Concerto: Perry Blake @ Cinema São Jorge

07Feb11

7 de Fevereiro de 2011, Cinema São Jorge, Lisboa
Texto por Gil Dionísio/ Fotografia por Lais Pereira

Faltava menos de meia hora para se abrirem as portas da sala 2 do cinema São Jorge, e já se encontravam mais de meia centena de pessoas dentro do edifício, visivelmente satisfeitas por mais uma vez receberem Perry Blake para um concerto que se viria a revelar fascinante, alcançando todas as altas expectativas.

De uma forma calma, um público composto por uma miscelânea de jovens e graúdos, muitos casais e tantos outros solitários, todos prontos para abraçar a melancolia a que Blake já nos habituou, entraram na sala de concerto e rapidamente encontraram conforto no chão que cercava o palco onde se esperou o músico. Entretanto, pontualmente, entre os sussurros que ecoavam na sala, entra Perry Blake acompanhado por Phil Ware (piano/teclados) e Glenn Garrett (baixo/guitarra acústica), recebendo um caloroso aplauso de um público ainda tímido e de um Blake ainda a tentar perceber que plateia era aquela.

A delicadeza dá início ao concerto, com um piano eléctrico e um baixo mais que limados a aconchegarem a voz do desejado cantor. Apenas na segunda música These Yound Dudes é que o trio se entrega verdadeiramente à casa, com Blake a soltar inicialmente o seu nó de gravata e acabando por tirar o casaco, dirigindo-se ao público com tanto carinho quanto tinha para dar, enquanto os tons tristes do grupo iam fazendo dançar os corpos que gentilmente se deixavam embalar.

Engane-se quem julgar que um concerto de Perry Blake é um conjunto de momentos melosos para entreter um primeiro encontro, também poderá servir para isso, mas terá com certeza outro foco. O carisma e a força que encontra em palco fazem deste intérprete um excelente comunicador. A rigidez da forma como estava sentado não anulava a naturalidade dos seus gestos e a sua postura lembrava um ente querido do qual todos nós esperamos ouvir as mais belas histórias. Apesar da tristeza do que nos contava, a legitimidade e a consciência impregnavam as suas palavras, fazendo com que Blake se entregasse em plenitude à relação com o público.

Embora o tom das suas músicas nos convide para uma melancolia quase absoluta e introspectiva, este contador de histórias chegava ao público através do mais requintado humor, apelidando-se de International Man Of Misery. A piada fez as «honras da casa», ajudando Blake a explicar as suas composições e inspirações. A cumplicidade entre Perry Blake e o público era tão grande como a qualidade das suas canções, o que só demonstra o enorme conhecimento que o artista tem do público e vice-versa, criando-se um ambiente familiar.

Foi com maior gosto que a plateia recebeu a eficiência dos músicos que acompanhavam Blake. No entanto, a figura central daquele concerto poderia estar sozinha sem qualquer aconchego que teria muito possivelmente o mesmo impacto. A sua voz quente e de um grau de excelência quase perfeito, onde, todavia, se encontravam as faltas de uma actuação ao vivo, determinou uma relação genuinamente intimista. Tanto Perry Blake como o público estavam ali pela mesma razão: sentir.

Reinava um à vontade marcante na sala do S. Jorge. Nas pausas entre as músicas, os casais que integravam o público não hesitavam em trocar olhares, abraços e umas quantas impressões entre eles. Blake e a sua voz eram, de certo modo, os coreógrafos daquela «dança de carícias» que se dava na plateia.

O grande momento aconteceria a meio do concerto, quando é tocada The Hunchback of San Francisco. Não só pela sua intensidade, mas pelo refrão que fez com que a sala canntasse, mesmo que em tom de murmúrio, ficando um eco de Blake a soar durante vários minutos: «’cause I’m a lonely, lonely, lonely, lonely man. And you’re a lonely, lonely, lonely girl». Entre músicas do álbum estreado em 1998, ouviram-se fragmentos de Califórnia, Broken Statues, Crying Room e do álbum que ainda está por estrear St. Mary & Milk.

Concluída uma hora e um quarto de concerto, os músicos tiveram direito a uma ovação de mais de cinco minutos, regressando para um pequeno mas bom encore. Num ambiente recheado de emoções, humor e canções que não deixaram ninguém indiferente, passou-se uma boa noite de domingo na companhia do sempre bem-vindo Perry Blake.

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