Concerto: Alexander von Schlippenbach & Andrew Poppy @ Teatro Maria Matos, Lisboa

07Feb11

5 de Fevereiro, Teatro Maria Matos, Lisboa
Texto por Regina Morais / Fotos por José Frade

Se a primeira noite de pianos no TMM foi marcada por um certo antagonismo entre John Tilbury e Dustin O’Harollan, a segunda noite conseguiu ainda mais realçar a diferença entre os quatro pianistas que preencheram o cartaz do segundo Fim-de-Semana Especial. Os intérpretes conseguiram-no, revelaram que o piano é, sem dúvida alguma, um instrumento multifacetado.

A segunda noite começou com o improviso de Alexander von Schlippenbach. Uma coisa é certa, Schlippenbach está para o improviso como José Mourinho está para o futebol. Senhor de uma arte brilhante, o pianista conseguiu disseminar a libertinage do som pelos quatro cantos daquela sala. Schlippenbach é técnica, é free, é jazz, é inteligência e um perito em descodificar as particularidades do piano.    

Schlippenbach foi o único músico que quando entrou na sala não se sentou. Em pé diante do piano, o intérprete iniciou uma série de batuques espaçados nas cordas do instrumento, mostrando-nos a origem concreta do som. Mais uma vez, uma prova de que a melodia não tem de surgir dos cânones do usual. Pelo contrário, a percepção da melodia pode ter origens infinitas, visto que faz parte de um processo totalmente individual.

Debruçando-se em direcção às teclas do piano, Alexander von Schlippenbach já não mais se iria lembrar de que estava a ser observado. Verdadeiramente curvado, fazendo com a boca sons que o ajudariam a dar continuidade ao seu delírio e envolvido por uma bolha de isolamento, o intérprete iniciou uma demonstração da pureza e invulgaridade de que a empatia se faz vítima. Schlippenbach não faz música por uma causa concreta, Schlippenbach faz com que a música aconteça, pura e simplesmente. Numa quimera de graves e agudos, os momentos impulsivos de pressão sonora cada vez mais se faziam ouvir, para seguidamente serem derrubados por uma tonalidade mais calma, mas, de qualquer forma, continuando a ser inquietante.

Na sua última peça, Schlippenbach ultrapassou as barreiras do inesperado. Colocando dois chocalhos, tampas de panelas e mais uns quantos utensílios metálicos sobre as cordas do piano, deu origem a um ritmo de metais que deixou verdadeiramente o público boquiaberto. «Conhecem o livro A Máquina do Tempo de H. G. Wells? Esta experiência teve como influência esse mesmo livro.», disse-nos o pianista antes de dar início ao compasso metaliforme. Difícil será explicar o que ali se passou, entre o tilintar dos chocalhos e os tachos que se viam saltar por cima das cordas, Schlippenbach brindou-nos com uma sonoridade única e dotada de uma criatividade ideal.

Contudo, existe uma explicação para a performance de Alexander von Schlippenbach na noite passada no TMM. O pianista já lida com a música desde os seus pequenos oito anos, frequentou a escola Saatliche Hochschule für Musik em Colónia e tem colaborado com alguns dos ensembles mais estimados no meio jazzístico. Trabalhos com Evan Parker, Kenny Wheeler e Sam Rivers são alguns dos marcos na carreira do pianista proeminente no seio do free jazz europeu.

Depois de um intervalo e de uma subida ao palco pelo TMM para avisar de que durante a próxima actuação seria necessário voltar a dar uso ao silêncio entre as composições, Andrew Poppy e o seu penteado “mozartiano” apareceram e logo se instalaram perante o piano.

Andrew Poppy lida com o ambiente português desde o final dos anos 80. Através da editora Ananana, o pianista já contactou com várias personalidades do grémio da música nacional, como Vítor Rua, António Pinho Vargas, David Maranha, Jorge Lima Barreto, entre outros. Assim sendo, não seria de estranhar a facilidade com que o pianista iniciou a sua performance e revelou continuamente como se «sentia em casa».

Acompanhado pela exibição de um vídeo feito em tempo real por Julia Bardsley, artista com a qual já colaborou em várias criações, Poppy iniciou o seu conjunto de melodias com um fragmento de …and the Shuffle of Things, com o título de Almost The Same Shame. Claramente influenciado por compositores americanos contemporâneos, como Terry Riley, Philip Glass e Steve Reich, o pianista fez ouvir um conjunto de repetições disciplinadas de uma gradação com origem na rapidez, transformando-se num ritmo cada vez mais lento e espaçado.

Deu-se o mergulho num espectro de «bis» interminável. Contrariamente à actuação de Schlippenbach, Andrew Poppy seguia rigorosamente a pauta que, caso o espectador a observasse com atenção, estava repleta de cinco linhas escritas com notas repetidas. Poppy não desejava realmente libertar-se da sensação que cada uma das suas peças revelava, e daí se crê na sua vontade de bisar cada um dos acordes.

A meio da sua actuação, o vídeo de Julia Bradsley encheu-se de fotografias do próprio piano, indicando-nos que, a partir desse momento, as composições de Andrew Poppy seriam não só oriundas do piano mas igualmente ser-lhe-iam dedicadas. Não é de estranhar a forma como o conjunto «instrumento – músico» se fechou em si mesmo, deixando o público, de certa forma, numa posição um pouco longínqua em relação à interpretação de Poppy.

Nos momentos finais da sua prestação, notou-se algum desconforto entre o público. Talvez por Andrew Poppy ter ficado perante o piano durante mais de uma hora ou talvez porque as repetições já se tornavam um pouco cansativas. A verdade é que quando o músico dava indícios de que poderia haver um encore, os únicos aplausos que o pianista ouviu nessa noite cessaram.

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