Concerto: The Pains Of Being Pure At Heart @ Lux

18Nov10

16 de Novembro, Lux, Lisboa
Texto por Gonçalo Trindade / Fotos d’Os Lábios por Graziela Costa


O concerto que, com tudo a correr mal, correu muito bem

O concerto dos The Pains of Being Pure at Heart, uma das maiores revelações que o ano passado nos trouxe, estava marcado para as onze, depois da primeira parte d’os Lábios, que seria supostamente às dez. Devido a problemas com o voo, a banda americana entrou em palco, vindos directamente do aeroporto, passava da uma (com um deles a tropeçar e a cair na subida), tirou à nossa frente os instrumentos das malas, montaram o que tinham a montar, fizeram o mais rápido soundcheck de que tenho memória, e começaram a tocar sem a teclista, que se tinha perdido algures durante a viagem e que chegaria só a meio do concerto, literalmente a meio duma música. “Temos andado uns dias à deriva, foi uma loucura para cá chegar e perdemos a nossa teclista, mas isso não interessa por isso vamos lá tocar rock’n’roll”, disse o vocalista. E, aos primeiros segundos de This Love is Fucking Right, foi como se todos os problemas se tivessem eclipsado. Valeu tudo a pena.

Numa noite onde tudo correu mal, é surpreendente que o concerto tenha corrido tão bem. Energéticos em palco, tocando sem falhas, colocando um sorriso na cara dos presentes (literalmente; a certa altura olho à volta e vi um pequeno mar de sorrisos), os Pains of Being Pure at Heart deram um concerto que certamente ficará na memória de muitos como “Aquele concerto em que esperei, esperei e esperei, e valeu a pena”. O atraso não foi culpa deles, e foi com um ar envergonhado e humilde que montaram à nossa frente os instrumentos, pelo meio de muitos “Sorry!”. Se há bandas que se atrasam por aí e nem sequer pedem desculpa por isso (não é, Axl Rose?), outras há que se atrasam e depois em concerto se empenham ao máximo para compensar a espera. Os Pains of Being Pure at Heart pertencem ao segundo grupo.

Antes do concerto em questão, há que também falar d’Os Lábios, banda que fez uma mais que competente primeira parte, aquecendo muito bem o público. Quem já conhecia a banda anterior dos músicos, os The Profilers, sabe bem o talento que aqui há, e este novo projecto não desilude. Agora cantam maioritariamente em português, com mais solos de guitarra e menos teclado, e são, no geral, mais rock. Mas a qualidade mantém-se. Não foi nada que se possa, por exemplo, comparar ao excelente concerto que vi dos The Profilers uma vez no Maxime, mas isso muda-se facilmente com mais tempo em palco, mais algumas canções feitas, e mais experiência nesta nova pele que agora vestem. Daqui a nada, estarão a tocar no Lux a solo.

E uma entediante hora de espera depois, entraram os donos da noite. Com apenas um único álbum, homónimo, editado (mais dois pequenos EP’s), foi certamente com curiosidade que muitos se moveram ao Lux para ouvir a jovem banda americana. Mesmo com vários a abandonar a sala antes do concerto devido ao enorme atraso, a discoteca alfacinha estava bem composta para receber os jovens músicos, que, como esperado, apresentaram alguns belos temas novos ao longo da noite. As canções novas soam tão bem como as antigas, e apenas aumentam ainda mais a curiosidade em ouvir o novo trabalho da banda, que com sorte não há-de demorar muito a ser editado. Claro que os grandes momentos pertenceram, todos eles, às canções do álbum já conhecido por todos, e que foi por muito boa gente considerado dos melhores do ano passado.

A banda encarna um certo espírito icónico do indie rock. São jovens, energéticos (Kip Berman, vocalista e guitarrista, simplesmente não pára), e as suas guitarras são fortes e agressivas, devendo mais a, por exemplo, uns Sonic Youth que a uns The Strokes. E as letras reflectem, claro, a típica excentricidade da adolescência. São daquelas bandas que têm o potencial para, daqui a uns anos, terem já uma enorme legião de fãs e um lugar bem estabelecido dentro do género. Começaram logo com This Love is Fucking Right!, uma das melhores do álbum, que impressiona logo pelas guitarras, pela potência, pela forma como foi tão bem tocada (mesmo com um membro a menos… e eles não deviam estar a sofrer de jet lag, ou algo do género?). Excelente canção de abertura, que foi logo um dos vários belos momentos da noite. Não tardou muito a vir logo de seguida Come Saurday, que manteve a energia e potência que viria a pautar toda a noite. Passaram por praticamente todo o álbum, não esquecendo também os EP’s (103, por exemplo, foi um óptimo momento). A teclista surgiu apenas já na quarta ou quinta música, e quando finalmente apareceu e o quinteto estava completo, as coisas ficaram ainda melhores. Iam decidindo a setlist ao longo do concerto (não tiveram, claro, tempo para fazer a escolha antes), falando frequentemente entre si entre cada música para decidir o que tocar a seguir. Que tudo tenha soado tão coeso e tão bem tocado é, portanto, um dos maiores elogios que lhes podemos fazer.

Para o encore guardaram Contender (não muito habitual nos seus concertos… tivemos sorte), com o vocalista a tocar sozinho, apoiado apenas pela sua guitarra. De seguida, vieram Stay Alive (já antes muito pedida por vários membros do público) e A Teenager in Love, com aquele início que até lembra a Modern Love, do Bowie, que encerraram na perfeição o espectáculo (Stay Alive, em particular, foi mesmo algo de espectacular). Voltaram a pedir desculpa, disseram que depois ficariam pelo Lux (“Foi tão difícil chegar cá que agora nem queremos sair!”), e foram-se embora perante os aplausos depois de quem teve a paciência bem recompensada.

Foi um concerto coeso e bem feito do início ao fim. A banda, carismática e com a qual dificilmente não se simpatiza, é em palco tão boa quanto em disco. Algumas daquelas canções serão, certamente, o hino de várias juventudes, e este concerto ficará igualmente na memória de muitos. Concertos assim, que põem sorrisos tão largos e que nos relembram tão bem o porquê de gostarmos tanto de rock jovem feito por gente nova, são raros. Numa noite onde tudo correu mal, tudo acabou, ao fim de contas, por correr muito, muito bem.

O maior elogio que posso, pessoalmente, dar à banda é este: a certa altura da noite fui obrigado a escolher entre ir para casa e não ver o concerto ou ficar, ver o concerto do início ao fim, e depois ficar sem qualquer forma de voltar para casa. Decidi ficar (e, por sorte e simpatia de um grupo de gente muito simpática que lá estava, acabei por ainda conseguir regressar a casa), correndo o risco e acreditanto que o concerto valeria a pena uma possível noite passada à chuva até às seis e meia da manhã, hora a que o metro abre. Mesmo que isso tivesse acontecido, provavelmente não me teria arrependido de ter ficado. Se quando cá voltarem voltar a acontecer o mesmo atraso, paciência; com concertos assim, perdoa-se tudo.

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One Response to “Concerto: The Pains Of Being Pure At Heart @ Lux”


  1. 1 The Pains of Being Pure at Heart revelam single de avanço do novo álbum « Ponto Alternativo

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