Peltzer em entrevista: “Somos influenciados pelo mundo”

18Apr10

Escrito por Ana Beatriz Rodrigues

São tomarenses e movem-se pelos caminhos alternativos da música electrónica. O quarteto, que aposta na melodia que esta corrente pode oferecer, alia o som à imagem, com os trabalhos de VJing presentes. A sua música é límpida, com efeitos claros e que nos fazem ter vontade de não parar de dançar. Com a estreia de Outdated, que o PA presenciou, seguem-se novos planos.

Antes de mais, como, onde e quando surgiram os Peltzer?

Os PELTZER nasceram da experimentação individual das características timbrais dos sintetizadores virtuais que abundam pelos computadores de grande parte dos músicos de hoje. Começa-se por mexer num oscilador para ouvir o que acontece e, quando se dá por ela, temos uma canção nas mãos. Para mim, não é muito diferente do que acontece quando se pressiona uma tecla de um piano, logo a seguir vêm outras notas, acordes, palavras e letras, seja qual for a ordem.

Como surge Outdated? Houve facilidade no processo de gravação?

O Outdated nasceu da parceria com o produtor Miguel Urbano, que veio tratar as canções de uma série de vícios de expressão típicos da composição solitária. Depois, foi convidado o Carlos Calado para reforçar com um baixo eléctrico algumas linhas de baixo que estavam com baixo electrónico. O Carlos Calado acabou por compor novas linhas e gravar as guitarras que já havia composto em 2006, como é o caso de A story to tell me. O baixo eléctrico é agora interpretado pelo Paulo Barreto. É notório que vocês apostam na parte visual, devido à presença do Pedro Gonçalves, que cumpre o seu papel de VJ.

Acham que a imagem é um complemento à música?

Sim, felizmente a maior parte dos seres humanos conseguem usufruir desses dois sentidos em simultâneo, pelo que faz sentido que se estimulem os dois em concerto. O Pedro faz parte do projecto desde o início e, com o VJing, temos muito mais facilidade em comunicar por esse meio, é uma banda de quatro elementos.

Quais são as vossas principais influências musicais?

Temos alguns nomes consensuais, como: Grandaddy, Mercury Rev, Bjork, Massive Attack, Portishead, Flaming Lips, Hot Chip, Radiohead, Ladytron, Interpol, Joy Division, The Beatles, Shumman, Pulp, Ravi Shankar, Grizzly Bear, Morrisey, Late of the Pier, Chopin, Depeche Mode, Gorillaz.

No concerto de Tomar, o Rui Gaio mencionou uma dedicatória a Carl Sagan. A vossa música também é também influenciada pela literatura?

Passe o lugar comum, somos influenciados pelo mundo. É claro que o mundo artístico influencia-nos de forma mais discernível e, a literatura com certeza exercerá essa influência mais directamente. A dedicatória para o Carl Sagan – dado o tema interpretado, Constellation – alude a um episódio apocalíptico da história, superiormente, descrito pelo Sagan: a destruição da Biblioteca de Alexandria.

O vosso grupo agrega membros de outras bandas já reconhecidas em palcos portugueses. Que expectativas têm para os Peltzer?

O grupo está muito unido e motivado porque somos amigos e sente-se um prazer crescente em tocarmos juntos. Temos novas canções, nas quais depositamos uma enorme esperança e que deixam antever um futuro auspicioso.

“Para nenhum dos elementos dos Peltzer a música é um hobby”

Em Portugal, é pouco usual bandas que enveredem pelos caminhos da música electrónica. Conseguem explicar porquê, atendendo ao sucesso que este estilo musical tem internacionalmente?

É difícil responder porque no meio musical no qual me encontro – esse microclima tomarense – é pouco usual não enveredar pela música electrónica. Há tanto coisa a descobrir na relação da música com a tecnologia que não temos dúvidas que, cada vez mais, músicos portugueses quererão explorar esse (semi-)novo mundo. E já que se fala em mundos novos, o que realmente me surpreende é que a comunidade musical portuguesa esteja a demorar tanto tempo a povoar os Mundos Virtuais como o Second Life (SL), onde é possível tocar ao vivo para todo o mundo e ainda ser pago por cada concerto. Com o meu avatar, Peltzer Hirano, já dei mais de 300 [concertos]  em vários locais (sims) do Second Life e, graças a isso, fiquei com o meu set ensaiadíssimo. Tendo em conta, a dificuldade que, por vezes, existe em angariar concertos, e com a facilidade que há em os angariar no SL, por que não experimentar? Talvez ainda haja um estigma geek que não é saudável para a evolução da comunidade.

Algum membro da banda vive integralmente para a música?

Eu [Rui Gaio] tive que deixar de viver integralmente da música, mas o Carlos Calado sim, vive em exclusivo da guitarra, talvez por ser um guitarrista, bem como o Paulo Barreto, que também vive integralmente para a música. Na minha perspectiva, há três tipos de relação horária de um individuo com a música: full time, part-time e hobby. Para nenhum dos elementos de PELTZER a música é um hobby.

Vocês têm recebido um bom feedback por parte da crítica nacional. E por parte dos fãs, nas redes sociais? Alguma vez seguiram um conselho dado por um fã, para se recriarem musicalmente?

Sim, felizmente, a crítica está a receber bem o disco. Os fãs ainda não são muitos, mas são muito bons! [risos] Os seus conselhos têm sido recebidos com muito carinho e atenção, mas alguns terão uma repercussão estética, outros não.

Acham que Portugal trata bem as suas bandas?

Acho que esta nova geração vai tratar bem, porque, graças ao intercâmbio de informação, ouvem muito mais música que a minha geração e as gerações antes da minha. Estão habituados a não pagar para ouvir música, mas a pagar para ver concertos. Quando se pergunta que música ouvem, dizem os nomes dos artistas e não tanto a designação de um determinado género, o que é um indicador de cultura musical. Outro aspecto positivo é o apoio que as autarquias estão a dar à produção nacional através de agendas de auditórios e cafés-concerto muito bem geridas. Saliento pela positiva a câmara municipal de Guimarães. Já em Tomar, foi a iniciativa privada, pelas mãos dos proprietários do Theatro Bar, que veio colmatar um grande vazio. Já a comunidade portuguesa de músicos continua a não apostar no associativismo. Por exemplo, se se seguissem as directivas dos sindicatos dos músicos de Portugal, nenhum músico tocaria abaixo de um determinado valor. Isso está a fazer com que alguns proprietários de espaços que promovem música ao vivo se aproveitem e paguem miseravelmente às bandas, especialmente às que tocam originais e ainda são pouco conhecidas.

Quais os próximos planos dos Peltzer? Voltar ao estúdio, mais digressões?

As duas coisas, porque esta digressão soube a pouco e o EP é pequenito. Já estamos a tocar músicas novas que vão ser gravadas brevemente. Adianto que teremos ainda este ano um maxi de dois temas cá fora, e, desta vez, com direito a vídeo com realização de Homem Bala.

Têm algumas palavras que queiram deixar aos leitores do Ponto Alternativo?

Sim, se gostam a sério de música passem este endereço para toda a vossa rede de contactos: https://opontoalternativo.wordpress.com/. [risos]

Foto retirada do myspace do Theatro Bar

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