos ao ser de uma terra com muitos séculos de história onde ainda há registo desses movimentos culturais que estão intrinsecamente ligados aos movimentos musicais, e onde essas sonoridades ainda influenciam as novas sonoridades de hoje. Somos sortudos, repito.

    Um exemplo entre muitos:
    Por ocasão da ditadura, e vou tentar ser simples, assistiu-se a uma castração do Fado para poder ser elevado a símbolo nacional. Assistiu-se também a uma elevação das tradições como o folclore.
    Pós 25 de Abril: esses simbolos foram, tal como seria de prever, renegados pela maioria das pessoas, pois a memória associa-os a um período de tempo que não queremos repetir. Mais: chegam as sonoridades internacionais, o apogeu do rock; vêm os anos oitenta e toda a sua euforia musical. Foi precido esperar mais de 3 décadas para que uma sonoridade que é nossa pudesse começar a ser ouvida sem a influência dos muitos estigmas criados, e para saber escutar uma sonoridade que é nossa sem a relacionar imediatamente com o que ela simbolizou um dia. Música é música.

    Isto é tão importante quanto qualquer sonoridade que tenha origem noutro pais, ou noutro estilo, e é preciso que tenha direito ao mesmo espaço. Talvez precise de ajuda.

    Relembro que a situação referida acima é apenas um exemplo no enorme espectro de sonoridades que nos rodeia hoje em dia.

    joana

  8. Joana e Tiago,

    Indo por partes. A minha questão não surge por acaso, porque falar de apoiar artistas e defender os direitos de autores, apesar de tudo, são duas questões diferentes quanto baste para serem abordadas distintamente. Daí a minha dúvida.

    Enquanto responsável pelo PA, não deixo de achar curioso o facto de termos premissas em comum e a forma como elas acabam por divergir. “O importante aqui é dar valor e espaço ao que é feito. E é muito triste sentir que esse espaço é limitado por barreiras que não têm sentido.” O trabalho que procuramos fazer vai, exactamente, ao encontro disto – com a diferença de que não traçamos uma distinção de destaque entre o que é feito aqui e além-fronteiras, isto porque achamos que o que aqui se faz deve ser tomado em relação a um contexto global.

    É cada vez mais impossível isolarmo-nos na nossa cultura, porque pelo menos desde 74 que já não vivemos sós. Nós tentamos não isolar e olhamos para o que cá se faz com os mesmos olhos com que olhamos a música de lá fora. E, bolas, dá-nos imenso prazer ver que há coisas muito boas. Dá-nos ainda mais prazer quando as vemos ser reconhecidas por nomes sonantes da música mundial.

    E, salvaguardo eu, estou simplesmente a apontar uma diferença.

    Para mim, somos tão sortudos quanto os indianos e os seus tantos séculos de história e de religiões e de instrumentos fantásticos, ou quanto os chineses o seu throat singing e as microtonalidades. Temos a sorte de ter uma cultura e de a poder partilhar com o mundo para fazer coisas diferentes. Que o diga a Mariza, por exemplo, que tão bem tem cruzado o fado com géneros africanos que não nos são estranhos (morna, merengue, etc.) – ou não fosse ela de portuguesa como é Portugal, com raízes em África.

    Depois, Joana, não consigo concordar com a expressão “renegar”. A música é um fenómeno social e, cada vez mais, um produto. Falamos de um momento em que Portugal se abriu para o mundo e começou a deixar entrar coisas novas, mas não podemos falar do renegar do fado e do folclore, quando as cantigas de Abril são isso mesmo, ou, noutras situações, completamente influenciadas por esses géneros. Ou não tem Fausto uma imensa raiz dita lusitana, por exemplo?

    A música passa fases, e em Portugal, nos anos 80, fez-se pop e rock a quebrar fronteiras. A própria Banda do Casaco, que desde os tempos da Filarmónica Fraude se tinha dedicado a explorar o folclore de norte a sul (com maior incidência a norte, verdade), se popularizou com canções que podiam ser malhas dos Police cantadas por grandes vozes femininas (falo da Dono da Noite, por exemplo). Neste momento, temos uma cultura que nos permite ter um movimento alternativo rico e variado, que permite a bandas como os Laia cometerem a bela heresia (que não é mais do que a derivação de uma palavra grega que significa “decisão”) de fazer música a pensar “Se Carlos Paredes não é pós-rock, então o que andamos aqui a fazer?”

    Como o Diogo disse, canais como o vosso e um site como o PA têm a possibilidade de arranjar um espaço realmente importante para a música feita por cá, por aquilo que é: música. E isso é algo a ter em conta.

    • O importante é haver espaços!
      E gostos, a mim particularmente irrita me que se cante em inglês em Portugal, ou que ocorra o fenómeno da Celtização, espcialmente poque osirlandeses tocam melhor que nós e os ingeleses tem melhor pronúncia! No entanto há espaço para todos desde que tenham algo a dizer!
      Sinto que faltava mesmo um espaço género Blogotheque em Portugal, estamos a fazê lo! Vou sempre favoreecr os instrumentistas e as aves raras e os que cantam em Português e depois está lá a Joana que já não á tanto assim! Apesar de tudo, fazemos serviço público mas de autor, tal como vós!

      • Sim, de acordo quanto aos espaços e aos nossos papéis. Cada um à sua maneira, cá fazemos o que nos compete.

        Depois há os gostos e esses são sempre discutíveis. Eu tenho um enorme carinho pela língua portuguesa, portanto, sinto-me mais confortável com quem tem à-vontade para não a destruir magistralmente do que com quem insiste em a utilizar mal. Diria que me pauto mais pela qualidade do que por quem insiste em dar voz a uma forma preguiçosa de (des)fazer arte (e se não somos preguiçosos em falar, porque é que o somos a comunicar?).

