Concerto: Tigrala, John Makay e Alto de Pêga @ Musicbox [2º Festival Terapêutico do Ruído]

07Feb11

4 de Fevereiro, Musicbox, Lisboa
Texto por António M. Silva / Fotos por Graziela Costa

E se o ruído fosse uma terapia? Talvez a Organização Mundial de Saúde não a aconselhasse a toda a gente, talvez o fizesse em pequenas doses, talvez a proibisse. Mas passemos por cima de todas as prescrições e aconselhamentos médicos e pensemos no ruído como verdadeira forma de terapia. O Festival Terapêutico do Ruído fê-lo e apresentou a segunda dose, numa sexta-feira à noite, no Musicbox, em Lisboa. O cardápio era apetecível: os Alto de Pêga iriam abrir as hostes, os John Makay traziam uma dose calculada de rock e os Tigrala prometiam fechar em viagem psicotrópica. Algo contra? Também me parecia que não. Oriundos de Beiriz (fica perto da Póvoa de Varzim), os Alto de Pêga entraram em palco dispostos a mostrar o que é o verdadeiro ruído. Aquele que as entranhas da Terra fazem quando estão em convulsão e aquele ruído que se crê ouvir no espaço exterior (talvez o George Lucas não estivesse tão enganado assim). Em palco havia uma guitarrista que empunhava um arco de violoncelo, uma guitarra portuguesa, um baixo e um baterista. Assim de repente, dir-se-ia que ninguém parecia lá muito preparado para a montanha de som que ali se ia formar, muito menos o sistema de som do Musicbox. “No princípio era a escuridão”, com ruídos primitivos, drónicos e circulares (um piscar de olhos a Kevin Drumm talvez?). O som estava pulsante e sentia-se a tensão a acumular, prestes a explodir. E quando explodiu, o caos anárquico levou toda a gente à frente. O PA do Musicbox não gostou (ou não aguentou) e a amálgama embrulhada de ruído era muito pouco perceptível, e a guitarra portuguesa não se ouvia. Nas partes mais calmas, os Menace Ruine pareciam pairar por ali. Sentia-se, sem dificuldade, o ritmo sinuoso da bateria, que não abrandou nem um bocado: nem mesmo quando começaram a saltar lascas de madeira das baquetas. Um bocado mais alto do que se queria – ou colunas demasiado fracas para toda a entropia espacial -, mas imaginativo o suficiente para imaginar uma tempestade espacial a formar-se (embora não saiba bem o que isso possa ser, parece-me algo ruidoso e algo que os Alto de Pêga gostariam de emular). Começaram como o Big Bang, de repente, e acabaram como o universo vai acabar um dia: numa implosão súbita. A seguir atentamente no futuro.

Tempo de pausa para uma cerveja e esperar os franceses John Makay. O guião do Festival prometia math-rock. Eu pensava em Battles, Don Caballero ou Extra Life. E não me desiludi. O bom math rock consegue ser sinestésico. Com o guitar tapping minucioso e a bateria exímia, é possível imaginar fórmulas recheadas de expoentes, raízes quadradas onde assentam notas, partituras quebradas pelos ritmos de percussão desafiantes, equações que compõem os ritmos lógicos (e às vezes ilógicos) que compõem os ritmos. Esta dupla é mesmo assim, boa que dói. E divertida! E imbuído na boa disposição da dupla francesa – que durante 45 minutos não perdeu os largos sorrisos com que entrou em palco – apercebi-me que, desconhecendo o mundo matemático, o math rock dos John Makay constrói excelentes imagens para um bom jogo de plataformas. A sério, fechem os olhos e imaginem-se a jogar Super Mário ou Crash Bandicoot com os temas deles! Ia ser mais emocionante que o típico 8-bits (ou16 ou 32, dependerá das vossas consolas). A vitória francesa foi justa e merecida e apeteceu que ficassem mais um bocado. Com sorte, alguém se vai lembrar deste concerto e investir num regresso.

Para fechar a noite estavam os Tigrala. A promessa – e a ideia que muitos tinham na cabeça – era a de uma viagem xamãnica de som psicotrópico. O concerto de OM na semana anterior ainda estava muito presente na minha cabeça, mas até poderia ser possível. Surpresa das surpresas, o trio lisboeta decidiu trazer a palco um set eminentemente eléctrico. Uma leitura atenta ao guião e estava descortinado o enigma: o segundo disco da banda de Norberto Lobo vai ser assim, com guitarra eléctrica. E o que esperar? Psicadelismo, viagens instrumentais em verdadeiro transe e uma percussão absolutamente contagiante. Norberto Lobo, esse, continua endiabrado. Dêem-lhe uma guitarra para as mãos e o homem faz o que quer, seja ela de que género for. Embora esperasse os Tigrala introspectivos, a fórmula mais musculada que apresentaram no Musicbox foi mais que eficaz. Com toques de Hawkwind e muitos mais de stoner-rock adornado com hard-blues dos anos 60, o set de 45 minutos apresentado incendiou o público e foi, de todas as bandas, o que arrancou reacções mais entusiásticas. Percebe-se o porquê: a secção ritmíca que suportava os solos elegantes e bem compostos de Norberto tresandava a África por todo o lado e punha um pé na América Latina sempre que podia. Está visto: os ritmos afro-latinos injectados a testosterona vieram para ficar. Quanto à metamorfose dos Tigrala, essa, é notável. Nestas coisas da música, do Tibete ao Congo vai só um passinho.

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