Concerto: Parkway Drive @ Santiago Alquimista, Lisboa

29Nov10

28 de Novembro de 2010 – Santiago Alquimista, Lisboa
Escrito por Emanuel Pereira / Fotos por Hugo Rodrigues

No último domingo, caso me tivessem oferecido a oportunidade (remunerada) de ser segurança em Parkway Drive eu não aceitaria. Não faz o meu estilo e, simplesmente, há concertos onde não vale a pena oferecer resistência à multidão. Nem mesmo a plataforma, colocada à frente do palco para os stage divers, parecia capaz de suster a veemência daqueles que se renderam aos seus ímpetos mais voláteis. Foi a descompressão geral. E é para isso que os cinco australianos viajam meio mundo… Para, no final, terem a certeza de que as suas vibrações negativas (e as dos outros) ficam agarradas ao chão e às paredes dos recintos por onde passam. O (cheio) Santiago Alquimista não foi excepção.

A noite fez-se estrear com os Don’t Disturb My Circles. Os lisboetas apresentaram um hardcore na onda math, a fazer recordar uns Dillinger Escape Plan em modo imberbe. Aplaude-se a ousadia, mas o público pedia algo com mais groove e não tão aritmeticamente desenhado. O ritmo demasiado titubeante acabou por retirar o poder à actuação dos Don’t Disturb My Circles, a qual não terá durado mais de vinte minutos. Não encantou por aí além, mas fica a expectativa de os ver noutro tipo de cartaz e num recinto de menor porte, onde também não tenham de ser cobaias para a mesa de som.

Reality Slap trouxe aquilo que a maioria queria. Hardcore crossover bem balançado, pronto apenas a projectar o caos em jeito de festa. Não há nada de novo, nem de extraordinário, naquilo que expelem através dos amplificadores. Nem é essa a intenção. Como disse o vocalista logo de início: “O microfone é vosso, o palco é vosso. Divirtam-se!”. Dito, e segundos depois, feito. Quem quis, subiu ao palco, atirou-se para a plateia, gritou palavras de raiva em direcção ao micro e contribuiu para o aumento da temperatura da sala, enquanto a actuação-relâmpago dos Reality Slap decorria. Pelo meio, ainda houve quem respondesse ao repto lançado pela banda: quem se atirasse do balcão ganhava uma camisola. Resta saber se o fã que o fez sempre teve direito a nova t-shirt no armário.

Para culminar o concerto, vocalista e baixista não se fizeram rogados e lançaram-se também eles para a plateia, ainda Breakin’ Out ressoava através dos speakers. Durante cerca de trinta minutos, os Reality Slap aqueceram as almas do Santiago Alquimista e esquentaram igualmente o motor para Vigo, onde chegarão a 11 de Dezembro, prontos para tocar com No Turning Back, Your Demise e Landscapes.

Os Parkway Drive são uma banda especial. No espectro metalcore/hardcore são dos poucos grupos que ainda dão cartas e que conseguem surpreender a cada disco. Deep Blue (2010) está um miminho brutal e foi com Samsara, faixa-prólogo de abertura do novo álbum dos australianos, que a brincadeira começou. Feito o prefácio, Unrest foi o arranque oficial, provavelmente a melhor faixa de Deep Blue. O moshpit abriu-se, os stage dives recomeçaram, alguns ténis perderam-se no pelotão, juntamente com telemóveis e carteiras. Poder-se-ia julgar que estaríamos na feira da ladra, mas, pelo contrário, era mesmo o concerto de Parkway Drive, com toda a sua confusão inerente.

Bastaram apenas alguns minutos para perceber que o Santiago Alquimista acabou por não ser a melhor escolha para o concerto – que até estava inicialmente previsto para o MusicBox. Quem ficava atrás do aglomerado populacional, que se juntou por cima do degrau de madeira, apenas conseguia ver o vocalista Winston McCall, que passou grande parte do concerto em cima da tal plataforma para os corpos voadores de serviço. Os restantes membros? Tão raro vê-los quanto o eclipse solar, hiperbolizando. Para além disso, o som não estava aprimorado, com a bateria a soar demasiado alto e as guitarras, a certa altura, quase inaudíveis. Mesmo com estes problemas, Parkway Drive despoletou o caos, saudado com frases como “What the fuck have I become?!”. Idols & Anchors, do basilar Horizons (2007), Sleepwalker, outra faixa nova possuidora de um groove impressionante, e Smoke ‘em If You Got ‘em bastaram para que McCall considerasse a actuação no Alquimista como a melhor dos australianos nos últimos meses. “Holy shit!” repetia ele, a cada final de música, surpreendido com a fibra do público nacional. A primeira viagem até ao álbum de estreia, Killing With a Smile (2005), foi feita através da já referida Smoke ‘em If You Got ‘em, que quase implodiu o recinto lisboeta. Por entre circle pits, vislumbraram-se algumas atitudes menos próprias e éticas de alguns dos presentes, que decidiram pontapear quem participava na roda viva.

