Álbum: Destroyer – Kaputt (2011)

05Feb11

Texto por Ana Beatriz Rodrigues

Recuemos umas décadas: são os inícios dos anos 80. Imaginem-se em plena ‘disco fever’; os Joy Division editaram o Unknown Pleasures há pouco tempo; as meninas adoram roupas berrantes e acessórios em excesso; ninguém conhecia o Sócrates ou o Bush e, saindo à rua, conseguíamos perceber instantaneamente em que estação do ano estávamos, sem o amigo Aquecimento Global nos vir piscar o olho.

Basicamente, é este o contexto em que nos situa o nono álbum de Dan Bejar (New Pornographers, Swan Lake, Blue Roses, Hello) no seu projecto a solo, Destroyer. Não sendo, propriamente, inovador, com muitas camadas de maquilhagem (novamente, hello eighties!), Bejar conseguiu uma proeza com Kaputt: trazer de volta, para a música, o saudosimo vintage – que já vamos vendo, hoje em dia, no vestuário hipster que por aí abunda -, reciclando a pop com tudo o que ouvimos em décadas passadas, enquanto mascávamos pastilhas. Claro que isto, por si, não é mau. Pelo contrário.

Bejar logrou em alcançar a tarefa a que se propôs, de forma mais livre e criativa, quando comparado com os seus registos anteriores. Borrifou, claramente, para as regras e para os conceitos pré-estabelecidos e foi ouvir o que lhe apeteceu, para compor este disco. Ou seja, não é de admirar as influências nele latentes: a depressão vocal à Ian Curtis, os arranjos electrónicos New Orderianos, guitarras post-punk embebidas em Roxy Music (técnica que, por exemplo, Justin Timberlake já tinha utilizado, porém, no seu disco de estreia, Justified), a decadência de anos idos e do consumo excessivo de substâncias psicotrópicas e alcóolicas – ‘Listen, I’ve Been Drinking’, como nos confessa em Bay of Pigs -, uma incursão cautelosa ao jazz e aos instrumentos de sopro e, até, pequenas samples do chilwave da moda latentes nos sensuais sintetizadores. Todo este cocktail, com muitos arranjinhos e uma excelente produção, acabou por resultar em, provavelmente, num dos melhores álbuns do ano.

Kaputt é, portanto, um disco inteligente, bem pensado, que nos prende do início ao fim, desde o muito fresco e dançável (característica que, aliás, percorre os nove temas do LP) Chinatown; passando pelo hit-de-sexta-feira-à-noite, Blue Eyes; aos quase-Depeche ModeSavage Night At the Opera Kaputt, terminando no fabuloso teclado-midi de Chinatown. Claro que o disco não seria a mesma coisa sem as alternações entre backvocals femininos e masculinos que, tal como 90 % do disco, são uma característica dos tempos dos nossos pais. Acima de tudo, este é um trabalho coeso, com letras simples, heterogéneas, mas que resultam. Talvez, apenas Bay of Pigs, canção com uma maior duração – quando comparada com a média do disco – e já previamente editada, esteja fora de contexto: mas as boas, perfeitas canções têm espaço onde quiserem e esta é uma delas. Voltando a ouvir o disco mais uma vez, concluímos que o fim (Kaputt) de Dan Bejar não está próximo. Como os outros dizem, ‘this is only the beggining’.

Kaputt, 2011, Merge Records

1. Chinatown
2. Blue Eyes
3. Savage Night At the Opera
4. Suicide Demo for Kara Walker
5. Poor In Love
6. Kaputt
7. Downtown
8. Song for America
9. Bay of Pigs (detail)

Advertisements


2 Responses to “Álbum: Destroyer – Kaputt (2011)”


  1. 1 Para ver: ‘Move’ de The New Pornographers « Ponto Alternativo
  2. 2 Janelle Monáe e Jamie Woon no Sudoeste « Ponto Alternativo

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s


%d bloggers like this: