Álbum: The Green Apple Sea – Northern Sky/ Southern Sky (2010)

03Oct10

Escrito por Diogo Duarte

The Green Apple Sea é um exemplo de uma banda seriamente subvalorizada. Antes de mais, por apresentar uma sonoridade, genericamente designada como Indie/ Folk, com a qual a maioria dos ouvintes está perfeitamente familiarizada e que até se pode dizer que está algo na moda. Mas, acima de tudo, por ser um dos casos mais consistentes neste universo musical – algo vasto, diga-se, mas que nem sempre tem a equivalente correspondência em qualidade. Northern Sky/ Southern Sky, o quarto CD desta banda que já leva dez anos de carreira, evidencia com particular força a sua singularidade perante essa imensidão de obras e artistas raramente estimulantes, para não dizer triviais.

O excesso de produção neste “estilo” é, aliás, uma das possíveis explicações para o desconhecimento destes germânicos, abafados que ficam no fundo duma gaveta cada vez mais saturada. Mas aliado a isso está, provavelmente, a humildade do som que apresentam, que, sem ser propriamente original, não deixa por isso de ter uma enorme personalidade. Entenda-se que humildade aqui não tem qualquer conotação moral e não é mais que a tradução dum som desprovido de exageros nas composições – uma armadilha em que é recorrente cair e que muitas vezes serve apenas para tirar envolvência e beleza às musicas.

A singularidade e consistência de The Green Apple Sea é o resultado da capacidade que têm de fazer como poucos aquilo a que se propõem, sem caírem em pretensiosismos desmedidos e assumindo sem vergonha estilos e referências em cada nota que tocam, cruzando toda essa diversidade com solidez e sem soar a colagem barata. No banjo de Nightmares ou de Satellite Wings vislumbramos algumas paisagens norte-americanas, sem que nunca se chegue a sair da Europa Central; no embalo de algumas músicas descobrimos afinidades com Kings of Convenience; na  acolhedora voz de Stefan Prange encontramos, pontualmente, familiaridade com Tom Barman, para dar uma referência improvável entre tantas outras possíveis; e no minimalismo das composições sentimos muitas vezes os melhores ambientes de Logh ou de Low.

É a essa proporcionalidade nos arranjos que a beleza melancólica destas músicas muito fica a dever. São ricos mas sempre bem doseados e em perfeita sintonia com a voz de Stefan Prange, o que torna as músicas leves mas profundas; assumidamente tristes e melancólicas mas acolhedoras, sem que nunca se tornem claustrofóbicas. Apesar de nos levarem facilmente à introspecção, sentimos sempre uma alegria contida a percorrê-las. É em músicas como Sattelite Wings, Sleep! Now!, Whale Watching ou Close to Break, que encontramos pontos especialmente altos desta combinação.

Todo este ambiente ficaria incompleto se não referíssemos as letras de Northern Sky/ Southern Sky, mesmo depois de tantos adjectivos e loas. A dicotomia que o título indicia é expressão dos temas que as atravessam: experiências divididas entre o Hemisfério Sul e o Hemisfério Norte, entre o crescimento de Stefan Prange no norte da Alemanha e a sua vivência actual no sul do mesmo país, ou ainda os altos e baixos emocionais do quotidiano. Sinceras e sem qualquer afectação, e por isso mesmo em harmonia com o resto do álbum, as letras encontram o equilíbrio perfeito entre contar as histórias mais banais do dia-a-dia e a escolha prudente das palavras, fugindo por isso com facilidade dos clichés recorrentes do género. É, aliás, nessa leveza, por vezes quase infantil, que encontram a sua atracção. Em Rock’n’Roll Band, ainda assim uma das músicas mais desinteressantes do álbum, mostram mesmo algum sentido de humor.

Se alguma coisa podia ser apontada a este trabalho, seria precisamente esta sua aparente contenção – para não dizer falta de ousadia – que lhe é transversal. Talvez para quem procure ser surpreendido, ou procure outro tipo de virtuosismos, este factor seja o suficiente para relativizar tudo o que disse e sirva para tornar este apontamento numa crítica legítima. Mas  a maturidade que encontramos nas músicas de Northern Sky/ Southern Sky, muito mais palpável do que nos trabalhos anteriores, e a verdadeira declaração de amor à arte que é feita quando percebemos que cada acorde tocado é motivado apenas por fidelidade à música em si, diminuem consideravelmente a gravidade dessa característica.

Mas os gostos discutem-se, e esta é apenas a opinião de alguém que tem ouvido incessantemente este álbum, talvez induzido por um estado psicológico ainda em fase de adaptação ao Outono. Seja como for, Northern Sky/ Southern Sky cola a The Green Apple Sea o rótulo de “tesouro bem guardado”, talvez à espera do momento em que encontrarão a visibilidade merecida – certamente maior do que a que possuem actualmente. A atestar que (ainda) não têm a projecção que merecem está o facto de recentemente terem visitado Portugal, numa versão a solo pela mão do vocalista Stefan Prange, e terem passado mais despercebidos do que seria suposto. Aconselho-vos a mostrar esta banda aos amigos e de certeza que na próxima visita destes germânicos a recepção será diferente.

Northern Sky/Southern Sky:

1 – Northern Sky
2 – Nightmares
3 – Satellite Wings
4 – Broderick
5 – Sleep! Now!
6 – Whale Watching
7 – Downward Spiral
8 – A Golden Morning
9 – Close to Break
10 – Rock ‘N Roll Band

Northern Sky/Southern Sky tem edição da alemã KF Records a 15 de Outubro mas já está à venda em Portugal via Fabulous Generation desde 13 de Setembro.

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