Concerto: Lower Dens @ Aveiro

06Dec10

4 de Dezembro – Teatro Aveirense, Aveiro
Texto por João Sardo

“Pega na eléctrica e traz amigos.”

Terá sido algo do género que Jana Hunter terá guardado de um dos seus sonhos nos últimos anos.

A menina texana (que, a solo, acompanhou os Beach House na sua mais recente visita a Portugal), a quem o querubim Devendra Banhart não se farta de lançar uma série de loas e, recrutada, aliás, para a editora que partilha com Andy Cabic dos Vetiver (Gnomonsong), decidiu chamar mais três meninos e deixar para trás (pelo menos, por enquanto) o seu acid folk solitário. Ou melhor, ficou o acid, foi-se quase todo o folk.

Os Lower Dens têm em seu código genético languidez, dissonância, doçura, electricidade e chama. Pouco se preocupam com estruturas melódicas o que é, aliás, muito bonito da sua parte.

Somos invadidos, imediatamente, pelo experimentalismo no-wave da Nova Iorque de finais de setentas, (“aquela guitarra” de Tom Verlaine –Television), o uso constante de loop´s atira-nos de jorro para a sã loucura de Alan Vega e Martin Rev (Suicide).
Mas é mais do que injusto (e falso) olvidarmos este lado do Atlântico, com os Wire, My Bloody Valentine, The Jesus and Mary Chain e tanto, tanto (mas tanto!) Will Sergeant (Echo & the Bunnymen – início de carreira) no dedilhar de guitarra do ruivo Will Adams.
Em quatro palavras: psicadelismo, shoegaze, new-wave e post-punk.

Mas não se pense que é fácil catalogar a música dos Lower Dens. Não ocupará nenhuma prateleira em específico. Será até totalmente infiél a qualquer estilo convencionado. Quanto muito, será andrógina, muito por culpa (ou favor?) da agri-doce Jana Hunter que nem sempre nos canta. Ora geme, ora parece que chora, raramente sorri, amacia, levanta a voz, cai outra vez, levanta-a, levanta-nos, atira-nos, por fim.

O quarteto percorreu, com um encore, quase na totalidade o seu único longa-duração, até á data, Twin-Hand Movement. Ficou-nos a ideia que, nos Lower Dens, o palco funciona muito melhor do que a prateleira e que é aí que a banda explora todo o seu amor. Efectivamente, aquele primeiro registo discográfico ainda imberbe (também pela Gnomosong do Senhor Devendra) denota ainda algumas fragilidades, heterogeneidade e alguma perdição no apontar de trilhos a calcorrear. Mas, por outro lado, e por aquilo que viram as poucas dezenas de presentes na Stage Box do Aveirense, ficou-se com a plena certeza que o próximo capítulo será bem diferente. Para melhor.

A ideia que nos fica dos Lower Dens é que têm pouca pressa de nos agradar, o que só nos pode deixar mais tranquilos.
Porque cá estaremos, também nós, fingindo-nos desinteressados, aguardando que acendam o próximo fósforo e, carinhosamente, nos queimem outra vez os ouvidos.

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