Dead Man’s Chest manteve o concerto num nível altíssimo, logo perseguida pela recente Deliver Me e por Guns For Show, Knives For A Pro, que colocou toda a gente a gritar “Yippie-ka-yee, motherfucker!”. Visivelmente estafado (e doente, pelo que se disse), McCall prometeu que ainda havia mais, para felicidade de todos. Recordaram-se os três álbuns durante a hora de concerto, com destaque óbvio para Romance Is Dead (Quem é que não disse “So cry me a fucking river… Bitch”?) e Home Is For the Heartless, já tão bem conhecida pelo público, que participou activamente no sing along.

A violenta Set To Destroy colocou um ponto e vírgula no concerto, permitindo que os australianos pudessem limpar o suor, recuperar o fôlego e responder aos pedidos ruidosos daqueles que queriam Carrion – provavelmente a música mais emblemática da curta carreira dos Parkway Drive. E assim foi! Carrion foi tocada e a loucura irrompeu por todo o Santiago Alquimista. Adolescentes ou gente de barba rija, mulheres ou homens, houve de tudo a querer participar no stage diving. Já dizia o mafioso John Gotti: temos de criar o máximo possível de memórias boas, pois, no final, é só isso que nos irá restar.

Boneyards fechou o concerto de Parkway Drive. Queimaram-se as últimas calorias, ganharam-se as últimas nódoas negras, gastaram-se definitivamente as cordas vocais… “Sinking, always, sinking!”. E, já vencidos, os seguranças permitiram que alguns fãs fossem mesmo para o palco, juntando-se aos músicos australianos, construindo uma amálgama indistinta entre os membros da banda e os seus seguidores.

Winston McCall, no final, caiu de joelhos praticamente esgotado, mas logo abraçado por quem ainda queria tirar umas fotos com ele. Simpático, tal como todos os membros da banda, levantou-se e ainda teve fôlego e força para sorrir em direcção à câmara de um telemóvel, que até poderia ser a do vocalista de Reality Slap, que passou o concerto a filmar os Parkway Drive, no palco.

E, aproveitando o que ele disse na actuação dos portugueses, “isto é uma cena positiva”. Mais noites destas precisam-se.

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6 Responses to “Concerto: Parkway Drive @ Santiago Alquimista, Lisboa”

  1. 1 André

    Gostei de ler esta “review” à grande noite de domingo no Santiago Alquimista. Fazem falta pessoas assim, que saibam escrever e percebam da poda.
    Só uma pequena correcção, aqui: “Boneyards, a faixa de abertura de Horizons, fechou o concerto de Parkway Drive.”. A Boneyards é a sexta faixa do álbum.

    Continuação de bom trabalho e vêmo-nos por esses palcos.

    • 2 Emanuel Pereira

      Thanks pelos elogios à review. Tinha de mandar a minha calinada, no entanto. É tradição, eheh. Vou corrigir. ;)

  2. primeiro props pelo review…

    segundo… sim realmente recebi uma t-shirt.. bem bonita com uma cor verde quase de acido ^^ valeu ele ter dito aquilo, eu ja era pra saltar mas a t-shirt calhou bem xp.

    terceiro.. alto desempenho de todas as bandas , don`t disturb my circles foi lindo … um autentico ataque cerebral compulsivo do qual eu nao resisti e se nao fosse eles (e reality slap) eu nao pagava 20 euros .. amei(pena publico que publico ne capiché pas o movimento )

    Reality Slap é hardcore no seu estado de loucura… ou o pessoal passa se nos breakdowns ou nao param o resto da musica ..eu sei que nao parei xp

    e por final os parkway que fizeram aquilo a que sao conhecidos, NICE BREAKDOWNS a.k.a PORRADA (choruschants bonitos de se ver mas nada que desse vontade pra mais)

    Pra acabar , lamento a decisao da org pelo enorme bloco de metal para stage dive,
    breves foram as vezes que vi os musicos a mostrarem as suas skills ; e mesmo a terminar , desgostei da atitude de certos em manterem se no palco como crianças perdidas a procura dos pais… espontaneidade é o que é preciso.. obrigado pela atençao

  3. 4 Ricardo Martins

    Reality Slap foi muito bom, sempre com a pica toda, ele pendurado nas grades do balcão foi algo que me surpreendeu visto que foi o meu primeiro concerto de hardcore.
    Gostava de ter visto o tal fã a saltar do balcão nem reparei xb

    Parkway Drive foi simplesmente DIVINAL! Concordo foi uma pena as caixas de metal que não deixaram ver os skills dos musicos, só se se fizesse stage dive e seria por pouco tempo.
    Na minha opinião a musica que aqueceu mesmo o concerto foi a Sleepwalker mas a Unrest foi muito boa.

    Boa review, Parabéns.

  4. 5 Alexandre

    Para ser sincero não gostei muito de algumas coisas desta review..Parkway drive só trás vibrações positivas,não negativas!!Unrest o provavelmente o melhor som de deep blue??de facto é um som brutal,mas sleepwalker,alone,karma ou deliver me são sons bem mais construtivos!!!e existem muitas outras bandas metal core que continual ao mais alto nivel..mas quanto aos concertos tenho a dizer que reality slap pra mim foi uma grande surpresa pela positiva,nunca os tinha visto e curti mesmo a presença da banda!don’t disturb my circles não tiveram tempo para mostrar muito..Parkway Drive nao ha palavras,foi sem duvida o melhor concerto que já vi!!


  1. 1 Para ver: ‘Karma’ de Parkway Drive « Ponto Alternativo

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