        E, porque me esqueci em cima, boa sorte para a vossa Blogoteca. :)

    • Caro Diego,

      o “renegar” é assumido pelos próprios historiadores e cantautores, bem mais entendidos no assunto do que eu: o primeiro li-o, o segundo ouvi-o. Não estou a falar decor, há muitos anos que me interesso pelo assunto.

      E aconteceu, claro que aconteceu. Eu não digo que tenha acontecido bem ou mal, aconteceu. Tal como a história acontece. As canções de intervenção são objectos contextualmente diferentes do fado e do folclore, é bom que se entenda isso; além do que não as dei como exemplo por alguma razão.

      Eu acredito que somos sortudos como outros. Mas eu gosto de entender o local onde estou, daí debruçar-me sobre a música portuguesa. E gosto dela sem ter medo que me acusem de patriotista ou nacionalista: esse é outro grande estigam que nos ficou. O medo de gostar de nós próprios.

      Não tenho nada contra o rock, o blues, a música tradicional indiana; só para dar exemplos. Sou música de formação muito antes de ser realizadora, e essa é a base da minha formação: que seria de mim se não soubesse ter ouvidos e utilizá-los!

      Estamos todos no mundo. Concordo. E se não fosse o Giacometti, por exemplo ninguºem conheceria muitos registos da nossa musica tradicional. Se não fosse o Scorcese mais a sua colecção dos Blues, não conheceria muitos dos musicos que admiro. Se não existisse papel, onde estavam as pautas do Bach…

      GHá espaço para todos e essencialmente somos todos sortudos por existir música.

      A Música Portuguesa e o PA são projectos diferentes e ainda bem: é exactamente isso que se discute aqui: o direito à diferença!

      Acho que estamos todos ‘ao mesmo’.

      • André;
        desculpa ter-te chamado Diego: estou aqui a trabalhar e sou bastante desléxica.

      • Sim, Joana, estamos todos ao mesmo :)

        Tens razão quando dizes que são coisas diferentes, o folclore e a música de intervenção, até porque têm propósitos diferentes. Mas não lhes consigo fazer uma distinção, porque as raízes estão claramente lá. E até por necessidades de comunicação, não podiam ser colocadas de parte – ou o propósito de intervir perdia-se.

        Houve, realmente, o recusar da cultura que o Estado Novo acabou por levantar como símbolos nacionais, mas por ser um macaco cabeçudo e teimoso, acabo por me armar em esperto e olhá-la cá da minha maneira, tendo em conta o que disse em cima e relativizá-la no contexto de abertura que Portugal viveu nos 15 anos que se seguiram a 74 e em que procurou encontrar-se na afirmação da cultura popular europeia – cá estão os Pop Dell’Arte e a Ama Romanta de João Peste.

        A música não se dissocia da sociedade e esta foi uma fase absurdamente rica nesse aspecto, desde a tal recusa da cultura do Estado Novo à assunção dos artistas portugueses de que havia algo a dizer na Pop. E num contexto de afirmação da Pop, é só natural que o folclore caia. Foi, aliás, o que aconteceu quando o Jazz se afirmou como primeira cultura de massas na Europa (ainda antes de tal ter acontecido nos EUA), ocupando o espaço anteriormente da erudita.

        E podíamos ficar aqui para sempre, nestas coisas… :)

      • Só não acho que para que a Pop se afirme, seja natural que o folclore caia. Uma não foi causa da outra, estamos a fa lar do mesmo sobre diferentes porntos de vista, mas isso toca naquilo em que acredito: não é preciso escolher um em prol do outro: tem de haver espaço para todos os estilos.

      • Precisamente, essa é a beleza de hoje, em que o acesso à informação é ilimitado e as opções sobre “o que somos” e tudo o que daí deriva podem ser tomadas com uma liberdade maior.

        Essa é a novidade dos nossos tempos e é o que permite que haja, realmente espaço para tudo. Não que antes não houvesse, mas estamos a falar de fenómenos de massas, que eram muito mais concentrados devido à influência dos meios de comunicação tradicionais. Infelizmente, os media são sempre situacionistas, isto é, seguem os fenómenos de maior visibilidade e colocam-se confortavelmente do lado da onda maior.

        E é esta novidade que nos impõe, a todos, uma maior responsabilidade relativamente ao que fazemos. Temos a obrigação de dar espaço à Pop, ao folclore, ao alternativo e ao extremamente-alternativo, porque, sim, hoje cada um tem o seu nicho e isso é claro para todos.

  9. Quanto aos direitos de autor, naõ estou incrito na SPA, sou pelo copy left e adoro que me roubem os filmes e os misturem!

  10. A música nacional deve é ser feita por portugueses, isso é fulcral. O resto, vem por arrasto.

    Não deixa de ser mais nacional um tema cantado em inglês ou até um tema sem qualquer vocalização, pois em muitos, a dita “voz” é expressa pelos instrumentos utilizandos, que destilam desde emoções,opiniões,lembranças,sentimentos,atitudes e até potenciam a nossa mente a visualizarmos paisagens ou cenas parecidas… este comentário não é feitos de argumentos, é apenas feito a partir de uma vontade, enquanto alguém que ama difundir música na rádio, para que os artistas trabalham todos para o mesmo, independentemente daquilo que os faz mover…. trabalhem para a Música.

    Quem conhece o que tenho vindo a desenvolver, em colaboração e ajuda com pessoas que partilham da mesma paixão pela música…sabe que sou sempre indiefrente no que consta a música :) Excelente Artigo PA e boa troca de opiniões que aqui se vislumbrou.


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