Entrevista a Perry Blake: O lobo solitário

04Feb11

Texto por Ana Beatriz Rodrigues

Esconde-se na penumbra que as suas canções melancólicas projectam e confessa que a música que desenha é a que lhe parece “a [escolha] certa”. Já chegou aos quarenta anos – quase quinze de carreira – e ainda tem muito para mostrar. Em vésperas do lançamento do seu sexto álbum de estúdio, St. Mary & Milk, o PA falou com Perry Blake, que inicia hoje, sexta-feira, a sua mini-digressão pelo nosso país.

Blake editou o seu primeiro disco, homónimo, em 1998, e, desde logo, colheu reconhecimento, um pouco por toda a Europa. O irlandês, que já colaborou com nomes tão distintos como Tindersticks ou Françoise Hardy, é uma figura discreta, arredada dos palcos ‘mainstream’, apesar de compor também música pop, para outros artistas. “Até aí [na música pop], as minhas canções são melódicas, o que me diverte muito. Acho que há espaço para todos na música, nem me importo com o [crescimento do espectro] lo-fi“, confessa.

No entanto, a música não é a sua única paixão. Bem-humorado, Perry conta-nos que, apesar do seu rendimento vir, principalmente, da arte de cantar, o cinema revelou-se como outra das suas apostas: “Também escrevi desenhos para crianças, que vieram a ser escolhidos por uma produtora cinematográfica”. Além disso, há já um ano, que Blake vem a trabalhar num guião sobre a indústria musical dos anos 90.

Sendo um artista muito peculiar, Perry tem de se debater com algumas questões menos positivas que daí advém: “algumas pessoas acham a minha música muito triste, outras, em especial na Europa, gostam”. Porém, os entraves, por vezes, chegam a ser em maior escala. “O meu último disco já está terminado, mas ainda estou em fase de conversações com as editoras para o lançar em território europeu”. Este facto foi, aliás, o causador do hiato de cinco anos sem originais – o seu último disco, The Crying Room, remonta a 2006 -, uma vez que “infelizmente, a Warner francesa não quis editar o álbum e eu queria, por isso tenho estado a prepará-lo sem uma editora, pagando-o sozinho, o que atrasa os processos”. Sem querer desvendar muito sobre St. Mary & Milk, Blake adiantou que terá a colaboração de Françoise Hardy no tema Folks Don’t Know, mas admite que está a ter muitas dificuldades na edição do cd, já que, hoje em dia, “é incrivelmente difícil para artistas como eu trabalharem com as grandes editoras, dado que a música é, maioritariamente, vítima do download ilegal”. Não concordando com esta mudança, Perry resigna-se e sabe que “pouco ou nada se pode fazer quanto a isso, mas é triste perceber que as coisas seguiram, definitivamente, esse caminho”.

E como é que funciona o processo de composição deste singer-songwriter? “Para mim, o aspecto mais importante é a melodia vocal. Se não me conseguir emocionar, desfaço tudo e começo do zero. Curiosamente, o meu melhor material, em termos musicais, costuma surgir muito rapidamente, por isso tendo a descartar, normalmente, as ideias que não me tragam uma inspiração súbita”. Este processo acaba por ser aditivo, garante-nos Perry, ou seja, “é complicado de pôr em palavras”. Até mesmo a parte de inspiração é “como uma droga, porque, quando escrevo algo que considere de qualidade (seja uma música pop ou um ‘Perry track’), sinto um frenesim imenso, que pode até durar mais do que uma semana”. E vai mais longe: “se não criar, deprimo, mesmo sabendo que mais de metade do mundo nunca ouviu falar da minha música”.

“[…] Se não me conseguir emocionar, desfaço tudo e começo do zero.”

Quanto aos concertos em Portugal, o irlandês mostra-se ansioso: “adoro actuar no vosso país; por algum motivo especial a minha música é apreciada aí”, facto que também é recorrente em França. “Acho as mulheres portuguesas muito atraentes”, graceja, ainda, Blake. Nos três concertos agendados, apesar de prometer mostrar alguns dos seus novos temas, o músico revisitará os seus clássicos, até porque, normalmente, “é isso que as pessoas querem ouvir”. Todavia, Perry Blake não estará sozinho em palco: “irei ter dois músicos maravilhosos a tocar comigo, que são o Glenn Garrett no baixo/guitarra acústica e o Phil Ware no piano/teclados”.

Afiançando que “a música melancólica funciona bem por terras lusas”, Perry deixa um repto: “gostaria que viessem aos meus concertos e que os apreciassem”.

Perry Blake actua hoje, dia 4, no Auditório Paços da Cultura, em São João da Madeira. Amanhã, sábado, será a vez da Casa das Artes, em Famalicão e, por fim, Lisboa, no domingo, no Cinema São Jorge. Mais informações sobre os concertos, bem como sobre o preço dos bilhetes, neste link.

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